Entrevista: Meio Amargo

entrevista por Marcelo Costa

Projeto pessoal do músico paraense (radicado em São Paulo) Lucas Padilha, o Meio Amargo debutou no formato EP em 2013 com “Canções Simples Para Pessoas Complicadas”. Depois vieram “Far From Moscou” (2015), que, segundo a descrição divertida no Bandcamp, é um “epzinho sem-vergonha gravado em casa durante os fins de semana de julho enquanto todos vão à praia”, e o single “Zelda” (2015), dividido com a cantora paraense Ana Clara. O primeiro álbum cheio, “Tudo o Que Dissemos Que Não Era“, saiu em janeiro de 2017.

Um ano depois, “Tudo o Que Dissemos Que Não Era” ganha versão física, uma edição estilosa em fita K7, um formato cada vez mais recuperado, em parceria com o selo Discosaoleo, de Belém. Segundo Lucas, em bate papo por e-mail, “o álbum foi pensado em uma estrutura de lados A e B, queria que as pessoas pudessem ouvi-lo dessa forma também”. A praia (musical) que Lucas revisita com o Meio Amargo é o pop folk com ecos altcountry de gente como Jeff Tweedy, Noel Gallagher e Mark Lanegan, entre outros. Nas letras, Bukowski sorri.

Gravado com a participação de integrantes do Molho Negro, Turbo e Norman Bates, “Tudo o Que Dissemos Que Não Era” traz, nessa edição em fita K7, duas faixas bônus: um take ao vivo de “Pra Nós Dois” gravado no Estúdio Aurora, em São Paulo, e uma versão de “True Love Will Find You in The End”, de Daniel Johnston, que “meio que fecha um ciclo do que as canções do disco narram. De que amar é mesmo uma grande cagada, mas depois de tanto levar porrada na vida, vai ficar tudo legal”, explica Lucas. Ouça o álbum no Bandcamp, peça a fita K7 no fb/meioamargomusica e confira o bate papo abaixo:

Como surgiu a ideia de festejar o quase um ano do “Tudo o Que Dissemos Que Não Era” como o lançamento no formato de fita k7?
“Tudo o Que Dissemos Que Não Era” é o primeiro disco da Meio Amargo e ele saiu em janeiro de 2017 apenas no formato virtual. Eu ainda curto muito ter discos em casa e gostaria de lançar um material físico da banda e, já que o álbum foi pensado em uma estrutura de lados A e B, queria que as pessoas pudessem ouvi-lo dessa forma também. O K7 foi apenas uma consequência disso. Além do fato de ser um item bonito pra se colecionar, as fitinhas remetem a um lado afetivo, nostálgico que proporciona uma experiência diferente de se ouvir música. Foi então que entrou a parceria com o Discosaoleo, um selo de Belém que já lançou vinis de artistas como Pio Lobato, Molho Negro, Ana Clara, Dulce Quental e outros. O Leo Bitar (dono do selo), também é apaixonado pelas fitas K7 e topou na hora fazer essa doidice junto comigo.

Nesta nova versão há duas faixas bônus, entre elas uma versão de “True Love Will Find You in The End”, de Daniel Johnston. Dai me lembrei que numa session bem bacana que você fez com a cantora Ana Clara (que o leitor pode assistir no final da página), você tocaram “Sujeito de Sorte”, do Belchior. Dai eu queria te pedir para falar um pouquinho desses três artistas: Por que Daniel Johnston, Ana Clara e Belchior?
Pra mim, os três se cruzam quando penso em composição. A Ana Clara é uma grande amiga de muito tempo e a gente tem uma sintonia pessoal que vai da zuêra até as coisas sérias. Da mesma forma que a gente manda mensagem de WhatsApp com bobagem, a gente troca versos de coisas que estamos compondo e assim começou a surgir uma parceria. E nessas trocas com ela surgiu a ideia de fazer essa session com composições nossas e uma versão de um(a) compositor(a) que a gente curtisse muito. O Belchior é um desses compositores que nos conecta e “Sujeito de Sorte” era uma música que sempre rolava nas nossas rodinhas-etílicas de papo furado e violão. Foi meio que uma escolha natural. Quando a gente gravou vídeo, o paradeiro do Belchior ainda era uma incógnita e depois que ele faleceu, o que era uma ideia despretensiosa, acabou se tornando uma forma da gente homenagear ele. O Daniel Johnston é um compositor que eu curto pra caramba também. E a ideia de fazer a versão dele surgiu de uma sugestão do Leo pra aproveitar mais tempo da fita. Ele me disse pra gravar algo de um artista que eu achasse que tivesse a ver com a cara do disco. Quando pensei nessa viagem de um disco com “lado A e lado B”, eu queria tentar contar a história de alguém que chega em casa, meio puto, acende um cigarro e põe o disco pra ouvir. E o outro lado seria essa pessoa sozinha no quarto, tocando um violãozinho rudimentar e gravando umas ideias, sei lá… E essa imagem me lembra totalmente o Daniel Johnston. E acho que “True Love Will Find You In The End” meio que fecha um ciclo do que as canções do disco narram. De que amar é mesmo uma grande cagada, mas depois de tanto levar porrada na vida, vai ficar tudo legal. E que é natural a gente passar por essas decepções. Acho uma música bonita pra cacete!

No belo release escrito pelo Elvis Rocha para o lançamento do disco, ele dizia que “o amor é o estado no qual os homens têm mais chances de enxergar as coisas como elas não são, filosofaria Nietszche. O amor é um cavalo com a perna quebrada tentando se levantar enquanto 45 mil pessoas observam, reforçaria o Bukowski. O amor somos Yoko e eu, cantarolaria o John. O amor é uma conta bancária recheada de direitos autorais, gargalhariam Roberto e Erasmo”. Além de ser como um cigarro, o que mais é o amor para o Meio Amargo?
Cara… acho que o amor tem várias faces e depende muito de como cada um encara isso e o Elvis foi muito perspicaz em sintetizar isso no texto dele. Eu acredito que a gente precisa fechar ciclos pra iniciar outros, e assim o amor também passa por esses ciclos e vai se transformando. Durante o processo você precisa ir exorcizando seus próprios demônios e a minha forma de encarar isso é escrevendo essas músicas. E o amor é como cigarro que vicia e mata aos poucos, e também porque uma hora ele acaba e você pode pensar: foi legal, prazeroso, te fez mal, mas te deixou feliz. Ou ele pode ter sido só mais um passo pro câncer de pulmão.

“Tudo o Que Dissemos Que Não Era” foi gravado em 2016 (com integrantes do Molho Negro, Turbo e Norman Bates) e saiu no começo de 2017. Agora está ganhando versão em fita k7, mas é disco novo, quais são os planos? Já há material inédito? O que o futuro reserva para o Meio Amargo?
Eu me mudei pra São Paulo há menos de um ano e 2017 acabou sendo um período de muitas adaptações e experimentações também. Agora que a poeira baixou um pouco, tô começando a produzir coisas novas e enquanto vou trabalhando ainda na divulgação desse primeiro álbum. Os planos são de bater perna na estrada, tocar bastante e lançar algo inédito no segundo semestre. Acho que o futuro vai ser bom!

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

One thought on “Entrevista: Meio Amargo

  1. meu amigo elvis rocha esqueceu de comentar que a primeira música tem também- mesmo que inadvertidamente- um quezinho de Led Zeppelin. Uma introdução que lembra de longe in my time of diyng, lá do physical graphitti.

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