Música: “Sinais de Sim”, Os Paralamas do Sucesso

Texto por Leonardo Vinhas

Primeiro disco de inéditas em oito anos, “Sinais do Sim” é o 13 álbum de estúdio dos Paralamas do Sucesso – o quarto depois do trágico acidente aéreo de Herbert Vianna. Esse período foi o maior hiato da banda sem renovar seu repertório – os dois únicos lançamentos no período foram da série “Multishow Ao Vivo”: um da turnê de “Brasil Afora” (lançado em 2011) e outro da tour comemorativa de 30 anos da banda (lançado em 2014) que se estendeu para muito além do aniversário, com um show que se repetiu durante quatro anos sem quase nenhuma inovação.

São bastante evidentes as razões para a dificuldade de apresentar material novo, então não deixa de ser louvável que a banda continue dando a cara para bater com novidades, mesmo que com longo intervalo entre os lançamentos. Afinal, como declarou o baterista João Barone em entrevista ao Scream & Yell, “talvez as feridas [abertas com o acidente do Herbert] tenham fechado, mas as marcas nunca sumirão. Mas conseguimos ir em frente”.

Essa caminhada para adiante nos traz a “Sinais do Sim”, que não é tão sombrio quanto “Longo Caminho” (2002) e “Hoje” (2005), tampouco alegre e colorido como “Brasil Afora” (2011). O novo disco combina a sonoridade guitarreira dos dois primeiros discos pós-acidente com os metais e as cores pop de “Brasil Afora” (2009) com oito das 11 faixas do disco assinadas por Herbert, sete delas em parceria com Barone e Bi Ribeiro. Instrumentalmente, o trio é acompanhado por Bidu Cordeiro (trombone), Monteiro Jr. (saxofone) e João Fera (teclados).

É óbvio que o padrão de composição da banda mudou, e é demasiadamente cruel especular o que a banda estaria criando não houvesse ocorrido o acidente. Os Paralamas de hoje se construíram em cima das já mencionadas feridas, mas também em cima da amizade entre os integrantes, a necessidade de criar e a dificuldade de fazê-lo nas presentes circunstâncias. E nesse sentido, a funkeada “Itaquaquecetuba”, a festiva “Olha a Gente Aí” e a esparsa “Contraste” são os melhores exemplos do que a banda pode fazer hoje: a matriz roqueira se mantém, mas encontra essa nova identidade e marca a nova fase da banda.

Uma característica antiga que retorna é a “falsa alegria”, o arranjo ensolarado que envolve uma canção essencialmente dolorosa. Essa era praticamente a tônica de “O Passo do Lui” (1984) e ressurge aqui nas duas faixas que encerram o disco: o reggae “Sempre Assim” e a explosão de metais e bateria da já mencionada “Olha a Gente Aí”, cuja citação de “Ó Sino da Minha Aldeia” (Fernando Pessoa) explicita que mesmo dentro da vontade de viver bem há espaço para a melancolia.

Poeticamente, há uma dor que ultrapassa composições tão diferentes como “Sempre Assim”, “Corredor” e mesmo “Não Posso Mais” (tema que Nando Reis cedeu à banda). “Esse corredor tão claro aos poucos vai escurecendo”, “que sentido tem? / Sem razão, vivo sem ninguém”, “guarda o corpo o seu silêncio / uma adaga a perfurar”: versos que deixam claro que a dor não vai embora, e que mesmo o otimismo de outras letras, como de “Sinais do Sim” e “Olha a Gente Aí”, não consegue sublimar.

Nessa alternância entre sentir a dor e vivenciar a necessidade de superá-la, “Sinais do Sim” constrói seu universo lírico, que pode ter versos banais como o da balada “Teu Olhar” e da faixa título, mas ainda reserva bons achados de Herbert. As versões para composições alheias também espelham o momento: “Medo do Medo”, original da portuguesa Capicua, é uma pedrada sobre a cultura que cria temores e lucra em cima deles, e “Cuando Pase el Temblor”, dos argentinos do Soda Stereo, é sobre solidão e expectativa de mudança – nem que seja pelo suicídio (a letra é bastante aberta a interpretações). Herbert adapta apenas o refrão para o português, explicitando seu estado de espírito: “Outra caverna no meu coração / meu planeta não tem ilusão”.

Evidentemente, há desacertos: a balada “Teu Olhar” (que conta com os violoncelos do duo Duo Santoro) é simplista e banal, a pueril faixa título sofre para encaixar a letra na melodia, e o rock à argentina de “Blow the Wind” (única creditada integralmente à Vianna) passa praticamente despercebido. Também não são poucos os momentos em que a voz de Herbert Vianna se mostra excessivamente fragilizada, mesmo com um tratamento de estúdio perceptivo (a cargo do produtor Mario Caldato).

Esses senões não invalidam o disco, pelo contrário, mostram que os Paralamas, em essência, continuam a mesma banda disposta a correr riscos, a virar vidraça sem contar com a condescendência alheia. E superados os senões, vêm os acertos, como as já citadas “Itaquaquecetuba” e “Contraste” (que traz percussão de Pupillo, da Nação Zumbi), a energia roqueira bruta impingida à “Medo do Medo” (com Kassin aplicando efeitos), a vibe stoneana de “Corredor” (com teclados de Maurício Barros, do Barão Vermelho), os detalhes da trama de baixo e piano de “Não Posso Mais” e as duas canções que encerram o álbum. “Sinais do Sim” é um álbum bem resolvido, ciente de seu potencial e de suas limitações. É um retrato sincero e fiel dos Paralamas de hoje que mostra que eles, ao contrário da maioria dos companheiros de geração, ainda acreditam que não vale a pena apegar-se apenas ao passado.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell. A foto que abre o texto é de Mauricio Valladares / Divulgação.

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