Três filmes: Lukas Moodysson 2002, 2004, 2009

por Bruno Leonel

Ousado, emotivo, minimalista e dono de um estilo que consegue oscilar do poético ao visceral em poucos instantes. Estas são algumas das características do trabalho do diretor sueco Lukas Moodysson que, com pouco mais de duas décadas de carreira (incluindo aí três curtas e oito longas) é reconhecido na atualidade como um dos grandes inovadores do cinema do Velho Mundo. Tido como um dos diretores mais celebrados do país desde Ingmar Bergman, Lukas trilhou um caminho peculiar, especialmente em relação à intensidade e despretensão com que elabora seus filmes, adjetivos que eventualmente parecem ignorar qualquer preocupação comercial, priorizando um olhar artístico e com objetivos maiores, o que o levou a ser citado, em 2007, como o 11º Melhor Diretor do Mundo, em lista publicada pelo respeitado Guardian.

Escritor de formação, com apenas 23 anos de idade Lukas já era um autor renomado em seu país tendo publicado cinco coleções de poesia e uma novela. Ele então decidiu trabalhar com cinema buscando que suas ideias “atingissem uma audiência maior”. Após ter estudado na então única escola de cinema da Suécia, o diretor arriscou alguns curtas. Em 1998, o sucesso comercial de “Fucking Amäl” (“Show Me Love”), seu primeiro longa, apresentou o diretor ao mundo. O filme trata da descoberta do amor entre duas adolescentes – anos antes, e com um olhar muito menos sexualizado do que “Azul é a Cor Mais Quente”.

Desde então, novos projetos de Lukas Moodysson carregam identidade e experimentalismo variando desde filmes amigáveis e leves até produções como “Container” (2006), narrado na íntegra como um grande monólogo sussurrado, ao mesmo tempo em que imagens, pouco ligadas ao texto, aparecem na tela (talvez seu filme mais difícil, pretensioso até). Cristão praticante, o diretor é paradoxalmente simpatizante de causas ligadas a grupos feministas e movimentos políticos de esquerda (como é mostrado em seu documentário de 2003 “Terrorists: The Kids They Sentenced”, feito com Stefan Jarl). A seguir, comentários sobre alguns de seus filmes mais notáveis:

Titulo sueco: Bara Prata Lite (1997)
Título inglês: Talk
Terceiro e último curta-metragem feito pelo diretor antes de se dedicar apenas a longas, “Talk” conta a saga de Birger (Sten Ljunggren), um aposentado muito solitário que o tempo todo procura alguém para poder conversar. Sua busca desesperada por convívio, em uma era pré-redes sociais, o coloca em situações constrangedoras, seja puxando conversa pelas ruas, ligando para estranhos da lista telefônica, ou até indo ao seu antigo local de trabalho e atrapalhando colegas, que sequer conseguem lembrar-se do seu nome correto. Em uma tarde, a visita inesperada de uma garota Hare Krishna provoca um conflito e um desfecho violento para a história. “Bara Prata Lite” tem apenas 14 minutos, mas impressiona pelo clima carregado e até por certa ‘identificação’ que o espectador possa sentir com o protagonista. “Talk” consegue comunicar bem utilizando pouquíssimos elementos, demonstra sensibilidade na forma como conta a história e ainda apresenta vários temas que o diretor revisitaria nos trabalhos futuros como religiosidade, conflitos humanos e abandono. Há até certo existencialismo em cenas nas quais Birger tenta explicar como ele se sente. O personagem Birger inclusive faz uma ponta em outro filme do diretor (a excelente comédia-política “Together”, de 2000). “Bara Prata Lite” é um trabalho da fase inicial de Moodysson, com uso de muitos planos abertos, diálogos breves e influência de diretores como o conterrâneo Roy Andersson. A tradução do título original é algo como “Apenas Fale Um Pouco” (assista com legendas em inglês ou espanhol).

Titulo sueco/inglês: Lilya 4-ever (2002)
Título português: Para Sempre Lilya
Vencedor de cinco prêmios, incluindo Melhor Filme, no Guldbagge Awards de 2002, o terceiro longa de Moodysson guia o público por uma viagem infernal ao submundo do leste europeu e à vida da adolescente Lilja (Oksana Akinshina). Após ter sido abandonada pela mãe, a jovem acaba recorrendo à prostituição para sobreviver. Ela tem um amigo, o pequeno Volodya (o excelente Artyom Bogucharsky) que, renegado pelo pai alcoólatra, compartilha com Lilja alguns poucos momentos felizes, seja na fuga para antigos prédios abandonados da Estônia, idealizando a vida na América ou até no uso de drogas. Em dado momento, ela conhece Andrei (Pavel Ponomaryov), com quem acaba se envolvendo. No entanto, ele não é quem aparenta ser e, após um convite para uma vida nova na Suécia, Lilja acaba envolvida em um esquema de exploração sexual. Uma torrente de violência e sofrimento se inicia na vida da protagonista. Os estupros são mostrados com a câmera do ponto de vista da própria personagem, o que resulta em uma das sequências mais chocantes de toda a filmografia do diretor. “Lilya 4 Ever” tem um clima arrastado e as vezes até monótono com o uso de cores pálidas, quase como uma metáfora da pobreza perene à região dos personagens, num contexto onde há pessoas dispostas a pagar por tudo, e até mesmo vender o que não possuem em busca de uma chance por dias melhores. No término, dois finais são mostrados: um óbvio e consequente desfecho trágico, e ainda, uma versão alternativa dos fatos, no qual Lilja recusa o convite para ir à Suécia e continua sua vida na cidade inicial. Temas como a negligência de instituições tutelares, a miséria de países pós-União Soviética, e até espiritualidade – manifestada na forma de anjos que povoam as sequências mais oníricas do filme – são alguns dos pontos que compõem a trama. O filme foi inspirado na história real da adolescente lituana Danguolė Rasalaitė que, com apenas 16 anos, acabou sendo envolvida em um esquema de exploração sexual na Suécia, onde acabou cometendo suicídio em 2000. “Lilja 4 Ever” é frequentemente exibido no mundo todo durante eventos e debates ligados ao combate do tráfico humano.

Titulo sueco: Ett hål i mitt hjärta (2004)
Titulo inglês: A Hole in My Heart
Título português: Um Vazio Em Meu Coração
Um pequeno apartamento de subúrbio, um diretor amador tentando finalizar um filme pornográfico e um grupo de pessoas imersas nas próprias agonias existenciais. É este o tom do controverso “Um Vazio em Meu Coração”, quarto longa do diretor. Nele, somos apresentados ao perturbado universo de Richard (Thorsten Flinck), que vive uma relação conflituosa com seu filho depressivo Erik (Björn Almroth). O jovem passa a maior parte do tempo isolado em seu quarto ouvindo música industrial enquanto o pai tenta concluir seu filme na sala ao lado com os atores Tess (Sanna Bråding) e Geko (Goran Marjanovic). As sequências esparsas intercalam uma serie de monólogos dos atores, trechos com som em off, takes com bonecos e objetos estranhos, cenas de sexo nada sensuais e até inserções grotescas de imagens de cirurgia, sangue e outros elementos escatológicos. Entre os personagens, divagações e questionamentos sobre a busca pela fama, o consumismo e a cultura de celebridades no mundo moderno. Em certo momento, Tess confessa que sempre quis ser famosa, e agora, participando do filme de Richard, terá sua “grande chance”. No desenrolar da trama, os personagens se embriagam e começam aos poucos a perder o controle. Tess chega a abandonar a gravação brevemente após se sentir agredida em uma das cenas. Ela vaga sozinha por um supermercado enquanto estranhos a observam. No clímax do filme, Geko vomita na boca de Tess ao som de “A Paixão Segundo São Mateus”, de Bach (!!!). Embora nada se proponha como gratuito, há certa presunção que ofusca muitas ideias do filme. O longa é todo feito com DVCams de mão, sem muita pós-produção, o que resulta numa estética particular, quase próxima de um Dogma 95. Tudo aparece retratado de um jeito quase claustrofóbico, como se a câmera quisesse invadir e examinar a consciência de cada um. Tess e Erik com o tempo passam a desenvolver uma estranha conexão, amparada pela inadequação e pela busca de escape em relação a tudo àquilo que acontece ao redor dos dois. O que mais incomoda é a auto piedade em que estão os personagens, vivendo uma grande confusão que os impede de tentar sair do próprio estado. “Um Vazio Em Meu Coração” é visto como um filme inferior do diretor, embora seja também um de seus trabalhos mais autorais. Seu tratamento agressivo ajudou a estabelecer Moodysson como um diretor ousado, inquieto e quase sempre despreocupado em chocar e até agredir o espectador com seus trabalhos.

Titulo sueco: Mammut (2009)
Titulo inglês: Mammoth
Título português: Corações em Conflito
Mães privilegiadas vs mães em situação vulnerável que, por necessidade, deixam seus filhos de lado para cuidar dos filhos de outras pessoas. O mais global dos filmes do diretor apresenta inusitadas conexões entre a realidade de pessoas vivendo em diferentes partes do mundo (bem ao estilo do que Iñarritu fez em “Babel”), mas com um olhar mais voltado ao psicológico e até ao contexto social de cada personagem. Léo (Gael Garcia Bernal) e a médica Ellen (Michelle Williams, numa ótima atuação) são um casal bem sucedido que mora em Nova Iorque com a filha. Ambos muito ausentes devido ao trabalho, contam com a ajuda da babá filipina Glória (Marife Necesito) para ajudar em casa. Glória lida constantemente com o sofrimento de viver longe dos filhos pequenos apenas pela oportunidade de poder ganhar dinheiro e permitir que eles não precisem “pegar comida do lixo e poderem ir a um médico quando ficarem doentes” (como cita a avó dos meninos na perturbadora cena do aterro de lixo, onde há dezenas de crianças resgatando coisas). Uma oportunidade de negócios obriga Léo a ir para a Tailândia, onde acaba surpreendido pelo estilo de vida local e até tendo um envolvimento com uma prostituta nativa, Cookie. Em Nova Iorque, Ellen segue atormentada pelos conflitos diários das emergências do plantão – como tentar salvar a vida de um menino esfaqueado pela própria mãe – ao mesmo tempo em que se sente distante e alheia da própria filha, que parece muito mais interessada em aprender tagalog e outros costumes tailandeses ensinados pela babá. Cada um dos personagens, à sua maneira, parece tentar se redimir da própria culpa e falha, tentando fazer o bem à outra pessoa, ao mesmo tempo em que se assumem como incapazes de lidar de forma ideal com as necessidades da própria família. Em dado momento é revelado que Cookie também é uma mãe afastada da filha, motivada pelo anseio de buscar condições melhores. A situação dos personagens, repleta de afastamentos e incompatibilidades (ao melhor estilo herdado de Antonioni e sua incomunicabilidade) com o tempo gera tensões que implodem em conflitos dramáticos que reverberam entre todas as realidades retratadas. Com uma narrativa bastante emocional e até dura, “Mammooth” é um dos filmes mais acessíveis de Moodysson, ao mesmo tempo em que é um dos mais densos em relação ao conteúdo e a quantidade de temas. Parte de situações do dia a dia para emaranhar reflexões sobre empatia, privilégios e a constante e patética busca por salvação em meio a um mundo globalizado. O título original vem de uma reflexão feita por Léo sobre o marfim, relacionada a um dos poemas de Moodysson: “Ossos de um animal enorme, preservados por centenas de anos, que hoje são apenas ornamentos sem qualquer conexão com toda sua história ou existência original”. Na trilha sonora, Radiohead, Cat Power e Ladytron.

– Bruno Leonel (https://www.facebook.com/silva.leonel.900) edita o site RubroSom

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One thought on “Três filmes: Lukas Moodysson 2002, 2004, 2009

  1. Pra quem interessar, a filmografia do diretor consiste nos seguintes longas:

    Show Me Love (Fucking Åmål) (1998)
    Together (Tillsammans) (2000)
    Lilya 4-ever (2002)
    Terrorists: The Kids They Sentenced (2003)
    A Hole in My Heart (Ett hål i mitt hjärta) (2004)
    Container (2006)
    Mammoth (Mammut) (2009)
    We Are the Best! (Vi är bäst!) (2013)

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