Máquinas ao vivo no Breve SP

Texto por Cainan Willy
Fotos por Kalaf Lopes

Desde 2014, quando lançaram o primeiro registro autointitulado, o quinteto Máquinas, de Fortaleza, vem se destacado como uma das bandas mais interessantes do Nordeste. Nesses três anos de atividade eles divulgaram o EP “Zolpidem” (2015) e o disco “Lado Turvo, Lugares Inquietos” (2016/Bichano Records e Transtorninho Records), sendo esse último um registro que chama a atenção pela quantidade de faixas, apenas seis, e a sonoridade post rock que mistura noise e é uma parada “quase instrumental” que conquistou fãs pelo país – não à toa, “Lado Turvo, Lugares Inquietos” entrou na lista dos 25 Melhores Álbuns de 2017 na votação do Scream & Yell.

Aproveitando a boa recepção do álbum “Lado Turvo, Lugares Inquietos” (liberado em maio de 2016 no Bandcamp no modelo download gratuito / pague quanto quiser), no começo de julho eles anunciaram uma turnê de cinco shows pelo Sudeste passando por São Paulo, Santo André, São Carlos e chegando a Belo Horizonte (21/07 na Casa do Jornalista) e Rio de Janeiro (29/07 na Audio Rebel). Na abertura da tour, Samuel Carvalho (voz/ guitarras/ samples), Allan Dias (voz/ baixo), Gabriel de Sousa (sax), Guilherme Lins (guitarras) e Roberto Borges (voz/ guitarras) se apresentaram no Breve, no bairro paulistano da Pompeia, ao lado da banda Terno Rei.

Após um belíssimo show de abertura da Terno Rei (que lançou o bom álbum “Essa Noite Bateu Com Um Sonho” em parceria com o selo português Azul de Tróia), os cearenses montaram o palco e começaram uma das noites mais importantes e inesquecíveis de suas vidas com a barulhenta “Quarto Mudo”, que também abre “Lado Turvo, Lugares Inquietos”. De repente, algo tirou a concentração da banda e o publico começou a tentar entender o que acontecia. Uma pessoa da plateia passou mal, desmaiou e caiu sobre uma das caixas de som. O show parou, as luzes se acenderam e foi preciso chamar o resgate. Segundo o baixista Allan Dias, a jovem não se machucou e já se encontra bem.

Depois desse inesperado ocorrido, o Máquinas (corajosamente) voltou ao palco e recomeçou a apresentação. Mesmo visivelmente abatidos pela energia negativa que havia se instaurado no local, a banda reverteu o cenário e fez um showzaço, digno de estreia de tour. Quem conhece sabe que o noise / post rock produzido pelo quinteto tem uma parada que impede as músicas de terminarem antes dos cinco minutos – pra ser objetivo, grande parte das canções tem duração de 10 minutos, e algumas ultrapassam esse número –, o que fez com que o grupo tocasse apenas seis músicas e tudo isso durou quase uma (intensa) hora.

Experimentação em volume alto, os ruídos se misturavam criando a atmosfera presente nos trabalhos de estúdio, só que ao vivo tudo é potencializado e as faixas continuam a mexer com os sentimentos mais profundos de quem estava assistindo à banda. A bagunça sonora que se acomoda feita um quebra cabeça é cheia de repetições e, quando você se acostuma com a sonoridade inquieta, entra um vocal calmo e sombrio, como se um espirito estivesse a sussurrar em nossos ouvidos coisas que queremos apagar da memória.

O Máquinas agora segue seu caminho rumo ao fim dessa tour maravilhosa e mira no lançamento de matérias novos. Em São Paulo, o quinteto apresentou uma faixa inédita, ainda sem nome, que dá o gostinho do que está por vir em suas próximas gravações. Ao comentar sobre a notável diferença de sonoridade do novo material com o “antigo”, Allan Dias explicou: “É meio diferente mesmo, uma espécie de roupagem nova. Na verdade é uma música que ainda estamos compondo, ela tem essa coisa meio jazz e math rock”. Vem coisa boa por ai, então fique de olhos (e ouvidos) abertos para os próximos passos do Máquinas. E veja o show: vale muito a pena.

– Cainan Willy (www.facebook.com/CainanWily) e editor chefe do site Pacovios

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