“Daqui pro Futuro”, Vespas Mandarinas

por Leonardo Vinhas

“Não há razão em colocar mais alguma coisa aí fora a não ser que você esteja convencido que não foi feita antes. Eu simplesmente não gosto de entulho. E há muito entulho cultural por aí”.
(Jarvis Cocler, cantor e compositor inglês, em entrevista ao jornal inglês The Guardian em março de 2017)

Muitos convidados notórios, uma opção estética mais “acessível” e um primeiro clipe metido a moderninho: os Vespas Mandarinas parecem dispostos a chegar a um público maior, e a Deckdisck, sua gravadora, parece proporcionalmente disposta a investir para tanto. A questão é que, dados os indícios, o segundo álbum dos Vespas aparentemente está direcionado para um público que não existe mais: a adolescente leitora da Capricho. Porém, tal qual a revista teen, esse público simplesmente não existe mais. Mais grave ainda: seja qual for o público, eles erram o alvo.

Não é problema algum mirar o pop tampouco olhar para o passado: a questão é que ambos os casos aqui resultam em algo diluído e insosso, quando não constrangedor. Se por desejo artístico ou por insistência da gravadora, não importa: o que conta em música é o que você ouve no final. E aqui… Bom, “Daqui pro Futuro” é um dos trabalhos mais embaraçosos a figurar no rock nacional de anos recentes, não dá continuidade ao que foi apresentado no álbum de estreia (“Animal Nacional”, 2013) e provavelmente não trará novos adeptos para o agora duo (André Dea e Flavio Guarnieri deixaram a banda).

Pegue a “música de trabalho” como exemplo: o clipe de “Daqui pro Futuro” foi dirigido por Kondzilla, que trabalha majoritariamente com nomes do funk ostentação, mas o que saiu foi um visual de publicidade de site de compra online para embalar um popzinho magro que soa como se executado num tecladinho Casiotone, desavergonhado em trazer um refrão de “tchururu” que nem o Capital Inicial teria coragem de fazer hoje em dia. Não ajuda o fato de a banda ser reapresentada com visual sofrível: Chuck Hipolitho sem camisa fazendo a linha bad boy sujinho pero no mucho, e Thadeu Meneghini tentando ser bad boy e conseguindo parecer apenas um desses hipsters que “gentrifica” a catuaba.

Tudo é tão caricato e forçado, que nem a participação de muita gente muito boa salva. Para ser justo, Leoni é co-autor da única boa canção do disco, “Fingir que Não Dói”. Já a boa letra de “Fica Comigo” (Marcelo Yuka e Thadeu Meneghini) é desperdiçada pelo arranjo vocal pobre. Além deles, estão presentes Edgard Scandurra, Tagore, Nevilton, Marcos Suzano, Samuel Rosa, Lino Krizz, Fábio Golfetti (Violeta de Outono), JC (Gueto) e muitos outros. Tanta gente bacana não conseguiu fazer as vezes de rei Midas aqui.

É um tal de musiquinha rapidinha com synth mal arranjado e pop semiacústico de harmonia descuidada… A exceção a essa “fórmula” é uma anêmica tentativa de funk 70, “E Não Sobrou Ninguém”. Ser exceção não é mérito: quando você chama PJ, baixista do Jota Quest, para tentar fazer um funkão de responsa, já começou errado. Piora quando entra a letra populista, uma depuração nível “militância de redes sociais” para o poema mais famoso de Vladmir Maiakóvski. Aliás, as letras soam, em sua maioria, como se tivessem sido encomendadas para ceder versos que virarão legendas de fotos de Facebook. Em “Carranca”, já gravada pelo Vivendo do Ócio, escuta-se que “tudo vai te matar, melhor morrer de amor”. Sério mesmo? Adalberto Rabelo Filho, autor da maioria delas, entrega coisa muito melhor em sua banda, a brasiliense Judas.

Ah, sim: sobra espaço para repetir o truque da versão em português para um hit originalmente lançado em espanhol. Se no primeiro disco era “Não Sei o que Fazer Comigo” (de “Ya No Sé que Hacer Conmigo”, dos uruguaios El Cuarteto de Nos), aqui é “De Olhos Fechados”, derivada de “Desperté”, dos mexicanos Café Tacuba. Piorou: o que era climático na criação dos Tacubos aqui vira roquinho de banda que toca em missa para jovens.

“Daqui pro Futuro” é um disco que não honra seu título, o talento dos convidados envolvidos ou a música brasileira atual. Se tanto, tem valor como prova documental da cegueira das grandes gravadoras para o segmento pop rock. Decididamente, um dos álbuns mais equivocados dos últimos 10 anos.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

14 thoughts on ““Daqui pro Futuro”, Vespas Mandarinas

  1. Ufa!!!, tenho notado um maior senso critico, pois quase todas as resenhas em sua maioria eram elogiosas, babação de ovo para bandinhas sem nenhum talento, até que enfim uma critica destruidora que há muito tempo não lia, interessante que quando essas bandas de ” Rock”, querem algum tipo de inovação para sair da zona de conforto apelam para o pop e ritmos ” populares “, que mais desprezavam, o resultado e sempre pífio!!!

  2. Não entendi o desmerecimento ao PJ do Jota Quest. O Vespa Mandarinas nunca foi lá grandes coisas, se não fossem os contatos do Chuck talvez nem chegassem a esse disco ruim que lançaram agora, mas o PJ sempre foi respeitadíssimo no mundo do baixo, o cara toca muito.

    1. Tecnicamente, o cara´é bom sim, Cap Troz. Mas tenta levantar um groove matador do Jota Quest? Nem no primeiro disco, que era mais funkão, tem um que faça você dançar na marra.

  3. A resenha diz tudo o que eu pensei. Achei o primeiro disco dos Vespas uma nova era do rock nacional, o cd ao vivo então, sensacional. Só que aí veio esse.

    Vai ver que os outros integrantes da banda saíram por não concordarem com esse álbum. Deviam ter feito um projeto paralelo com outro nome, e mantido o Vespas com a formação original.

    E como foi lembrado aqui nos comentários pelo Fao, tá ali junto com o Sacos Plásticos dos Titãs (e a resenha dele aqui foi outra que muito boa – mas só a resenha)

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