Três HQs: Legado, De Volta A Solemnia #1, Hilda e O Troll

por Lucas Vieira

“Legado”, de Mateus Ornellas e Lua Costa (Estúdio Doninha)
Para quem gosta de gibis curtinhos, “Legado” é um prato cheio. Apesar de ambientada na Segunda Guerra Mundial, não é um conto sobre conflitos, mas sim muito mais próximo de um conto de fadas – inclusive em seus recursos narrativos. Usando a História como pano de fundo, Mateus Ornellas mostra um sobrevivente do Kyleclare, navio a vapor que transportava açúcar e trigo e foi afundado pelos alemães em 1943. O’Brien é o único sobrevivente e é salvo de uma forma inusitada: por uma sereia. Cada acontecimento na vida do marinheiro e dos que estão a sua volta nos mostra como viver é andar de mãos dadas com o inesperado. Uma hora pode se estar deixando os dias passarem, na outra estamos felizes, ficamos deprimidos, mas de alguma forma a esperança aparece. O enredo é apresentado por uma personagem que ficamos sem conhecer, como se fosse uma contadora de histórias do mundo submarino. Um ponto fantástico em “Legado” é que apenas com a primeira página o autor apresenta o leitor ao mundo de fantasia que existe na história – toda a mitologia está naqueles oito balões. O espaço das páginas foi muito bem aproveitado, cabendo ainda extras sobre a produção da obra. Se existem tantos detalhes interessantes na escrita, no desenho não é diferente. Lua Costa conseguiu com a luz e as cores ilustrar perfeitamente a tensão de cada quadro. Muitas vezes a moldura vai integrar uma imagem de fundo e quando se consegue notar isso, aparece um efeito a mais no gibi. O traço da desenhista tem estilo simples e casa com a cadência da HQ. As cores tanto no fundo do mar quanto no pôr-do-sol chamam bem a atenção e a capa é intrigante: Com a sombra do protagonista e uma mistura de céu e mar sépia, a arte é um grande convite para abrir e se deliciar com uma fábula serena, acessível e de leitura rápida.

Nota: 7,5

“De Volta A Solemnia #1 – Rei Sem Lei”, de Artur Fujita (Tapastic Comics)
No fantástico reino de Solemnia, o jovem príncipe Alex I está passando por grandes problemas. Com uma guarda muito opressora e um trio de conselheiros em busca de um marido para sua mãe, a viúva rainha Stella, o garoto se encontra sem amigos para brincar e agora com uma missão: resgatar um amuleto mágico que lhe dará o direito de ser o governante, apesar de sua idade. Prevista para ser inicialmente dividida em 10 edições mensais, a primeira parte da HQ online de Artur Fujita ainda mostra pouco do enredo: vemos um príncipe corajoso que, graças aos guardas, não consegue manter amizades por muito tempo, odeia estudar e adora aventuras. Um personagem com potencial no quadrinho é o bigodudo Sir Grimmo, um paladino mudo que é imposto pelos conselheiros como melhor amigo de Alex. Forte e com um jeito muito ingênuo, certamente vai ser a dose de humor e força física na jornada do futuro monarca. Com uma linguagem bem atual e simples, o roteiro mostra que muitos clichês do gênero de fantasia vão ser explorados, misturados com momentos engraçados e com uma pegada mais infantil. Primeiro batizada com o título desse episódio, “Rei Sem Lei”, “De Volta A Solemnia” – que foi destaque na ProAc de 2016 – tem uma arte bem fofinha, com cores vibrantes, personagens muito expressivos e uma movimentação que lembra o estilo dos desenhos animados. Sendo uma edição ainda muito introdutória e chamando atenção pelos fatores listados, o primeiro capítulo consegue além de encantar fazer com que o leitor anseie pela parte dois. Agora resta aguardar e conferir a continuação da aventura desse jovem príncipe.

Nota: 7,5 (leia online gratuitamente)

“Hilda e O Troll”, de Luke Pearson (Quadrinhos na Cia.)
Essa é a primeira edição da saga de Luke Pearson que chega ao Brasil. Com acabamento em capa dura, o volume traz duas histórias do mundo de Hilda, uma garotinha de cabelo azul que mora com sua mãe e seu bichinho que é uma mistura de gato e cervo. O quadrinho principal traz o cotidiano da menina na montanha onde vive: adora desenhar – o que é claramente apoiado pela mãe, aparentemente desenhista –, acampar no quintal e brincar de se aventurar por aí. Lembra muito as famosas aventuras de férias da nossa infância na casa de avós, sítios e acampamentos. Tudo isso já é bastante legal, mas ainda tem o extra de que o autor – que também fez storyboards para o desenho “Hora de Aventura” – insere elementos de mitologia nórdica no quadrinho. O mundo de Hilda é habitado por gigantes, trolls, espíritos do mar e um curioso Homem de Madeira, que eventualmente entra sem avisar na casa da garota, uma graça à parte na HQ. Hilda é curiosa e estuda sobre esses monstros. O mote da aventura é exatamente quando ela encontra uma pedra que se torna troll à noite e decide parar e fazer um desenho da pedra. Mas, nesse tempo, acaba cochilando e anoitece. O desenhista capricha nos detalhes. Conhecemos muito da casa da protagonista com o visual: brinquedos artesanais, iluminação com lâmpadas de natal, rádio antigo, móveis de madeira rústica. Sem contar que a paleta de cores da graphic novel é baseada em cores primárias: poucas vezes foge do azul, vermelho e amarelo com suas muitas variações. De forma quase imperceptível, em alguns quadros os personagens têm atitudes muito humanas: a inércia perante a resolução de um problema, a sensação de conforto ao entrar embaixo de um cobertor quentinho, a tensão em estar preso a si mesmo. Mesmo tendo só 40 páginas, o gibi ainda traz alguns extras e o melhor deles é a historinha de duas folhas com o Homem de Madeira. “Hilda e o Troll” é lindo e dá vontade de abraçar.

Nota: 8,5

– Lucas Vieira (Facebook) está no último período da faculdade de jornalismo, escreve sobre música desde 2010 e assina o blog Dizconauta

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