Boteco: Cinco estados brasileiros, dez cervejas

por Marcelo Costa

Começando mais um rolê Brasil por Porto Alegre, casa da Tupiniquim, que vem surpreendendo com seus mais recentes lançamentos. Essa Sol e Chuva é uma American IPA que busca alcançar as características de uma New England IPA, que são: pouco amargor (ok), corpo aveludado (quase lá) e muito sabor e aroma (está no capricho). Detalhe: para manter suas características, as NE IPAs não são pasteurizadas (e essa Sol e Chuva é). De coloração amarela (suco de laranja) com creme branco de boa formação e permanência, a Tupiniquim Sol e Chuva exibe um aroma com notas frutadas cítricas caprichadas (laranja, abacaxi e manga). Na boca, a textura é picante e suave. O primeiro toque replica o que o aroma adianta (laranja, abacaxi e manga) e o amargor subsequente é bem suave (50 IBUs delicados), como manda o estilo. Dai pra frente, o conjunto caprichado segue com cítrico em primeiro plano e uma leve doçura refrescante na base. O final é deliciosamente cítrico. No retrogosto, cítrico e doçura suaves adoráveis. Muito boa!

Agora para o Rio de Janeiro com a primeira cerveja da Overhop a passar por este espaço, Sweet Sofia, uma American Blond Alen bastante lupulada (single hop Mosaic – como o nome da cervejaria adianta, eles gostam de lúpulo) produzida em Angra dos Reis, mais precisamente na fábrica da Mistura Clássica. O resultado é uma cerveja de coloração âmbar clara com creme branco de média formação e retenção. No nariz, percepção bastante assertiva do lúpulo oferecendo notas cítricas (maracujá, tnagerina e pêssego) e herbais (pinho) sobre uma base delicada de caramelo. Na boca, a textura é cremosa e levemente picante. O primeiro toque oferece rápida doçura logo deixada para trás pelo lúpulo, que toma conta do conjunto, sem soar uma porrada no amargor (ainda que pareça mais do que os 28 que a casa adianta). Dai pra frente, a doçura caramelada tenta amaciar a pancadinha de amargor cítrico e herbal, e o bebedor ganha uma bela cerveja como resultado. O final é amarguinho. No retrogosto, leve adstringência e mais herbal que cítrico. Muito boa.

De Sorocaba, no interior paulista, surge a Synergy Brewing Company, que já vem conquistando elogios por onde passa com suas boas receitas. A primeira dessa série já demonstra bastante personalidade, pois a Synergy Snow Wit é uma Witbier com “doses massivas de raspa de limão siciliano e sementes de coentro”, segundo a casa, o que certamente a diferencia, conforme veremos a seguir. De coloração amarela mais para palha do que para o dourado e com creme branco de média formação e permanência, a Synergy Snow Wit exibe um aroma intenso de notas cítricas e condimentadas, derivadas totalmente das doses massivas de raspas de limão e coentro adicionadas na receita. Na boca, textura frisante e picante. O primeiro toque entrega bastante cítrico (limão, limão e mais limão com um tiquinho de coentro na sequencia) seguido de refrescancia. O amargor é baixo e, dai pra frente, surge um conjunto delicioso, bastante leve, cítrico e refrescante. O final é seco e cítrico. No retrogosto, leve adstringência, cítrico e refrescancia. Uma delicia.

O quarto Estado é o Paraná, representado aqui pela excelente Morada Cia Etílica, que resolveu fazer um remix de um das suas cervejas mais elogiadas, a Hop Arábica, e desta forma nasceu o Funky Arábica, que segue o padrão Blond Ale da original com adição de café resfriado da Serra da Mantiqueira, flocos de aveia e casca de laranja além de levedura selvagem. O resultado é uma cerveja de coloração amarela turva com traços marrons (de café), creme bege clarinho de baixa formação e rápida dispersão. No nariz, café se destaca e se sobressai sobre discretas notas cítricas e acidez distante, quase imperceptível. Na boca, o primeiro toque oferece doçura seguida de leve cítrico e, em maior grau, café. O amargor é baixinho, 10 IBUs, e a levedura selvagem até tenta criar uma adstringência, mas a sensação é de que o café não a acordou, e ela ficou dormindo em um conjunto que, infelizmente, não mantém o alto padrão da original. O final é meladinho e cítrico. No retrogosto, café, laranja e um ar de decepção.

Representante mineira, a Zalaz, cervejaria da Fazenda Santa Terezinha, em Paraisópolis, marca presença primeiro com a Zupa, uma Belgian Blond Ale que recebe adição de açúcar orgânico. De coloração dourada levemente turva com creme branco de boa formação e boa retenção, a Zalaz Zupa exibe um aroma delicioso sugerindo bastante doçura com sugestão de caramelo, açúcar, geleia de pêssego e leve condimentação. Na boca, a doçura chega no primeiro toque, mas se abre de forma incrível na sequencia sugerindo frutas amarelas, caramelo, damasco, pêssego. A textura não chega a ser cremosa, mas é suave e levemente picante. O amargor é bem baixo, 24 IBUs que passam despercebido num conjunto que valoriza a doçura frutada com muito capricho. O final é levemente picante enquanto o retrogosto traz algo arisco de levedura mais doçura caramelada e geleia. Bem gostosa.

A segunda gaúcha da série também é da Tupiniquim: Supernova, uma Double IPA lançada em janeiro que aposta na potencia dos lúpulos Amarillo, Citra e Mosaic e na novidade do estilo New England IPA. De coloração âmbar alaranjada levemente turva (como pede o estilo) e creme bege clarinho de boa formação e retenção, a Tupiniquim Supernova exibe um aroma notadamente frutado e cítrico sugerindo grapefruit, pêssego, tangerina e maracujá sobre uma base suave de doçura de caramelo. Na boca, doçura rápida envolvida em notas cítricas que reforçam o que o aroma adianta. A textura é melada, picante. O amargor levemente resionoso até parece um pouco maior do que os sugeridos 50 IBUs num conjunto que junta cítrico (aqui a aproximação com o grapefruit é maior), resina e doçura bem discreta. O final é amarguinho e cítrico. No retrogosto, grapefruit, caramelo e resina. Ok.

A segunda carioca do rolê também é uma Overhop, a Darkhop, que é uma Black IPA potente de 80 IBUs e 7% de álcool. De coloração marrom escura tendendo a preto (mas nem tanto) e com um creme bege espesso de boa formação e retenção, a Overhop Darkhop apresenta um aroma em que as notas cítricas se sobressaem, de longe, ao malte torrado, costumamente definidor de estilos. Aqui, porém, não: há maracujá, tangerina, floral e, na base, acanhado, o malte torrado sugerindo café. Na boca, o primeiro toque traz cítrico marcante e as notas de torra recuperando o espaço “perdido” no aroma, que se intensificam conforme o liquido desse a garganta, justificando os 80 IBUs reais e de longo (e cítrico) alcance. Dai pra frente, um conjunto em que a doçura é quase inexistente, e o bebedor terá que se divertir com amargor potente, cítrico e café bem discreto. No final, amargoooor. No retrogosto, cítrico, café e amargoooooor.

A segunda paulista também é da Synergy, Union Session IPA, uma cerveja de sessão bastante lupulada (na receita, os lúpulos norte-americanos Centennial, Columbus e Cascade) e com teor alcóolico bastante baixo, de apenas 3.8%. O resultado na taça é um liquido de coloração mais âmbar do que dourado e creme branco de média formação e retenção. No nariz, um bom equilíbrio de notas cítricas (maracujá, grapefruit, manga), herbal (pinho), caramelo e leve resina. Na boca, a textura é seca e picante. O primeiro toque oferece ao bebedor aquilo que o aroma adianta com cítrico e herbal chegando praticamente juntos e, dai pra frente, se alternando: uma hora aparece mais maracujá, no segundo seguinte percebe-se pinho, com caramelo também dando as caras. O amargor (45 IBUs) é médio e longo, não mostrando sua força na porrada, mas sim na persistência. O final é amarguinho e refrescante. No retrogosto, mais pinho que maracujá com leve remissão a grapefruit. Uma bela Session, entre as melhores nacionais.

Representando novamente o Paraná, a Morada Cia Etílica surge com outra receita feita com exclusividade para o clube cervejeiro WBeer (assim como a anterior), a Coyol Cocoa Cream Porter. Desta vez, a Morada preparou uma Porter com adição de nibs de cacau cultivados na Bahia. De coloração marrom translucida com creme bege de boa formação e média alta retenção, a Morada Cocoa Cream Porter exibe um aroma que une notas doces que remetem a chocolate e a cacau com leve sugestão de café derivada da torra do malte. Na boca, primeiro toque traz doçura não tão intensa, remetendo inclusive a chocolate amargo. A textura é macia, suave. Há leve percepção herbal e amargor médio, que abre as portas para um conjunto de doçura achocolatada bastante sútil. O final é amarguinho (de torra), sensação que se mistura a chocolate amargo no retrogosto. Esperava mais.

Fechando a série por Minas Gerais com a segunda Zalaz, a Zapp é uma Wheat Wine, ou seja, uma cerveja com muito malte de trigo e elevado teor alcoólico (8.5%). De coloração âmbar caramelada com creme bege claro de boa formação e média retenção, a Zalaz Zapp exibe um aroma bem interessante com sugestões de caramelo, frutas vermelhas e leve condimentação remetendo a cravo. Na boca, doçura caramelada no primeiro toque que, no seguinte, já traz traços de frutas vermelhas (mais precisamente, geleia) acompanhadas de leve condimentação, nada que se destaque, mas que dá um colorido especial ao conjunto. A textura é picante (de álcool, mas sem incomodar) e sedosa, quase licorosa (como o estilo Wine pede) enquanto o amargor não aparece. Dai pra frente surge um conjunto bem interessante com mel, geleia de frutas vermelhas, cravo bem discreto e álcool muito bem inserido. O final é melado e condimentado (cravo e álcool). No retrogosto, caramelo, frutas vermelhas e calorzinho. Muito boa.

Balanço
Abrindo essa série nacional com a Tupiniquim Sol e Chuva me surpreendeu positivamente: eu já havia a bebido na torneira, e achado bem normalzinha, mas o salto na lata é enorme, tornando-a uma belíssima IPA com influência New England, sem ser New England. A Overhop Sweet Sofia é uma delicinha, melada e amarga, mas sem forçar muito a barra. Tem potencial para conquistar muita gente! Já a Synergy Snow Wit, carregada de raspas de limão e semente de coentro, e absolutamente excelente, uma das melhores witbiers do país. Agora para o Paraná com uma decepção: a original Hop Arábica é sensacional, e essa Funky Arábica é bem abaixo da média, e frustra a expectativa. A Tupiniquim Supernova é boazinha, mas não traz nada que a diferencie do turbilhão. Apenas mais uma… Já a Zalaz Zupa foi uma boa surpresa: eu não esperava muita coisa, e um conjunto frutado e caramelado surgiu com muito capricho impressionando. Gostei bastante! A Overhop Darkhop honra o nome da casa, inspirado na paixão pelos lúpulos: você irá encontrar poucas cervejas em que o lúpulo se sobressai ao malte torrado, e essa é uma (boa) delas. O mesmo nível é mantido na Union Session IPA, uma das melhores Sessions do país, lupulada (cítrico e amargo caprichados) e refrescante. Bastante elogiada (e muito melhor na lata do que na torneira), a Hop It Up é um capricho que combina muito bem doçura e amargor cítricos num conjunto bastante envolvente. Mantendo-se no território da decepção, a Morada é muito melhor do que ela apresenta nessas duas receitas menores, Cocoa Cream Porter, uma boa cerveja, mas muito aquém do potencial da casa. Fechando a série com mais outra surpresa da Zalaz, uma boa Wheat Wine chamada Zapp, meladinha, frutada e levemente condimentada. E muito gostosa.

Tupiniquim Sol e Chuva
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,77/5

Overhop Sweet Sofia
– Produto: American Blond Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,35/5

Synergy Snow Wit
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.6%
– Nota: 3,50/5

Morada Funky Arábica
– Produto: American Blond Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 2,89/5

Zalaz Zupa
– Produto: Belgian Blond Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,50/5

Tupiniquim Supernova
– Produto: Imperial India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,32/5

Overhop Darkhop
– Produto: Black India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,62/5

Synergy Union Session IPA
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3.8%
– Nota: 3,42/5

Morada Coyol Cocoa Cream Porter
– Produto: Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 3,01/5

Zapp Wheat Wine
– Produto: Wheat Wine
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3.50/5

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