Entrevista: Dropkick Murphys

por Daniel Tavares

Pegue a música tradicional irlandesa, adicione a urgência do punk e, se faltar fermento, você pode incluir um filme com quatro Oscars (“Os Infiltrados”, de Martin Scorsese). Depois de pouco mais de 38 minutos de mistura, o resultado será “11 Short Stories of Pain & Glory”, álbum cujo melhor adjetivo para sua sonoridade é inusitado – e que foi lançado oficialmente na primeira semana de janeiro.

Um dos poucos expoentes do Celtic Punk, a banda Dropkick Murphys, de Quincy, arredores de Boston, Massachussets, nasceu no porão de uma barbearia e recebeu o nome de um centro de habilitação para alcoólatras, o Bellows Farm Sanatorium, mais conhecido como Dr. John “Dropkick” Murphy’s (este, um lutador profissional cujo golpe mais famoso era o dropkick).

Formado por Ken Casey (baixo, tvocais), Matt Kelly (bateria, bodhrán, vocais de apoio), Al Barr (vocais), James Lynch (guitarra, vocais de apoio), Tim Brennan (sanfona, bandolin, bouzouki, teclado, piano, tin whistle, vocais de apoio e guitarra) e Jeff DaRosa (banjo, bandolim, bouzouki, guitarra, teclado, piano, gaita, tin whistle, vocais de apoio) gravou “11 Short Stories of Pain & Glory” em El Paso, no Texas.

Quem atendeu ao telefone foi Matt Kelly que definiu “11 Short Stories of Pain & Glory” como “poderoso”, avisou que não é fã do Pink Floyd e contou sobre a regravação de “You’ll Never Walk Alone”, já gravada por nomes como Frank Sinatra,, Aretha Franklin e Elvis Presley, entre tantos outros. Matt também falou da canção “4-15-13”, sobre as bombas que explodiram na Maratona de Boston, em 2013: “Nós realmente perdemos nossa inocência através deste evento terrível”. Confira a entrevista.

O que você pode nos dizer sobre “11 Short Stories of Pain & Glory”?
É um grande álbum, poderoso, de sonoridade muscular. Acho que é o disco mais simples que fazemos em muito tempo, com uma boa espinha dorsal roqueira atrelado a ele.

“You Will Never Walk Alone” é um hino esportivo, uma música famosa por ser cantada em estádios, principalmente em jogos de futebol do Liverpool, mas não exclusivamente. Esta canção também é ouvida em uma música do Pink Floyd, “Fearless”. Você disse recentemente que escolheu esta música como primeiro single para dar esperança às pessoas viciadas em opiáceos, certo? Você pode falar mais sobre isso e as razões que você teve para cantar esta canção?
Eu não sou um fã do Pink Floyd, então não posso comentar sobre isso, exceto falar que eles devem finalmente ter feito algo escutável (haha)… [N.R. Na verdade, a canção é de 1971, do álbum “Meddle”]. Sobre a música, bem na região de Nova Inglaterra, nos EUA, especialmente na área de Boston, milhares de pessoas são viciadas em OxyContin, oxicodona e outros fármacos opióides ou opiáceos, normalmente prescritos pelos médicos. Eles são altamente viciantes, e também caros. Muitas vezes as pessoas ficam viciadas para eles por causa de uma lesão no trabalho ou esportes, e então, quando acaba a prescrição, eles se voltam para a heroína, que é provavelmente ¼ do custo de OxyContin. A banda foi tocada por esta crise em nossas famílias, amigos e outras pessoas que conhecemos, e nós queríamos uma canção de esperança para aqueles que estão tentando alcançar a sobriedade e uma vida após o vício. A letra se encaixa perfeitamente, e nós sempre admiramos a música simplesmente por ser tão bem escrita.

Outra música no novo álbum é “4-15-13” [N.R. 15 de abril de 2013, no formato de data usado nos Estados Unidos]. Eu li que presta homenagem às vítimas da bomba na Maratona de Boston. O que você poderia nos dizer sobre isso?
Esta é uma canção sobre como as pessoas de Boston, nós realmente perdemos nossa inocência através deste evento terrível. A letra é sobre pessoas comuns de todos os setores da vida que estão se dando bem fazendo o que fazem, quando esse desgraçado e covarde desastre nos atingiu. Sabíamos que tínhamos de escrever uma canção sobre isso, mas tínhamos que ter cuidado para sermos sensíveis às vítimas, vivas e mortas, e não para zombar de um dia tão grave e devastador.

Sobre a música que vocês fazem. É muito original, mas era também uma mistura impensável antes que vocês a fizessem. Quem pensaria que a música celta e o punk rock combinariam bem? Mas combina. Você já pensou que não fosse dar certo?
Sim, certamente não é uma coisa típica! Mas, novamente, grandes bandas como The Clash, Ruts, Specials e Stiff Little Fingers pegaram o punk rock, o reggae e o ska e os misturaram! Isso parece absurdo, mas funciona. Acho que as semelhanças entre as razões para a existência do reggae (pelo menos do estilo roots) e da música folclórica irlandesa são as mesmas: uma válvula de escape da tensão para as pessoas passando por sofrimento. E é só. E funciona! Eu nunca pensei que não iria dar certo. A primeira canção que a banda escreveu, “Barroom Hero”, é um testamento ao fato de que o punk rock e a música irlandesa podem trabalhar bem em conjunto…

Você pode listar suas principais influências de cada lado? Celtic e punk?
Para a música celta, Pogues, Chiftains, Clancy Brothers, Fureys, Bothy Band, Paddy Reilly, Wolfetones, Dick Gaughan, Christy Moore… hummm, de cabeça é isso. Sobre bandas punk… Pogues (novamente), The Clash, Sex Pistols, Macc Lads, The Jam, Stiff Little Fingers, Ramones, Cockney Rejects, Cock Sparrer, 4-Skins, Nipple Erectors (The Nips), Adolescents, Slapshot, Gangreen, Jerry’s Kids, Fu, Freeze… mais, mais e mais.

Existe alguma banda ou estilo que você realmente não gosta, que nunca veríamos nenhum traço em seu som?
Pessoalmente? Música country e hip-hop são bastante terríveis na minha opinião. Eu poderia certamente passar sem ambos os estilos e faria o meu melhor para manter o nosso som livre de ambos.

Vocês são uma banda de seis membros. Normalmente vemos bandas de punk rock com três ou quatro membros. Tendo tantas pessoas na banda, surgem algumas dificuldades. Como vocês fazem para viajar? E os instrumentos que vocês usam para tocar (alguns deles, bodhrán, bouzouki, eu tive até que pesquisar na Wikipedia)… Resumindo, como você lida com tantas pessoas e este material incomum em uma banda de punk rock?
Somos uma banda de seis a sete músicos desde 2000, então nos acostumamos com isso. Realmente não é tão difícil. Poderíamos ser uma banda de ska com mais de dez membros, então seis a sete não é tão ruim. Ao longo dos anos, encontramos instrumentos melhores e mais resistentes para viajar. Muitas vezes, apenas os despachamos no avião, ou os levamos com a gente como bagagem de mão. Eu não viajo com um bodhrán, mas não ele não ocupa tanto espaço a ponto de ser um grande problema se eu o levasse. Musicalmente é apenas o que funciona pra gente, por isso é realmente algo que nos soa quase trivial.

Vocês tiveram uma música na trilha sonora do filme “Os Infiltrados” (2006), de Martin Scorsese, “I’m Shipping Up to Boston”. Você gostou do filme? Você considera que essa música fez vocês e sua música mais conhecidos em todo o mundo?
Achei o filme bom. Certamente foi uma visão caricata hilariante de Boston, embora tivesse uma boa história que muitas pessoas realmente pareceram comprar. De forma alguma foi tão ruim quanto o embaraçoso “Santos Justiceiros [filme de Troy Duffy lançado em 1999]. Certamente fez o público em geral em Boston conscientes de nós. Antes disso estávamos bem mais undergound, então, para melhor ou pior, a banda se tornou um nome familiar aqui. Acho que demorou um pouco mais para que ele tivesse um efeito mundial, combinado com muitos outros fatores.

O que você sabe sobre a música brasileira? Existe algum artista ou banda que você gosta ou até mesmo teve alguma influência em sua música ou em sua vida?
Sou familiarizado apenas com algumas dos anos 80. Bandas Oi!/carecas como Virus 27 e Garotos Podres. E Belfast, com quem tocamos em São Paulo (em 2014).

E vocês pretendem voltar ao Brasil?
Sim, acho que estamos tentando organizar mais turnês sul-americanas para este outono ou próxima primavera. A todos os nossos fãs: nós apreciamos 100% o seu apoio e sabemos que não seríamos nada sem os nossos leais fãs. Vocês nos deram dois shows incríveis na última vez que tocamos em seu belo país, e mal podemos esperar para voltar!

– Daniel Tavares (Facebook) é jornalista e mora em Fortaleza.

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