Entrevista: Dulce Quental (2017)

por Marcelo Costa

Em junho de 2016, Dulce Quental festejava o lançamento em vinil do álbum “Música e Maresia”, seu quinto registro solo, com uma apresentaão no Sesc Belenzinho, em São Paulo. O show de estreia, que reunia canções novas, outras inéditas e os sucessos da carreira de Dulce, se transformou em um especial que, com direção de Paulo Fontenelle, chega agora ao streaming (Spotify, iTunes, Apple Music, Deezer e Napster) numa parceria do Canal Brasil com a Cafezinho, selo da própria cantora.

“Só uma louca grava um DVD na estreia. (…) Mas eu sabia que se não fosse assim, não aconteceria”, confessa Dulce Quental em conversa por e-mail com o Scream & Yell, em que salienta estar feliz com o resultado final do projeto, que reúne 15 canções que foram gravadas naquela noite: “Eu projetei uma coisa e acho que 80% do que eu imaginei está lá. (…) E ficou tão legal. Acho que sem querer consegui deixar um registro audiovisual representativo da minha trajetória”.

Entre as canções de “Música e Maresia – Ao Vivo” estão cinco parcerias de Dulce Quental com Roberto Frejat (incluindo “O Poeta Está Vivo” e a intensa “Guarda Essa Canção”), uma bela parceria de Cazuza com George Israel (“A Inocência do Prazer”), que Dulce havia gravado em seu terceiro álbum, de 1998, mais parcerias com Moska (“Bordados de Psicodélia”), Luis Carlini (“Púrpura”) e Paulo Monarco (o primeiro single, “Tempo Circular”), além, claro, de seus hits “Natureza Humana” e “Caleidoscópio”. Confira o bate papo.

Temos muita coisa para atualizar nas nossas conversas. No último papo (em 2015) falávamos que os seus três primeiros discos enfim seriam disponibilizados digitalmente, e foram. Como você os vê (ouve) hoje.
De alguma maneira que não sei bem como explicar, mas sinto que projetei esses discos para o futuro. Para o que se tornou hoje a diversidades da música que se faz no Brasil. Era o que eu antevia naquele momento. Hoje tenho a consciência que tive a visão, mas talvez tenha me faltado recursos e parceiros a altura para realizar o projeto. Tínhamos na época uma carência grande de produtores que transitassem entre a MPB e o rock/pop brasileiro e que pudessem traduzir sonoramente as ideias tropicalistas de devorar o que vinha de fora e deglutir algo que pudesse fazer frente ao que se produzia no mundo. Mas isso foi antes da globalização. Enfim, eu contei com os recursos que eu tinha a mão, e com os artistas mais expressivos da minha geração. Cazuza, Herbert Vianna, Hojerizah, Titãs, Os Ronaldos, banda do Lobão, Wally e Jorge Salomão, Celso Fonseca, Arrigo, Itamar, Humberto Gessinger, Jaques Morelenbaum, Frejat e Arnaldo Antunes, entre tantos que participaram como músicos, compositores e arranjadores.

Nesse último papo também você já havia adiantado o “Música e Maresia”, que ganhou logo depois lançamento (digital e em vinil!). São canções do começo dos anos 90, certo? Como foi a história?
Eu considero esse disco o elo perdido entre os anos 80 e o “Beleza Roubada” de 2004. A minha primeira produção independente, feita no estúdio do Nilo Romero (Cazuza), em ADAT, sem dinheiro nenhum, mas com uma garra danada e com a colaboração de músicos espetaculares. Sergio Dias gravou varias faixas. Frejat, João Rebolcas (que tocou com Cazuza e grava com Chico Buarque hoje), Jaquinho no Cello. Eu tinha o desejo de lançar um dia, mas não sabia muito como viabilizar. Por conta de ter deixado as fitas de ADAT com o George Israel. Que perdeu… Enfim, no dia em que resolvi lançar não tinha master, mas apenas uma fita DAT com uma pré-mix. Ainda assim, achei que valia a pena pelo registro dessas canções. Muitas gravadas por interpretes como Simone, Leila Pinheiro, Capital, Barão, em novas versões.

Dai chegamos ao show “Música e Maresia”, que agora chega em versão áudio e DVD. Assisti à gravação no Sesc Belenzinho, e apesar de um clima nervoso no ar, a noite foi linda. Como foi pra você pensar esse show e todo o processo de gravação?
Eu venho me apresentando raramente nos últimos anos. Pouca demanda de shows. Faço uma coisa, acho que vai rolar, mas não sei por que, não acontece. Quando vi que poderia vir a ocorrer o mesmo com o show de lançamento do vinil no SESC eu pensei que talvez fosse uma boa oportunidade de deixar um registro ao vivo dessas canções. Mais pessoas poderiam assistir e todo o investimento de trabalho não seria em vão. Montar um show inteiro, inédito, para uma só apresentação, não compensa o trabalho. Sete músicos no palco. Então propus ao Canal Brasil fazer esse registro. Mas foi uma loucura. Esse nervosismo, ao qual você se refere, foi pouco, perto do desafio que foi levantar essa produção em 15 dias. Eu sou a produtora fonográfica então 10 minutos antes de entrar no palco eu estava vendo contrato, autorização de gravação, enviando logomarca para projetar. Não sei como consegui. Estava muito sobrecarregada. E fiquei durante um ano em pós-produção. Só agora está começando a acalmar. Eu fiz um longa metragem… Um especial de TV que tem toda uma narrativa… Não é só um show gravado ao vivo… Tem uma historia por trás desse show… Uma narrativa de luz, cor, movimento de palco, uma equipe toda dialogando comigo. Além do mais sou perfeccionista. Sofro a beça. Gosto das coisas bem feitas. Uma herança da minha paixão e educação fomentadas pelo cinema e a fotografia. E gosto de trabalhar com gente exigente também. Com os melhores. Porque aí tudo ganha outra dimensão que é o prazer de fazer bem feito. O gozo estético mesmo. Não há como ter um bom resultado sem muito trabalho. Então eu considero esse DVD uma construção estética feita por vários artistas em colaboração. O Paulo Fontenelle, que fez a direção, o Walter Costa com quem trabalhei na sonoridade toda das mixes e edições, o artista visual Jose Diniz que me cedeu às fotos e loops de projeção, o light designer Henrique Leiner, a direção musical impecável do Aquiles Faneco, um mestre da guitarra, enfim, o trabalho de vários artesões de som e imagem.

E agora o resultado, após todo o processo, te deixou satisfeita?
Muito satisfeita. Eu projetei uma coisa e acho que 80% do que eu imaginei está lá. Lamento não ter estado mais relaxada. Principalmente no inicio, dá para perceber a tensão na fisionomia. Mas depois eu fui descomprimindo. Tivemos poucos ensaios. A banda toda de São Paulo. Eu no Rio. Só uma louca grava um DVD na estreia. As pessoas rodam meses com um show antes de gravar. Mas eu sabia que se não fosse assim, não aconteceria. Ao mesmo tempo eu sabia que poderia consertar alguma coisa depois e que o importante mesmo era salvar a performance, e deixar o preciosismo para as benesses da tecnologia. O que de fato foi feito. E ficou tão legal. Acho que sem querer consegui deixar um registro audiovisual representativo da minha trajetória.

“Tempo Circular”, o primeiro single, é uma faixa completamente inédita, certo? Sobre o que é esse “Tempo Circular”?
Eu me vejo basicamente como uma cantautora. Canto as coisas que componho. Gostaria de ter podido mostrar mais o meu trabalho atual de compositora. Mas acho que não era o momento. Eu precisava lançar esse disco dos anos 90. Mas achei importante colocar uma canção inédita, pelo menos. Mostrar um pouco onde eu estou, o meu trabalho agora. Esse DVD é mais uma retrospectiva de carreira, uma coisa que eu estava me devendo e devendo ao público. Mas evidentemente são canções de outra época, com outra linguagem. Mas ainda assim meio atemporais, eu acho, grande parte toca até hoje nas rádios de todo Brasil e fazem parte do imaginário da musica popular contemporânea, como “Caleidoscópio”, “Natureza Humana”, “O Poeta Está Vivo”. Já “Tempo Circular” é o meu passo a adiante, o meu diálogo com a nova geração. Acho que meu encontro com Paulo Monarco é bem representativo desse momento. Fizemos coisas interessantes juntos, como “Quero Ser Máquina”, vencedora de cinco festivais universitários.

Num bate papo nosso no Facebook, você me dizia: “O Romulo (Fróes) tinha razão. Temos que caminhar e esquecer esse mainstream”. Como é se sentir independente hoje? E como está sua relação com essa nova (nem tão nova assim) geração?
Exatamente. Esse mainstream existe para pouco e a um preço que não vale a pena pagar porque a relação é muito leonina. Essas caras estão tentando reproduzir as antigas relações e percentuais de royalties artísticos no universo digital. Eu tinha a intenção inicial de relançar os meus discos da EMI pela Universal. Mas era tão ruim a proposta que acabou não sendo viável. Então eles licenciaram para eu lançar. Foi muito melhor. Hoje, depois de passado alguns anos daquela conversa, eu entendo mais a posição do Romulo. Acho que ele faz um trabalho consistente e muito digno, uma coisa de formiguinha, honesta à beça. Eu sou muito fantasiosa e cresci dentro de um mercado muito perverso. Depois que montei a Cafezinho, a editora e o selo fonográfico, venho agregando novos artistas e aprendendo muito com eles. Mas é difícil porque a gente faz o disco, mas não tem como lançar ele dentro do mercado. O marketing é muito caro. Então é como fazer uma obra de arte e expor na sua própria casa, para os seus amigos. Porque você não tem bala para colocar na vitrine. Esse tal de marketing digital, programas de TV, rádios, etc… Isso tudo é um saco para a gente que quer é tocar e cantar e compor e criar. Mas acaba sendo obrigado a prestar a atenção nisso, que rouba tempo e trabalho, para no final morrer na praia, pois quem tem 10 mil reais para botar um banner de anuncio numa plataforma digital? E os anúncios nas redes sociais para fugir da prisão dos algoritmos e alcançar os seus amigos? Ai você fica puto e não faz nada… Tudo bem. “Dane-se”, eu digo para mim mesma. Quem quiser que corra atrás. Mas não é assim também porque você gastou dinheiro para produzir, você é o empresário, a gravadora, não pode perder dinheiro. Não pode né? Mas perde. Porque no fundo você sabe que isso não é o mais importante. E essa é a diferença entre você e eles. O bem imaterial, os ganhos subjetivos… Mas tem sempre uma cobrança em volta da família, e também interna que tem que dar lucro. Então a gente vive em conflito e em uma negociação permanente com a gente mesmo.

E agora, pra onde vai Dulce Quental? Shows? Livros? Músicas? Filmes? Qual o caminho nesse país aparentemente perdido?
Me responde você, se tiver a resposta. Do jeito que as coisas tem andado nos últimos anos eu não espero nada. Minha filha vai estudar nos USA ano que vem. Talvez eu pegue uma mochila e dê um role para ver como anda o mundo lá fora. Talvez seja a hora de deixar espaço para os novos. Ou talvez eu aceite o convite do meu parceiro Raul Misturada e vá para São Paulo no verão gravar um disco de inéditas. A gaveta está cheia de canções, mas eu confesso que estou cansada de dar murro em ponta de faca. Onde está o publico? Quem é o meu publico? Será que o que eu tenho a dizer pode interessar a alguém? São perguntas que eu me faço e que não tenho as respostas. Mas isso nunca me impediu de continuar a produzir. Até porque a gente faz antes de tudo para a gente mesmo. Sair da posição passiva e fazer a passagem ao ato. A cenourinha na frente do nariz… Enfim, pra fazer a liga com o mundo. E manter a conversa acesa. A tal da alteridade, né? O Outro que ainda não conhecemos em nós.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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