Cinema: “Os Meninos Que Enganavam Nazistas”

por Marcelo Costa

Entre 03 de setembro de 1939 e 10 de maio de 1940, a Alemanha Nazista invadiu a França e os Países Baixos no que ficou conhecida como Guerra da Mentira, já que não houve combates armados reais. Paris foi ocupada em 14 de junho e o governo francês fugiu para Bordeaux no mesmo dia. Em 22 de junho foi assinado um armistício em que ficou decidido que as regiões da Alsácia e Lorraine seriam incorporadas a Alemanha (e a população masculina seria sujeitada ao recrutamento militar alemão), que ocuparia ainda a zona norte, oeste e toda a costa Atlântica da França (onde eles montariam a Muralha do Atlântico) – um terço do país seria considerado “zona livre”, mais especificamente a costa do Mediterrâneo.

A história de “Os Meninos Que Enganavam Nazistas” (“Un Sac de Billes”, 2017) começa em 1941, já com alemães convivendo “rotineiramente” com franceses numa Paris ocupada (o transito de automóveis civis – taxis e ônibus inclusos – havia sido proibido, assim como filmes ingleses e norte-americanos nos cinemas e, também, o jazz, que um jornal que colaborava com a ocupação nazista dizia ter um sabor “negro-judeu”). É nesse cenário de guerra que vive uma família judia constituída pelo pai, o barbeiro Romam Joffo (Patrick Bruel), a mãe, a violinista Anna (Elsa Zylberstein) e quatro filhos, dois deles menores de idade, Maurice (Batyste Fleurial Palmieri), com 12 anos, e Joseph (Dorian Clech), que narra a história, e tinha 10.

O medo, a insegurança e o futuro incerto seguiam em Paris, e atingiram níveis alarmantes para os judeus quando Hitler, em 1° de setembro de 1941, anunciou uma nova portaria policial, que obrigava todos os judeus acima de seis anos a usar como identificação na roupa uma estrela de seis pontas pintada de preto sobre um fundo de tecido amarelo com o dizer ‘Jude’. A medida, com punições severas da Gestapo (que dominava as ruas de Paris) a quem não a cumprisse, se tornou um estigma da exclusão dos judeus da sociedade e, mais tarde, do próprio Holocausto, e mudou radicalmente o dia a dia nas regiões ocupadas, e a saída para a família Joffo era tentar fugir para a zona livre enquanto havia tempo.

É mais ou menos a partir desse momento que se desenrola a ação dolorosa, comovente e inspiradora de “Os Meninos Que Enganavam Nazistas”: para não chamar a atenção da Gestapo que, percebendo a fuga cada vez maior de judeus após o decreto de setembro, reforça o policiamento e a violência (posteriormente proibiriam judeus de deixarem seus bairros sem permissão policial), os dois irmãos mais velhos haviam partido para a zona livre dias antes, e agora seria a vez de Maurice e Joseph seguirem sozinhos – os pais iriam depois. Desta forma, “Os Meninos Que Enganavam Nazistas” acompanha a fuga dos garotos (lembre-se: uma de 10, outro de 12 anos), que saem de Paris de trem numa jornada solitária e assustadora até Nice.

Baseado nas memórias de Joseph lançadas em livro em 1973, “Un Sac de Billes” (best seller de mais de 20 milhões de exemplares vendidos que ganhou edição nacional pela editora Vestígio) já havia sido adaptado para o cinema em 1975, por Jacques Doillon, e ganha aqui uma segunda adaptação delicada nas mãos do diretor Christian Duguay, que foca primeiramente na amizade que se constrói entre os dois irmãos a partir do momento que deixam Paris, e precisam se virar sozinhos numa trajetória dolorosa que colocará tanto nazistas (o exercito alemão avançaria na zona livre) como pessoas boas em seu caminho nos três anos em que os dois precisam lutar para sobreviver – Paris só seria libertada em setembro de 1944.

Boa parte da força do filme (que, sim, tem lá seus momentos piegas) reside na excelente atuação da dupla de atores que interpreta os garotos Maurice e Joseph (o pequeno Dorian Clech dá um show), que consegue dar ainda mais coerência para um roteiro que respeita os momentos de dor e humor (sim, eles existem) do livro (leia as primeiras 18 páginas aqui) retratando um dos períodos mais terríveis da História. Oportunamente, a hora em que a câmera flagra franceses se vingando de colaboradores do nazismo traz à tona a questão da repetição de atos cruéis, agora do outro lado, que filmes como “Bastardos Inglórios” e, principalmente, o brilhante “Terra de Minas” também tocaram. Desta forma, não espere final feliz, afinal, a vitória dos aliados apenas pôs fim a uma das maiores derrotas da humanidade, mas emocione-se com a história de Maurice e Joseph, os garotos que conseguiram enganar nazistas.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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