Entrevista: Tagore (2018)

Entrevista por Daniel Tavares

Presente na lista de Melhores Discos do Ano da votação do Scream & Yell, “Pineal” (2016, ouça no Spotify), o segundo disco do grupo pernambucano Tagore, ampliou o alcance da banda ao mesmo tempo em que os conectava com o que de mais bacana a música mundial vem produzindo na atualidade. “Nossa imersão em sons de artistas contemporâneos como Unknown Mortal Orquestra e Tame Impala é que definiu a estética que queríamos”, conta o frontman Tagore Suassuna.

Com um mês de março bastante agitado na programação da banda, Tagore precisou dar um tempo na imersão da produção do vindouro terceiro disco para se apresentar primeiro no South By Southwest, em Austin, nos Estados Unidos, dentro da programação de showcases do badalado festival Levitation, e depois no Lollapalooza Brasil, abrindo a programação do mesmo palco que, na sequencia, irá receber The National e Pearl Jam.

Na conversa abaixo, Tagore Suassuna fala sobre a influência da banda pernambucana Ave Sangria (“Eles representam grande parte da minha formação musical, crua”), comenta a incerteza do momento atual do país (“Vivemos um drástico golpe político, e da maneira que os eventos vêm se desenrolando, fica difícil traçar o cenário num futuro próximo”) e adianta que tocará músicas inéditas no Lollapalooza (uma delas até já tem nome: “Fantástica Companheira”). Confira o papo.

Uma curiosidade: seu nome é uma homenagem a Rabindranath Tagore, escritor indiano? Além do nome, você acha que há alguma influência dele, das obras dele na sua vida e na sua carreira?
Sim, é uma homenagem ao Tagore indiano. Eu diria que vejo muitos pontos em comum nas nossas vidas e obras, mas não acho que sou diretamente influenciado por ele.

Em uma de suas frases, ele dizia “Compreendemos mal o mundo e depois dizemos que ele nos decepciona” Ninguém melhor que você para comentar sobre isso. O que você acha desta afirmação?
Acho que ele quis dizer que nos conhecemos tão pouco, e somos tão confusos por dentro, mas mesmo assim culpamos o mundo, o externo, por nossa desordem interior.

Para quem ainda não o conhece, como você definiria o som que você faz?
Música Pop com sotaque nordestino.

“Pineal” foi muito diferente do primeiro, “Movido a Vapor” (2014). O que podemos esperar deste terceiro? Os regionalismos vão voltar?
Esse terceiro disco vai ser o resultado de todas as nossas vivências artísticas até hoje, os anos de estrada, as infindáveis horas de estúdio, as auroras e os amores, tudo isso compõe o universo desse próximo trabalho.

O que te dá mais prazer? Compor, escrever a música ou tocá-la diante de uma multidão de pessoas?
Tocar, sem dúvida. É o zênite da criação, ver ela agora ser também de outros corações.

A mudança para São Paulo afetou na mudança de sonoridade em “Pineal”? Podemos dizer que “Movido a Vapor” é mais pernambucano e “Pineal” é mais paulista?
Eu diria que a mudança pra são Paulo influenciou sim, mas não foi determinante. Nossa imersão em sons de artistas contemporâneos como Unknown Mortal Orquestra e Tame Impala é que definiu a estética que queríamos para o “Pineal”. De fato em comparação, o “Movido a Vapor” soa bem mais fiel aos sons característicos de Pernambuco.

Quais são os significados das figuras na capa de “Pineal”? A mulher, o gato amarelo, a ave que voa em um arco-íris em linha reta…
A arte da capa é do Caramuru Baumgartner e foi feita em separado do conceito do disco, um dia ele nos mostrou o desenho, e tanto eu quanto o João, vimos uma correlação entre as obras. Na minha visão, A “mulher” na verdade é um ser indefinido, e representa nossa busca do auto conhecimento em meio ao infinito. O pássaro e o gato seriam nosso elo com a natureza e o arco – íris as diversas vibrações energéticas.

Na letra de “Ilhas Cayman” você escreve: “Na eleição que vem / Prometo melhorar, porém / Sem parar de roubar / Pra praticar o bem / Insisto em desviar / Mais 100 milhões pra passear”. Esse trecho é endereçado a algum político em especial? Como vocês enxergam o atual momento político brasileiro?
Fiz essa canção inspirada no Sérgio Naya, empresário e político corrupto dos anos 90, famoso pelo caso do edifício Palace 2 e pelo vídeo no qual recusava-se a beber em taças de cristal “comum”. Vivemos um drástico golpe político, e da maneira que os eventos vêm se desenrolando, fica difícil traçar o cenário num futuro próximo.

E quanto ao Lollapalooza? Como foi o convite para tocar no festival?
O convite veio por email, foi uma surpresa pra nós. Porque tocaremos hits do próximo disco.

E por que, num festival com atrações tão diferentes, o show da Tagore é algo que não se pode perder?
Pra quem tá curioso, é uma ótima oportunidade de sacar num sistema de som incrível.

E, como fã, das bandas que vão se apresentar no festival, qual você está mais ansioso pra ver?
Anderson Paak [O rapper e baterista Brandon Paak Anderson, estilizado Anderson .Paak, apresenta-se no Palco Budweiser, o mesmo de Tagore e Pearl Jam, no sábado, 25, às 16h10].

Pernambuco é um estado riquíssimo em termos musicais. Que outras bandas de Pernambuco você indicaria para a edição de 2019?
Phalanx Formation, Barro, Juvenil Silva, Aninha Martins, Bule, The Raulis.

O Ave Sangria, de quem vocês regravaram “Dois Navegantes”, voltou aos palcos recentemente. Seria uma opção, não? O que a banda significa pra você?
Eu tenho uma relação próxima com a banda, e pra mim eles representam grande parte da minha formação musical, crua. Quanto a tocarem no Lolla, eu não acho que seria o palco ideal pra eles, acredito que esse é um espaço mais adequado pra artistas que estão construindo suas carreiras, uma vitrine fundamental.

A boa música brasileira tornou-se coisa de nicho, em meio a tanto ritmo “universitário”, que só se prende aos temas balada e infidelidade? Como você vê a música brasileira hoje e o que faz mais sucesso nas paradas?
Na minha concepção, não existe uma música melhor que a outra, o que muda é o ouvinte. Cada um vai ter uma expectativa diferente a ser suprida. Nos dias de hoje, de fato, o que se escuta mais em veículos de comunicação massiva é o sertanejo dito “Universitário” e o Funk. Não tenho nada contra esses estilos em si, mas acho o conteúdo das letras em geral raso e muitas vezes ofensivo, ostentando uma postura machista retrógrada, enquanto vivemos um período forte de conscientização acerca dessa chaga social. Alem disso, a ausência de uma pluralidade de estilos nas programações desses veículos, por si só já é algo negativo e empobrecedor da cena musical.

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