Entrevista: Claudio Marino

entrevista por Guilherme Lage

A pequena Linköping, na Suécia, chamou a atenção do mundo do heavy metal quando a atração profano-musical conhecida como Ghost emergiu de suas entranhas em 2010. Criado na mesma cidade e socializando nos mesmos círculos musicais de Papa Emeritus e seus asseclas, estava Claudio Marino.

Atualmente residindo em Estocolmo, Claudio também se enveredou pela música e é o responsável pelos vocais do Tid, que conta com dois ex-Nameless Ghouls: os guitarristas Martin Persner (atual Magna Carta Cartel) e Simon Söderberg (atual The Open Up And Bleeds).

Sobre ele, há muito mais o que contar do que suas empreitadas musicais. Além de se esgoelar no microfone, ele é desde 2014, proprietário da Artax Film, produtora que, sob a égide do sueco, coleciona prêmios Europa afora com documentários como “Cold Void” e a trilogia “Blood & Spirit” (para citar alguns).

Ele também assina colaborações visuais, seja em vídeo, seja criando a própria identidade, de bandas como Behemoth, Watain, Neurosis, e Shining, além de claro o próprio Ghost e MCC – Magna Carta Cartel.

Falar sobre seu trabalho é, então, falar sobre uma miríade de habilidades artísticas que vão da luz às sombras e foi sobre essas habilidades que conversamos em entrevista por Skype. Confira:

Pode contar um pouco sobre seu background? Como você se interessou por arte?
Claro, acho que foi já quando eu era bem novo. Quando montei minha primeira banda, eu me interessava muito por fotografias e imagens. Acho que foi isso que me interessou a princípio, quando gravamos nossa primeira demo tape, eu tentei fazer um visual mais interessante pra ela.

Eu percebo que muito da sua arte vem do ambiente musical que você frequenta, certo? Então quando você começou com a sua primeira banda, acredito que a preocupação com efeitos e artes visuais já existia, não é?
Sim, acho que meu interesse por música foi o que começou tudo isso. Eu sempre fui muito interessado por capas discos, tanto quanto na própria música. E isso sempre me inspirou a investir bastante nessa parte. Uma coisa que sempre me inspirou é imaginar cenários musicais do meio dos anos noventa, em que eles usavam muitos efeitos visuais, muitos projetores. Uns dez ou doze projetores no palco e sempre achei isso incrível. Eu sempre pensei: “É assim que se faz um show ao vivo.”

Pode falar sobre a Artax? Sobre o começo da empresa.
Comecei a empresa exatamente na mesma época que fiz o primeiro filme. Eu precisava ter uma companhia para fins de divulgação. Então batizei a companhia com o mesmo nome de um dos meus personagens favoritos: Artax é o nome do cavalo n’”A História Sem Fim”. E ao mesmo tempo eu fui co-fundador de outra empresa de produção. Só precisávamos de uma companhia para poder continuar com os projetos, basicamente (risos). No início eram apenas documentários, mas agora eu faço isso pra viver e fazemos todos os tipos de filme, vídeos musicais inclusive.

O seu trabalho é bem diverso. Deve ser uma viagem e tanto trabalhar com bandas como MCC e Watain que são tão diferentes.
Sim, são mesmo e realmente adoro isso. É muito legal poder fazer algo mais palatável num dia e algo mais obscuro e gráfico em outro. Desde que exista algo na música que fale comigo, eu gosto de participar, não importa muito qual é o tipo de música. Acho que é isso que mais me motiva, na verdade. Não quero ficar sempre fazendo as mesmas coisas, tenho uma certa necessidade de me desafiar.

A primeira vez que assisti “Cold Void” eu fiquei realmente impressionado. Colocar Niklas Kvaforth (Shining) para falar sobre transtornos mentais foi bem interessante. Como teve essa ideia?
Bom, sobre o documentário, Niklas é um cara que sempre esteve próximo dos meus círculos de amizade, sempre falaram muito nele e eu sempre tive um certo interesse por ele como pessoa. Comecei a perguntar aos meus amigos que o conheciam sobre como ele era e metade deles disseram “ele é um babaca, não acredite em metade das coisas que ele disser” e a outra metade comentou: “existe um cara muito interessante por trás de tudo aquilo”. E foi muito interessante, na verdade. Entrei em contato e depois que ele viu algumas das minhas outras coisas, ele topou participar. Eu não queria fazer um filme sobre o Shining ou sobre a carreira musical dele, mas sim para mostra-lo como pessoa, o homem por trás de tudo aquilo que ouvimos falar. Então, claro, transtornos mentais fazem parte da vida dele e essa parte precisava estar no documentário.

E sobre a trilogia “Blood & Spirit”, qual a ideia por trás dos documentários?
Não era para ser uma trilogia no início, o “Ink, Blood & Spirit”, que é o primeiro, acho que foi o primeiro filme que fiz. Na verdade, eu só queria um jeito de conhecer o cara (Little Swastika), porque sou fascinado por ele desde jovem. Entrei em contato com o Little Swastika, conversamos e, de repente, já tínhamos as datas e tudo mais. Fomos para o sul da Alemanha e eu amei todo o processo de produção, tudo desde a viagem até estar lá fazendo as gravações, então eu sabia que tinha feito algo especial ali. Nessa mesma época eu estava fazendo um trabalho com Jycken, o lutador de UFC e ao mesmo tempo estava fazendo algo para o Watain. Então perguntei a ele e ao Erik (Danielsson, Watain) ao mesmo tempo se tinham interesse em participar de um doc. Eu meio que esperava que ao menos um deles recusasse (risos), mas depois de ver o primeiro filme, os dois toparam na mesma hora. Então tive essa ideia da trilogia, fazer os dois filmes da mesma forma que fiz o primeiro.

Uma coisa notei é que existe uma dinâmica muito forte no seu trabalho. Existe brilho, mas ao mesmo tempo é muito obscuro. É algo que você procura trabalhar como uma assinatura própria?
Nossa, fico muito feliz que você tenha notado isso, porque é exatamente o que procuro fazer. Acho que o contraste é o elemento principal do meu trabalho. Acredito que todo tipo de design deveria ter algo assim, luz e escuridão, vida e morte. Acho que isso representa a própria vida, nunca é só de um jeito ou de outro. Ainda que eu faça alguns trabalhos minimalistas de vez em quando, quando trabalho sempre procuro usar esse tipo de contraste. Contraste e equilíbrio, é isso que eu sempre procuro.

Algo que me chamou minha atenção quando olhava o seu site foram os logos que você faz para bandas. Deve ser algo bem desafiador de se fazer, certo?
Sim, bastante. Quando começo a fazer o projeto de um logo, sempre pergunto para as bandas o que elas têm em mente. Quase sempre eles não pensaram muito nisso e me dão muita liberdade para criar. Pra mim, assim fica muito mais fácil de fazer as coisas. Não quero criar um logo que se pareça, sei lá, com qualquer banda de heavy metal. Quando eles já têm alguma visão do que querem, acho que fica até um pouco limitante pra mim. Prefiro fazer logos que, claro, fiquem legais, mas não só isso, que tenham algum tipo de significado. Todo meu trabalho gráfico precisa ter algum tipo de significado.

E sendo músico, você acha que consegue se conectar melhor com a música das bandas para poder ilustrá-la de forma coerente?
Sim, acho que sim. Acho que antes de mais nada é importante gostar de música e ter uma imagem visual dela com o significado e tudo mais. É sempre mais difícil de ilustrar algo quando eu nunca tinha tido um contato com a música antes, ainda que eu goste. Mas claro, quando a música fala comigo torna tudo mais fácil.

Seu último trabalho em vídeo foi o clipe para “The Sun & The Rain” do MCC, certo? É muito simples, mas ao mesmo tempo, muito legal. Como vocês tiveram a ideia praquele vídeo?
Eu não deveria ganhar todo o crédito pelo vídeo, porque boa parte foi ideia do Martin. A gente só tinha orçamento pra um lyric vídeo, eu não estava lá com tanto dinheiro. Então tivemos essa ideia e que poderíamos fazer em um único cenário, essa era nossa limitação. Então o Martin chegou com essa ideia de um cara e que o vídeo todo girasse em torno dele. As coisas acontecem muito rápido, mas ao mesmo tempo acompanham a música e essa era, claro, nossa ideia.

Podemos falar um pouco sobre a sua banda? Existem planos futuros para o Tid? Alguma turnê, talvez?
(Nota: a palavra Tid significa tempo em sueco e não é uma abreviação para “Time Is Divine” como pensado anteriormente) Nada muito sério ainda. Já conversamos a respeito, mas agora os outros caras estão bem ocupados com as coisas deles. Conversamos sobre fazer algo junto com o MCC, seria algo como um set duplo, porque hoje em dia, as bandas contam com mais ou menos os mesmos membros. Mas, por enquanto, não existe nada certo. Talvez no ano que vem, vamos ver.

Você foi responsável por grande parte da identidade visual do Ghost no início, como é ver a banda ficar tão grande hoje em dia?
É, isso foi bem louco. Nenhum de nós esperava algo assim. Eles todos são meus amigos. Tobias (Forge, Ghost) e eu frequentamos a mesma creche quando tínhamos, sei lá, uns quatro anos de idade e conheço ele a minha vida inteira. Martin e Simon também são grandes amigos, já tocamos em várias bandas juntos. Foi muito estranho, mas ao mesmo tempo realmente fantástico. Ver que existe a possibilidade para caras como nós, saídos de uma cidade tão pequena se tornarem uma das maiores bandas do mundo. Então sim, é incrível, mas esquisito ao mesmo tempo, porque são todos meus amigos e nunca nem sonhamos com isso.

Algum projeto futuro que pode falar a respeito?
Sim, posso te contar sobre o documentário em que estou trabalhando com Nergal, do Behemoth. Estou focando todo o meu tempo nele. Estive trabalhando nele o ano inteiro, na verdade. Fui para a Polônia algumas vezes e vou voltar lá mais uma vez no fim do ano para terminar as gravações. Até agora está ficando muito bom e o problema de estar demorando tanto é que o Behemoth está sempre em turnê e o Nergal está sempre ocupado com alguma outra coisa. O filme deve estrear, provavelmente, no ano que vem.

Nesse filme vocês vão mostrar turnês ou vai ser algo só com o Nergal?
Só o Nergal, como pessoa. Assim como fizemos com o Niklas. Eles estão preparando um outro documentário sobre a banda. Sou mais interessado em histórias pessoais, quero fazer um filme sobre ele como ser humano. Ele passou por muita coisa, já esteve muito próximo de morrer e também toda as causas que ele se envolve. Ele, sem dúvida, é uma pessoa interessante para se documentar. O Behemoth vai estar lá, claro, mas mais como um pano de fundo.

E ele é, sem dúvida, uma imagem forte de se mostrar para as pessoas…
Sim, e principalmente sendo polonês ele é constantemente atacado por conta das crenças políticas e mesmo sendo um país quase vizinho da Suécia, as coisas são bem difíceis por lá.

E como falamos antes, ir de música alternativa para black metal não é algo que qualquer um consegue fazer, não é?
É verdade, não sei. Mas para mim, está no meu sangue. Eu escuto muita música e é a coisa natural para mim, sair por aí e fazer todo o tipo de coisa, é o que me motiva e me desafia.

Por fim, existe algum artista ou cineasta brasileiro que você admire?
Sabe que eu não sei? (risos). Eu procuro acompanhar os cenários do mundo inteiro, mas acho que na maior parte eu diria que assisto cinema americano. Na América Latina existem pessoas que admiro muito, no México principalmente. Quanto a artistas, eu não costumo seguir artistas (risos). Busco inspiração para cada projeto em coisas diferentes. Mas se você tiver alguma sugestão sobre filmes brasileiros, eu adoraria ouvir. Se puder fazer uma lista e me mandar, seria demais.

– Guilherme Lage (www.facebook.com/breadandkat) é jornalista e mora em Vila Velha, ES.

 

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