Entrevista: Luiz Gabriel Lopes

por Marcelo Costa

De diversas maneiras, a vida não anda nada fácil no Brasil destes dias incertos, mas o músico mineiro Luiz Gabriel Lopes consegue tirar da música a esperança para um futuro melhor, e canta em “1986”, faixa que abre seu terceiro disco solo, “MANA”, que segue “transformando a fé em uma oração para se cantar”. Lançado de forma independente pelo próprio músico, e disponível para audição e download gratuito em seu site oficial, “MANA” (2017) avança no território aberto por “Passando Portas” (2010) e “O Fazedor de Rios” (2015), e adaptando uma frase no encarte de seu disco de estreia, a música de Luiz Gabriel Lopes é “um trabalho em progresso” constante.

“É verdade que a tônica estilística que me move enquanto compositor tem suas raízes nessa música brasileira dos anos 60/70, mas devo dizer que sou um ouvinte atento aos trabalhos dos meus contemporâneos”, avisa Luiz Gabriel em bate papo por e-mail. Em 2017, o músico, que ainda se divide entre as bandas Graveola e Tião Duá, compôs em parceria com Ava Rocha, Romulo Fróes, Barro e Teago (Maglore), além de dividir com César Lacerda a produção de “Sol Velho Lua Nova”, do Flávio Tris, e de assumir a função em mais dois trabalhos vindouros o disco da Laura Catarina, e o disco do Téo Nicácio. “Vejo a cena brasileira com muito interesse, tem coisas maravilhosas sendo feitas em todo canto”, avisa.

“MANA” conta com participações de Ceumar (“Uma voz que me emociona muito”) e Maurício Pereira (“Um cara que eu admiro há muito tempo”) e foi gravado em São Paulo, no estúdio Minduca, por Lenis Rino, “um cara muito versátil, um músico que eu já conhecia pelas conexões dele com a cena de BH, e que sempre admirei”, explica. Em um momento tenso de extremos (num ano de Copa do Mundo e eleições políticas), Luiz Gabriel busca acrescentar paz e calma ao dia-a-dia. “A música cria realidades, o que eu faço é uma contribuição humilde e de coração pras energias do planeta”, acredita, e completa: “A gente sabe que tem muita coisa errada rolando, muita descrença, mas é importante cantar ‘o que é bom permanecerá’”. Confira o bate papo.

Luiz Gabriel Lopes (fb/lglopesbr) apresenta “MANA” em São Paulo nos dias 17/02 no MAM-SP e no dia 18/02 no SESC Campo Limpo. Acompanhe as novidades no Facebook: fb/lglopesbr

“MANA” é seu terceiro disco solo, e a primeira coisa que senti foi uma sonoridade mais leve, mais alegre que nos dois anteriores, ainda que os três mantenham em foco essa paixão que você sente pela música brasileira da primeira metade dos anos 70. Como você vê “MANA” na sua discografia?
Interessante. Penso que sim, a alegria pode ser uma chave pra entender o que eu chamaria de uma escolha pela claridade: esse é um trabalho onde busquei conscientemente me aproximar de tonalidades mais solares do meu trabalho, no intuito de uma proposição imagética / sensorial que caminhasse nessa direção, como uma espécie de “projeção quântica”, positiva e propositiva, nesses tempos áridos. Nos últimos anos, comecei a perceber com mais força a responsabilidade que é soltar um disco no mundo. A música tem esse estranho poder de ressoar infinitas vezes, e se misturar à vida das pessoas de forma muito íntima. Daí a vontade de fazer um trabalho que proporcionasse um mergulho interior otimista, emanando um sentimento de comunidade, de crença nas coisas que valem a pena, apesar de todo o contexto de desesperança que nos rodeia. Como artista, tento colocar meu coração e minha inspiração a serviço desse sentimento. Como diz aquela canção do Lulu Santos, “eu vejo a vida melhor no futuro”, é basicamente disso que o disco trata. Sobre as inspirações propriamente musicais, é verdade que a tônica estilística que me move enquanto compositor tem suas raízes nessa música brasileira dos anos 60/70, mas devo dizer que sou um ouvinte atento aos trabalhos dos meus contemporâneos. Estamos num momento onde o estilhaço de referências é tão grande que acaba por criar um grande vácuo de caminhos, no qual muita coisa boa e inusitada pode surgir: acho muito rico isso. A fertilidade da produção musical atual no Brasil me alimenta muito. Coincidência ou não, 2017 foi o ano em que ampliei significativamente meu leque de colaborações composicionais, e de maneira muito plural tive o prazer de compôr em parceria com artistas que muito admiro: desde a Ava Rocha e o Romulo Fróes até o Barro e o Teago da Maglore. Compôr em parceria é um aprendizado, um desafio. Sem dúvida tudo isso acaba por engrossar o meu caldo particular de influências, e reverbera na minha discografia.

A sonoridade…
Já era uma vontade fazer um trabalho mais elétrico, mais enxuto, mais simples. Menos elementos, mais generosidade com as canções em si, a melodia, a letra, a voz. Existe uma tradição muito “maximalista” em Belo Horizonte, que gera frutos maravilhosos, mas sem querer também acaba desempenhando uma espécie de patrulha psicológica, como se o simples não fosse legal… uma coisa de dentro da cabeça da gente, mesmo. Daí, conseguir me desvencilhar disso e apontar numa outra direção, foi pra mim, um desafio. No início, os shows com a banda ainda tinham violão em algumas músicas, mas me lembro que a proposta de radicalizar e fazer tudo na guitarra veio num show que fizemos no Mundo Pensante, em SP. Passamos o som com violão e guitarra, mas minutos antes de subir no palco resolvi testar fazer tudo na guitarra, lembro que apanhei muito pra transpor os arranjos, pois a lógica é totalmente diferente, mas foi um passo interessante, que ajudou a definir a sonoridade com mais clareza.

Você é um raro músico estradeiro, que viaja mostrando suas canções em vários cantos do mundo. Essas viagens influenciaram “MANA”?
As muitas viagens que fiz nos últimos anos foram pela música e para a música. Não tenho dúvidas de que o processo de mergulhar mais profundamente na estrada, inventando circuitos, conhecendo pessoas e culturas de tantos lugares diferentes, foi o grande catalisador criativo que me moveu em direção à energia do disco. É verdade que eu já vinha de uma kilometragem razoavelmente grande de turnês internacionais, principalmente com o Graveola e o TiãoDuá, mas foi talvez o mergulho em modo “solo” (e algumas vezes, em duo com o Téo Nicácio), pelos rincões dos Brasis, que me trouxe propriamente algumas intuições que se materializaram no som do “MANA”.

Na mesma pegada das viagens, você é um artista extremamente prolifico, que se divide entre carreira solo e outras duas bandas além de projetos como o disco do Flávio Tris. Como decidir o que é LG Lopes, o que é Graveola e o que é TiãoDuá?
No meu caso, essa versatilidade profissional surge como a mistura de dois traços: uma necessidade artística de expressão em diferentes campos e projetos, e o instinto de sobrevivência mesmo, pra conseguir pagar minhas contas trabalhando com projetos em que estou verdadeiramente imbuído, de coração e espírito. No que toca às composições, não tenho uma clareza a priori do que vai pra cada lugar mas é a própria obra que organiza a si mesma, numa multiplicidade de caminhos desenhados de modo orgânico. Claro que os processos criativos que cada projeto percorre são bem distintos, mas o ímpeto inicial é basicamente o mesmo, que é a experiência de mundo, a expressão dos sentimentos e imagens que formam essa experiência. Como um arbusto que se ramifica a partir das mesmas raízes, uma cosmovisão repartida em ângulos e colorações particulares, mas que emana de um mesmo centro. Já nos trabalhos onde atuo como produtor musical / diretor artístico, rola um exercício distinto, de um olhar mais distanciado, e portanto mais analítico. É algo relativamente novo na minha vida, isso de dirigir trabalhos de outros artistas, mas os convites que têm surgido são quase sempre irrecusáveis, dada a paixão que me move na direção deles. Esse ano ocupei esse papel em três trabalhos: além do “Sol Velho Lua Nova”, do Flávio Tris, que fiz em parceria com o César Lacerda, há dois trabalhos em processo de produção, ambos de estréia: o disco da Laura Catarina, e o disco do Téo Nicácio. Saem neste ano, e tenho a alegria de poder dizer que sim, estão ficando lindos.

“MANA” segue o modelo de “O Fazedor de Rios”, que contava com Chico César, Gustavito e Laura Catarina, e inclui algumas participações especiais: Mauricio Pereira, Ceumar e Téo Nicácio, que toca o baixo no disco. Como rolou a aproximação com eles e a participação de cada um no álbum?
Penso que isso das participações é um recurso que ajuda a contar uma história, estabelecer hipertextos, traçar mapas. Ceumar e Maurício Pereira são figuras de referência pra mim, já há bastante tempo, cada um num campo muito particular do meu afeto. Daí pensei que tê-los como vozes convidadas ampliaria a paleta de cores e sentidos daquelas canções, e sinto que a narrativa do álbum também ganha nuances especiais com esse jogo. É como um lance meio cinematográfico mesmo, de aproximar mundos… a voz é um instrumento muito pictórico. Eu ouço o Mauricio cantar a primeira frase de “Apologia” e me vêm tantas camadas de coisas não-ditas, nesse misterioso subtexto tímbrico & interpretativo da voz… acho um fenômeno muito intrigante. O mesmo com a Ceumar, é uma voz que me emociona muito, tem algo de tão profundamente cristalino… Amo muito a presença deles no disco. Com o Téo, conta também o lance da participação dele muito forte no disco, e especialmente naquela canção (“381 Blues”). Foi uma música feita em parceria, durante uma viagem de carona que fizemos pro sul da Bahia… além disso, ele canta em vários momentos do show, a voz dele também faz parte da estrutura-base do disco, daí foi algo bastante natural tê-lo dividindo o lead naquela faixa e somando em vocais em várias outras.

Grande parte das canções do álbum são suas, com exceção de “Matança”, do Augusto Jatobá, e “Caboclin”, do Gustavito e do Thiago Braz. Como essas duas canções se encaixaram no conceito do álbum?
“Caboclin” é uma canção que eu vi nascer, e me emocionou desde a primeira vez que ouvi. Me toca num ponto especialmente profundo, de reconhecimento daquelas imagens e sensações, de um jeito ancestral… Sou muito fã dos meus contemporâneos mineiros. E apesar de ter material de sobra para fazer um disco só com composições minhas, eu tinha vontade de gravar no disco algo de outros compositores. Colocar-se no papel do intérprete é algo que me parece importante, no sentido de traçar uma cartografia das próprias conexões, de um pertencimento histórico a um determinado contexto, e construir a narrativa do álbum também com esse “sampleamento” de outras obras. Já “Matança” é uma regravação no sentido clássico: é uma composição do Augusto Jatobá, um dos grandes hits do folk-rural-nordestino dos anos 80, que foi lançado pelo Xangai. Quando criança, ouvíamos muito a gravação ao vivo do “Cantoria”, aquele precioso par de discos que juntou Xangai, Elomar, Vital Farias e Geraldo Azevedo… lá em casa, tínhamos os dois vinis. Eu e minha irmã sabíamos cantar a letra de várias músicas, mas essa era um desafio, lembrar todos aqueles nomes de árvores, hehehe… Daí por uma sincronia muito maluca, em 2014, o Xangai participou de um show que fiz no Festival Vozes do Brasil, a convite da Patricia Palumbo, em BH. Pintou a idéia, fizemos o arranjo, ficou massa, logo rolou o insight de incluir essa versão no repertório do disco… e assim foi feito.

Como você vê a cena musical brasileira hoje, no geral, e a cena mineira, em particular? Como é, para você, esse momento que a gente está vivendo?
Viajo muito nos meus contemporâneos, gosto de sacar compositores que tão produzindo e lançando coisas em cada cidade. Acho que é uma das grandes piras da internet, essa coisa do acesso irrestrito as sons que estão sendo produzidos mundo afora… Eu vejo a cena brasileira com muito interesse, tem coisas maravilhosas sendo feitas em todo canto, muita gente talentosa, forças incríveis atuando em várias direções. Aprendo muito, troco muito com o rolê. O mercado também vai se transformando, ainda que num escopo que infelizmente não dá conta de escoar grande parte dessa produção independente. Daí tem que ser meio pesquisador mesmo, ir um pouco mais fundo nas buscas… O nosso cenário tem crescido muito, mas sinto que ainda temos pela frente uma grande estruturação por ser feita, em termos de circuito… tamos caminhando, fortalecendo. Se todo mundo ajuda um pouco a levantar o corre, sem olhar só pro próprio umbigo, a coisa vai longe, eu boto fé e vejo coisas concretas rolando nesse caminho. Em BH, especificamente, eu percebo que tem uma miríade de gente foda criando coisas incríveis, me inspiro muito pelo cenário que brota da cidade. Mas é importante que a galera também atente pra necessidade de sair, levar o som a ser ouvido em outras praças, fazer as parada rodar. Não só por ser o imperativo pra qualquer trampo que queira criar sua própria sustentabilidade, mas também pelo combustível que isso dá no nosso próprio quadro de referências. Me sinto muito vivo nessa história, hoje troco ideia com muita gente graças à música e isso só faz crescer meu amor pela parada.

Há uma mensagem em “MANA”?
Eu sempre acredito que um disco é como uma carta de intenções. É um lance que vai ficar vibrando no ar, até sabe-se lá quando, a gente perde totalmente o controle do alcance e do significado que aqueles sons vão criar em torno de si. Acho que a responsabilidade de lançar um disco tem a ver com a perspectiva da qual cada um escolhe enxergar o mundo. Eu entendo super quem se propõe a meter o dedo na ferida, é importante também, mas com o tempo eu fui entendendo que a minha escolha passa por outro lugar. Eu escolho vibrar na frequência do que eu quero pra mim, do que eu acredito que é necessário pra mim e pro mundo. É uma coisa de cultivar as utopias mesmo, não perder de vista a luz no fim do túnel. A gente sabe que tem muita coisa errada rolando, muita descrença, mas é importante cantar “o que é bom permanecerá”. A música cria realidades, o que eu faço é uma contribuição humilde e de coração pras energias do planeta.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. A foto que abre o texto é de João Lima / Divulgação

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