Entrevista: Monza

por Renan Guerra

Dois anos depois do divertido “Hoje Foi Um Dia Fantástico” (2016), os paulistanos do Monza voltam envoltos em camadas de melancolia no novo álbum “Bonsai” (2018). Produzido de forma independente e lançado pelo selo Freak, o novo disco deixa de lado a ironia e não tem medo de assumir dores e revirá-las de forma distinta.

Bonsai, a planta, é daquelas que você cria e cerceia seu crescimento: impedida de crescer, ela encontra sua força naquele espaço, dentro de suas limitações e imposições. É dessa metáfora que parte o disco do Monza: amadurecer é compreender limitações e bater cabeça com certas imposições. Nesse sentido, a melancolia e força desse universo apresentado no disco não poderia ser mais simbólico para este 2018.

O Monza – formado por Fábio Leão no baixo, Felipe Misale na voz e guitarra, Francisco Fernandes na guitarra e Luca Galego na bateria – parece mais amadurecido, menos pop que em sua estreia, mas também sem arestas a serem presas. “Bonsai” soa como um disco mais redondinho para apresentar a banda a novos públicos, por isso mesmo batemos um papo com a banda via e-mail, para compreender mais sobre todo esse universo que constrói o Monza.

Francisco Fernandes e Felipe Misale falaram sobre influências, sobre o processo de produção e sobre a independência da banda. Confira a entrevista abaixo:

Vocês falam que esse novo disco “contempla a angústia como parte do todo”, nesse sentido, eu acho ele mais melancólico e com menos ironia ou aquele humor auto-depreciativo que pairava sobre o “Hoje Foi Um Dia Fantástico”. Essa foi uma mudança premeditada?
Francisco: Foi sim uma mudança premeditada. Natural, mas premeditada. Hoje acho esse lance do auto-depreciativo um negócio complicado. Você se esconde por trás do humor e pouco muda, no que diz respeito às questões que gostaria de levantar. Distancia um pouco, esfumaça e não resolve. Claro que a ironia pode ser uma ferramenta, mas não exatamente nesse momento, falando do que estamos falando. Pro “Bonsai” foi mais interessante trazer a temática pra frente, poder conversar de maneira mais aberta a respeito. Ajuda a esclarecer as coisas na nossa cabeça também, o que acho bem importante.

Aliás, “Bonsai” foi composto pelos quatro, de forma conjunta, acreditam que isso impacta nessa sensação mais melancólica que o disco passa?
Francisco: O disco foi se realizando em quarteto, o que é uma parada nova pra gente. Gravamos por conta, estávamos mais próximos. A sonoridade trazer alguma coisa de melancólico parece ser parte do jeito que tocamos quando estamos juntos. Desde composições, até a escolha de sons e tal. O Fê trouxe umas novas afinações e uma porrada de ideias. As letras, um pouco mais comigo. O Fábio tomou conta das gravações e criou toda uma atmosfera sonora pro disco. E o Luca é o cara que consegue transformar qualquer ideia torta em música pronta, coloca a gente nos eixos quando tá todo mundo perdido. Foi meio assim que funcionou e, por mim, com certeza impactou na forma como o disco está soando.

Você fala que vocês gravaram por conta, de forma independente, como foi esse processo de produção?
Francisco: O processo foi bem independente mesmo. O começo dos arranjos e a pré-produção foi toda feita em casa, com os instrumentos que estavam na mão. Violãozinho, bateria do teclado. Aos poucos, conforme as músicas foram tomando forma, a gente passou para o estúdio do Fábio e gravamos umas guias. No estúdio o lance foi mais demorado, a gente perdeu bastante tempo descobrindo uns sons, criando umas camadas novas, modificando os arranjos inclusive. Foi só na mixagem e masterização que pedimos ajuda para o Guilherme Chiapetta, que é uma cara que a gente admira bastante e que já tinha trabalhado no “Hoje Foi Um Dia Fantástico”.

Como vocês lidam com essa independência toda: pende mais pro lado positivo ou negativo? Hoje vocês conseguem viver de música?
Francisco: Aí já falo por mim, mas vejo a independência como única alternativa. É um som específico e tenho dificuldade de imaginar a gente num esquema que não esse. Acho sempre positivo, como experiência mesmo, entender todas as partes do processo. Tem muito corre, papelada, administrar tempo e grana. Ao mesmo tempo, uma certa liberdade criativa que também é legal. Por sorte rolam meios de existir enquanto banda desse jeito… Viver da banda, pra gente, ainda é um negócio distante. Mas todo mundo meio que trabalha com música, direta ou indiretamente.

Falando sobre o nome do disco, tem toda essa simbologia de se criar, cuidar e manter um bonsai. Poderíamos fazer um paralelo entre criar um bonsai e manter um banda independente?
Francisco: O nome surgiu de uma leitura um pouco mais dura do bonsai. Da beleza e da forma como o crescimento da árvore é impedido, o que é meio brutal. Mas com certeza, partindo para um outro lado e pensando nesse sentido do trabalho de manutenção, o paralelo funciona bem! Gravar um disco, montar um show, criar conteúdo o tempo todo…

Nesse sentido, podemos dizer que o nome “Bonsai” tem a ver com amadurecimento e todas as asperezas que vêm atreladas a isso?
Francisco: Eu acho que encaro o amadurecimento como a constatação dessas coisas, sim. Elas ficam mais claras, mais fáceis de reconhecer. A gente falou de melancolia lá atrás e tem um pouco de entender ela não como fase, mas como parte da vida. A coisa não se dissocia. A angústia, por exemplo, também faz parte das nossas relações com outras pessoas e com o mundo. As coisas boas e bonitas trazem um bocado disso. Acho que vem daí a relação com o nome “Bonsai”.

Nesse disco vocês exploram mais camadas e as canções parecem mais complexas sonoramente. O que inspirou vocês? Quais são as referências mais coletivas assim?
Felipe: A grande diferença do “Hoje Foi Um Dia Fantástico” (2016) para o “Bonsai” (2018) é que o primeiro passou por um processo de adaptação, a maioria das canções foram feitas em trio, antes da entrada do Fábio (assumindo o baixo) e criando espaço para uma segunda guitarra que o Chico viria a assumir. O “Bonsai” já nasceu em quarteto e com os quatro colocando a mão na composição. Pensamos em partes específicas para cada um e também em quebrar um pouco mais a música em momentos, apesar da gente ter uma característica de composição de um rock mais fluido. Aconteceu nesse processo também a liberdade para ficar em estúdio criando, em muito momentos uma terceira linha melódica em algumas faixas, “Travessa” – faixa que abre o disco – acho que apresenta bem essas camadas. Acho que de influências coletivas, que mais influenciaram no som final do disco e da banda em geral, passa por Built to Spill, Real State, Pure X, Beach Fossils…

Além dessas referências sonoras, quais outras coisas influenciam vocês? Digo livros, filmes, artistas.
Felipe: Pessoalmente falando, eu tenho mais conexão com artistas visuais contemporâneos como a Vânia Mignone, James Benjamin Franklin, Ruohan Wang, consumo muita cultura de internet e vídeo arte também. Acho interessante o modo como Andrew Savage da banda Parquet Courts mantém uma vida dividida entre música e artes plásticas de uma forma muita sadia. Algo muito próximo aos movimentos de vanguarda dos anos 1960 em que o pessoal se juntava pra produzir arte em todos os campos.

A preocupação visual de vocês também é algo importante: a capa do Eduardo Sancinetti é linda e faz parte da série “Selva”, de 2015. Como vocês chegaram a esse projeto?
Felipe: Nós ficamos em dúvida no começo se seria uma foto ou uma ilustração. Acabou que durante uma busca de referências eu me lembrei da obra do Sancinetti que sempre me chamou atenção, acompanho ele desde 2009 (por aí). Resolvi mostrar pros meninos pra ver o que eles achavam dessa estética. todos curtiram e a gente acionou o Eduardo pra ver a possibilidade dele fazer algo específico pra capa do disco. Marcamos um encontro no estúdio e ele foi mostrando inúmeras obras que ele já tinha feito, um catálogo enorme. A pintura do que se tornou a capa do “Bonsai” eu lembro do momento em que ele tirou a tela de um plástico bolha, já tinha até o formato 1:1 necessário para uma capa, foi amor à primeira vista.

– Renan Guerra é jornalista e colabora com o site A Escotilha. Escreve para o Scream & Yell desde 2014. A foto usadas no texto é de Carlos Oliveira / Divulgação

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