Três discos portugueses: Éme, Benjamim e Barnaby Keen, Pega Monstro

resenhas por Pedro Salgado, de Lisboa

“Domingo À Tarde”, Éme (Cafetra Records)
No sucessor de “Último Siso”, Éme (o nome artístico do músico lisboeta João Marcelo) apostou num trabalho diversificado, mantendo a formação do disco anterior e beneficiando-se igualmente com a participação da cantautora Moxila (voz, flauta e cavaquinho), que dinamizou e enriqueceu as canções do álbum. Em “Domingo À Tarde”, Éme e a sua banda assimilam diversas influências da música popular portuguesa, como Zeca Afonso ou José Mário Branco, aproximando-se igualmente do universo sonoro de Paul Simon e Harry Nilsson, entre outros. Alternando momentos de animação e romantismo com fases de melancolia, nos quais predominam as harmonias sonoras, o trabalho sobressai pela dinâmica e o envolvimento do coletivo. O pop de “Comboio”, com um refrão apelativo, a ponte entre os ambientes musicais de Zeca Afonso e Leonard Cohen no épico “Buraquinho” e a releitura do tema folk português de Adélia Garcia (“Muito Chorei Eu No Domingo À Tarde”) são representativas das diferentes abordagens musicais do álbum. Em suma, o novo disco de Éme reflete a forma confiante com que o músico lisboeta abordou o seu trabalho.

Nota: 8 (ouça o álbum)

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– Entrevista (2015): “Para mim o pop nunca foi depreciativo”, diz Éme

“1986”, Benjamim e Barnaby Keen (Pataca Discos)
Unidos pelo gosto comum por um disco de Chico Buarque, Benjamim (autor do excelente disco “Auto Rádio”, de 2015) e o músico inglês Barnaby Keen, que viveu no Brasil durante seis meses, elaboraram um conjunto de oito canções influenciadas pelo pop dos anos 80, mas também pelo samba e a bossa nova, sem desvirtuar a autoralidade de cada um. No trabalho, Benjamim faz coros em inglês dos temas de Barnaby e o músico inglês emprega o seu sotaque brasileiro nas faixas de Benjamim. Ao longo de “1986” (que é igualmente o ano em que ambos nasceram), a dupla estabelece um equilibrio entre momentos de introspeção e dinamismo, privilegiando a melodia e tocando instrumentos como o saxofone, piano e bateria. A tropicalista “Dança Com Os Tubarões”, a envolvente “All I Want” e a belíssima “Terra Firme”, tal como o pop de “Nothing Else”, destacam-se pela forma como Benjamim e Barnaby aproveitam as suas capacidades criativas e valorizam os temas. De um modo geral, “1986” é um álbum com vários pontos de interesse, confirmando a boa parceria entre os dois músicos.

Nota: 8 (ouça o álbum)

“Casa de Cima”, Pega Monstro (Upset The Rhythm/Cafetra Records)
Como resultado das experiências sonoras iniciadas no disco anterior, “Alfarroba” (2015), o Pega Monstro abordou o novo trabalho com uma perspectiva mais ampla das canções, estabelecendo pontes com a música popular portuguesa e a música do nordeste brasileiro. “Casa de Cima”, inspirado em histórias pessoais de Maria e Júlia Reis, não abandona a pegada punk característica do duo, mas coloca o foco na harmonia e na melodia. O disco revela igualmente uma evolução lírica notável, conferindo maior profundidade às baladas e aos temas com vários andamentos. Na faixa “Partir A Loiça”, o Pega Monstro aposta num punk épico, na sugestiva “Odemira” a banda introduz alguns elementos experimentalistas que se adequam à sua sonoridade direta e o indie rock intenso de “Cachupa” retrata uma angústia romântica, apostando num crescendo instrumental e evocando uma quadra de Fernando Pessoa. Globalmente, “Casa de Cima” é o álbum mais ambicioso do Pega Monstro e o mérito reside na articulação eficaz entre o passado e o presente do grupo.

Nota: 8,5 (ouça o álbum)

Leia também:
– Entrevista (2017): “A gente precisa promover mais este intercâmbio Brasil/Portugal”.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui.

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