Entrevista: Gloria Groove

por Renan Guerra

As drag queens estão conquistando cada vez mais espaço na mídia – desde hits radiofônicos até participações nas novelas da Globo. Figuras marginais da noite, elas agora começam a desbravar novos espaços, sem a necessidade de concessões. Sua arte é por si só contestadora e anárquica e é nesse mar que Gloria Groove navega.

Groove teve singles de sucesso lançados em 2016 e chegou a participar de um dos quadros do Amor &Sexo, programa de Fernanda Lima na Rede Globo. Este ano saiu seu primeiro disco, “O Proceder”, trabalho que nasce no rap, mas que se embrenha por múltiplos gêneros, flertando até mesmo com o pagode romântico. Entre samples e memes, Gloria cria um trabalho que busca essa conexão estreita com a cena drag de São Paulo, vide seus clipes, que reúnem artistas como Ikaro Kadoshi, Alexia Twister, Aretuza Lovi, entre outros; mesmo assim ela mantém um frescor e uma força capazes de se comunicarem com um público amplo pelo Brasil.

De uma infância musical, em que chegou a integrar uma formação do Balão Mágico, Gloria seguiu os caminhos mais distintos para uma criança daquelas que cantava no Raul Gil. Com orgulho e respeito por sua carreira, a artista nos conta abaixo um pouco sobre sua história, seu processo criativo e sobre a arte drag. Confira.

Você começou a se montar há pouco tempo, se assim podemos dizer, e isso veio após o programa RuPaul’s Drag Race. Você considera a popularidade do programa como um propulsor tanto da arte drag como da sua própria carreira?
Sem sombra de dúvidas! O impacto do trabalho de RuPaul Charles mudou não só a minha vida, mas a de muitos jovens no mundo todo. Talvez se não existisse o fenômeno do programa, eu nem estivesse aqui!

Na sua história, você participou de programas como o do Raul Gil e até fez parte da nova formação do Balão Mágico, em 2002. Como essas experiências profissionais na sua infância influenciam na sua carreira artística hoje?
Ainda sou diretamente influenciada pela minha história de amor com o palco desde os sete anos de idade, a paixão e a vontade de cantar pra muita gente continuam as mesmas. Tenho muita sorte de ter construído muito cedo uma conexão com o lugar que hoje é o meu ambiente de trabalho – mesmo que hoje eu execute de forma completamente diferente.

A sua carreira musical é muito focada no rap, um universo distinto daquilo que se associou a cultura gay, que seriam apenas o eletrônico e o pop. Você consegue perceber algum momento em que você disse “ok, vou cantar rap”?
O assimilar das referências pra mim acontece muito naturalmente, então venho carregando comigo desde a pré-adolescência o interesse pelo hip-hop e pela capacidade de rimar. O que me libertou na verdade a ponto de realmente fazê-lo e aprimorar cada vez mais, foi a aproximação com a cultura drag. Percebi que montada me sentia livre de amarras e da necessidade de me esconder por ser como eu sou. Com isso veio a necessidade de me expressar através das letras, e consequentemente a vontade de agregar o rap a isso – também uma contracultura, marginalizada e feita em sua maioria por pessoas negras e latinas.

O rap tem uma construção muito baseada em colagens, samples, referências, algo que aparece de forma muito forte no seu disco de estreia. Como você colhe essas influências? Como elas acabam nas suas composições?
Por mais clichê que seja a frase, é real e oficial, “tudo me inspira”. Desde uma situação corriqueira, passando por sentimentos que tento decifrar, até um simples meme de internet… tento deixar fluir e garantir que o resultado final seja a minha cara.

Dentro desse mesmo conceito de referências e samples, como você lida com essa questão de se apropriar do trabalho dos outros, isto é, o famoso “vou samplear, vou te roubar”. Você chegou a refletir sobre isso durante a produção? Como ficam os créditos de todas essas pessoas que também, de algum modo, formam a sua produção?
Estamos vivendo na era onde algumas coisas que escutamos são verdadeiros ‘frankenstein.mp3’, com pedaços e recortes de tudo um pouco. Isso, pode-se dizer, é o produto inevitável do famoso ‘nada se cria, tudo se copia’, mas apesar de ser consciente disso, acredito que usada do jeito certo, uma referência externa pode com certeza funcionar e ainda carregar autenticidade de quem reproduz.

Ser uma drag vinda da Zona Leste de São Paulo, que fala sobre problemas de seu próprio universo de forma corajosa e que busca trazer uma união da cena demanda uma atitude de muita força, não é? Você percebe isso como um trabalho pesado, de enfrentar todas essas barreiras cotidianamente? E como a resposta do público tem influência nisso tudo?
A luta é diária pra que a gente consiga se unir e originar a nossa força dessa união. O mundo nem sempre está preparado pro que temos a dizer, e ainda lidamos com muitos desencontros dentro do nosso próprio círculo. A música me ajuda e me conforta ao imaginar que possa estar sendo tocada em qualquer lugar, a qualquer momento, e a possibilidade de que faça alguma diferença. É daí que tiro minha força, é claro, por conta do feedback dos fãs que são quem realmente faz o nosso trampo acontecer. Eles é que sabem como a nossa vivência é parecida, e que mesmo assim temos tantos motivos pra levantar a cabeça, sorrir e seguir quebrando paradigmas.

A arte drag no Brasil está, aos poucos, saindo daquele aspecto apenas de marginalidade que muitas artistas tanto enfrentaram nos anos 1990 e 2000, como você percebe esse novo espaço que está se formando? E quais são os passos que você acredita serem necessários para que esse trabalho seja ainda mais valorizado?
Procuro sempre me informar sobre a história da arte drag no meu país, justamente pra não me esquecer nunca de tudo que aconteceu pra que hoje pudéssemos desenvolver nosso trampo com tanta excelência e principalmente espaço. Uma verdadeira revolução está acontecendo quando você se dá conta de que estamos começando a olhar para a figura drag como uma estrela em potencial, não como motivo de chacota e/ou gancho para piada. Muito desse novo momento deve-se também à discussão de gênero e sexualidade, que se torna mais presente nas discussões em família, escola e entre amigos, gerando assim mais entendimento e aceitação da sociedade quanto ao nosso verdadeiro papel na cena artística – e no meu caso, no mercado fonográfico. Nossas próximas conquistas são empenhadas em edificar o “império” que já estamos fundando, provando nosso valor através de trabalho bem feito e impacto social-político, que é o que torna esse momento tão especial. Viva à arte drag, viva a comunidade LGBT, viva a música brasileira e a expressão artística!

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Scream & Yell.

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