Entrevista: Zé Bigode

entrevista por Rafael Donadio

Perto de completar um ano do lançamento do EP homônimo, Zé Bigode disponibilizou nas plataformas digitais, no dia 3 de maio, o primeiro álbum da carreira, “Fluxo”. As influências do afrobeat, baião, maracatu, samba e rap, já muito presentes no trabalho de 2016, juntaram-se, ainda com mais peso, ao jazz. Não só no estilo musical, mas também na forma, no improviso.

Agora tente imaginar gravar com nove músicos, de uma forma que se prestigie, acima de tudo, o improviso. Sim, foi penoso. O jeito foi colocar todos esses marmanjos, juntos, dentro da sala 1 do Estúdio Cia dos Técnicos, em Copacabana, antigo estúdio da RCA. Foram dois dias e mais uma pequena reserva para algumas horas, em um terceiro dia, para uma surpresa inesperada.

A banda formada por Zé Bigode (guitarra), Daniel Bento (baixo), Eric Brandão (bateria), Jayant Victor (guitarra), Victor Lemos (sax alto e tenor), Thiago Garcia (trompete), Rodrigo Maré (timbal, percussão), Bruno Durans (bongas) e Pedro Guinu (Rhodes, piano, clavinete, moog, orgão) contou ainda com os convidados Belle Nascimento, Alexandre Berreldi, Eduardo Rezende, Reubem Neto, Ingra da Rosa e Victor Hugo.

A atriz e escritora carioca Ingra é quem pede licença logo nos primeiros segundos e chama os ouvintes para o caminho aberto pelas oito músicas instrumentais que compõem o trabalho, que seguem o vento, firmam os tempos, plantam a fé e conduzem o fluxo que a banda toca. Zé Bigode é responsável pela composição de sete faixas. “Marijuana, Mon’ Amour” foi composta pelo flautista Fernando Grilo, que faleceu no fim de 2015 e, segundo o guitarrista, foi uma grande referência de como continuar fazendo as coisas, mesmo quando o sistema não está do nosso lado.

O motivo do apelido Zé Bigode está na cara e foi dado ao compositor e instrumentista carioca José Roberto Rocha na época em que tocava no projeto Ludi Um e As Cabeças. “Na hora de apresentar a banda, o Ludi achava estranho ser só Zé. Como eu tinha um bigodinho, ficou fácil: Zé Bigode. Quando a banda se desfez eu achei bacana manter”, relatou o músico.

A música sempre esteve presente na vida de Rocha, desde quando começou a tocar de “orelhada” aos 13 anos de idade. O lance de fazer da música profissão veio depois que começou a estudar formalmente, há cinco anos, com 21. Mas o verdadeiro estalo surgiu com o jazz e outros estilos. Foi aí que ele viu que a música ia muito além das coisas que escutava quando moleque.

Apesar da preferência pelo tocar, Bigode sempre trabalhou com profissões relacionadas à música. Formado em Produção Fonográfica, o carioca é sonoplasta / operador de áudio na Rádio MEC e Nacional, que fazem parte do Grupo EBC. Em conversas por Facebook e alguns e-mails, ele nos falou sobre o processo de gravação, influências diversas e de uma viagem a Cuba, a resistência de se trabalhar com arte no Brasil e outros papos. Confira.

Ainda com o peso da música brasileira e do afrobeat, é possível perceber um peso maior do jazz no “Fluxo”. O disco teve alguma influência mais pontual do jazz?
O jazz veio presente mais na forma, no sentido forte de improviso que ele tem, por isso até o nome “Fluxo”. Deixar fluir. Nem sempre temos que ter as rédeas das coisas, às vezes é bom deixar ser levado. Ultimamente tenho ouvido muito aquela galera do novo jazz: Kamasi Washington, Thundercat, Robert Glasper. E também a linguagem da mistura do jazz com o rap, que me agrada muito.

Quais são suas outras influências musicais?
Ela é variável, ouço muita coisa. Mas não só musica me influencia. Gosto de observar o cotidiano e suas interligações, mas se for citar nomes, rola muito Miles Davis, Criolo, Dayme Arocena, Kamasi Washington, Hermeto Pascoal, Matana Roberts, Metá Metá, Baiana System, Nação Zumbi, Robert Glasper, Mario Adnet, Herbie Hancock, Wayne Shorter, Tássia Reis, OQuadro.

Certa vez, você comentou sobre a dificuldade de colocar oito cabeças dentro do estúdio para gravar. Explique como foi o processo.
Assim que lancei o primeiro EP, já tinha em mente alguns temas novos e já comecei a trabalhar esses temas com o pessoal. No fim de 2016, achei que era o momento de registrar as coisas. Penso no disco como se fosse uma fotografia, registro do momento. Aluguei dois dias no estúdio e, por ser uma sala grande e ter várias divisórias – para se ter uma noção, “Coisas”, do Moacir Santos, e o “Tim Maia Racional” foram gravados nessa sala –, conseguimos colocar a banda toda para tocar junto e ainda sim ter autonomia de limar os vazamentos. Foi uma experiência incrível. Um fato curioso é que o álbum teria sete faixas. Já tínhamos gravado tudo quando no final de fevereiro eu escrevi um tema e apresentei à banda em um ensaio. Tocamos e de primeira soou como se já vínhamos tocando há anos, aí geral se olhou e sabíamos que tínhamos que gravar. Voltamos para mais um dia extra em estúdio para gravar. O nome da faixa é “Amalá”. Tocamos apenas uma vez antes de gravá-la. O que se ouve no disco é um dos primeiros takes também. É uma coisa muito louca quando a música vem e se materializa ali como se já tivesse toda pronta.

Por que a preocupação de gravar ao vivo?
O método de gravação que o mercado adotou como ideal é a gravação por canal. Primeiro vai lá e grava a bateria, depois o baixo, e assim subsequente. Eu acho esse método muito podador de potencialidades. A música existe no espontâneo e muita coisa boa surge do erro também. Quando pensei na concepção do álbum, de cara eu sabia que não poderíamos gravar por canal. Saberia que teria que ser geral junto, olhando no olho, errando e acertando junto. E foi o que rolou. Foi a melhor maneira de registrar o que tocamos nos ensaios e ao vivo. Esse método ainda rola no jazz e no samba. Gostaria que as coisas fossem feitas mais livres, e no estúdio tudo é possível, né? O cara vai lá, regrava o próprio solo, voz, mil vezes, tudo perfeito. Aí chega ao vivo e não é tão bom assim, fica fake.

Você sempre fez música instrumental?
Sempre tive projetos que continham voz. Embora eu não cante em muitos deles, eu participava do processo de composição, fazia até letra em alguns deles, mas sempre me sentia travado porque precisava de alguém para levar adiante o que estava na minha cabeça, e nem sempre ficava como eu tinha imaginado anteriormente. Às vezes ficava até melhor, mas de um modo geral não cobria a expectativa. O fim do último projeto que me envolvi nesse formato coincidiu com uma época de descobertas musicais, principalmente o jazz, aí foi um pulo para me dedicar a fazer só música instrumental (que é um rotulo besta, mas vi aqui que tem uma pergunta sobre isso mais embaixo).

O Duda Victor, da banda Terremotor, que participou da coletânea “Sem Palavras”, lançada pelo selo Scream & Yell, comentou sobre a produção de música sem voz (agora vamos nos referir assim). “A liberdade não seria na fase de composição e sim no lance que sendo instrumental não existem fronteiras pra essa música. O que vale é o sentimento.” Essa liberdade teria sido um dos motivos também?
Sim. A música sem vocal é mais livre para ir para onde for, principalmente se o som for baseado em improvisos. A coisa flui melhor e a energia entre os músicos é mais potente, porque você precisa estar muito ligado no que a pessoa que está tocando com você está fazendo, então a conexão fica mais aguçada. Já quando rola uma voz tudo tem que girar em torno dela, é como se os demais instrumentos fossem a passagem para voz caminhar em cima. Na música instrumental todos são protagonistas.

O organizador dessa mesma coletânea, Leonardo Vinhas diz “Temos que parar de ver ‘música instrumental’ como gênero. Não é porque não tem letra que a composição deixa de ser rock, reggae, cachacera ou seja lá qual for o estilo. É apenas uma opção de dispensar a letra”. O que acha sobre isso?
É isso. Para mim, música é música. Certa vez, ouvi do Heraldo do Monte que, antigamente no Brasil, a música instrumental não tinha esse rótulo, era tocada nas rádios como qualquer outro som, rolava um choro sem letra, depois um bolero e tudo certo, o público gostava. Não rolava essa separação, mas aí a indústria do entretenimento começa a se desenvolver forte e, como tudo no mundo capitalista precisa ser etiquetado e colocado numa prateleira, inventaram o rótulo “música instrumental”. O jazz, por exemplo, é um estilo que tem mais música sem letra que os outros e ninguém que toca jazz fala “eu faço música instrumental”. Fala “eu toco jazz”.

Você acha que essa música sem voz tem uma “posição” inferior no Brasil?
Não diria inferior, mas sim elitista. Com a divisão de música cantada e instrumental, acabou que a música instrumental ficou sendo som só para musico. Esse estigma afastou a galera que não saca tanto de música. Aí a indústria larga mão, não dá lucro.

Em um momento em que vivemos cada vez mais retrocesso político e cultural, chegando ao ponto de vermos caso de censura, como no caso da banda Aláfia que teve parte da música editada no programa Cultura Livre, da TV Cultura, qual a dificuldade de se fazer arte?
É grande. Principalmente com essa mentalidade geral de que arte é algo menor, que não é um trabalho “sério”, e sim algo ligado a uma atividade descontraída, para aliviar o estresse, algo inofensivo. Muito disso porque nossas vidas estão enraizadas no conceito que só é trabalho se seguir o status quo, que é acordar cedo e bater o ponto. A arte vai no caminho inverso. Arte é o observar, a análise, a não aceitação da norma geral. Para mim, não existe arte sem enxergar a sociedade ao redor. E se você enxerga a sociedade, automaticamente você sai da inércia. Isso não é interessante para o conservador, por isso eles querem tanto sabotar a cultura e a arte. Sem contar que a grande parte da população não tem acesso à arte. Esse direito é vetado. Hoje, quem vive de arte pode se dizer um privilegiado. A grande maioria só consegue porque tem uma rede de apoio, seja familiar ou financeira, mas aí a coisa fica só circulando entre as mesmas pessoas. É muito difícil para alguém que não tem essa moral resistir e continuar fazendo. As contas precisam ser pagas. Aí a pessoa acaba tendo que arrumar outra atividade e acaba deixando de lado a arte. E com esse desgoverno a coisa tende a ir mais ladeira abaixo.

Acha que precisa, mais do que antes, ter um maior posicionamento político dos artistas, na música e na arte como um todo?
Sim, é preciso. A arte e a música tem o poder de transformação imenso, chega onde poucas coisas conseguem ir, que é no inconsciente. Arte é uma arma poderosíssima. Mas sem cair naquela caricatura do artista engajadão, que, às vezes, soa falso demais.

O que a sua música carrega em relação a isso?
É a resistência de continuar fazendo mesmo quando tudo parece desmoronar. Nessa onda de conservadorismo, é preciso continuar tocando o barco. Ocupando com música os locais que o estado não se faz presente, as praças, tudo.

Pelas redes sociais eu “segui” um pouco sua viagem por Cuba, logo após a finalização do EP. O que do País tem nesse disco?
Tem mais coisas em relação ao modo de vida cubano do que necessariamente algo que venha traduzido em melodias, mas dá pra notar uma influência forte da rumba em algumas faixas, como “Omã”, que é onde esse lance vem mais na cara

Aconteceram mudanças no que você estava fazendo ou planejava fazer no disco depois da viagem?
Apenas mudanças no sentido de vivências e referências de como se fazer música. Em vez de pensar somente na parte do “mercado”, poder fazer música do jeito que quiser, com mais liberdade de sonoridades.

– Rafael Donadio (Facebook: rafael.p.donadio) é jornalista do Diário do Norte do Paraná

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