Três perguntas: Teto Preto

por Renan Guerra

Música eletrônica sempre foi um terreno de outsiders na música nacional. Deep house, techno, trance e todos os subgêneros quase nunca se misturaram com samba, MPB e outras coisitas desse tipo. Também pouca gente se aventurou nessas misturas: DJ Zé Pedro nos anos 90/2000, o pessoal do Drum ‘n’ Bossa na virada do milênio e, por estes tempos, o Boss In Drama soltou um remixes de gente como Bethânia e Elis Regina. Porém, diferente disso tudo, a Teto Preto, em definição própria “live jam eletrônico-orgânica”, visa ir bem além do mero “misturar de gêneros”: eles buscam essa procriação de novos campos, experimentações lúdicas entre eletronicidades e brasilidades no que a banda define como “gatilho de escurecer a visão / estado físico que precede o desmaio”.

Para além das definições poéticas, Teto Preto é a jam residente da Mamba Negra, festa de música eletrônica que há três anos ferve por São Paulo e é organizada por Carol Schutzer (aka Cashu) e Laura Diaz (aka Carneosso), esta última a dona da voz e das composições do Teto Preto. Dando seguimento aos projetos da Mamba, as meninas lançaram em 2016 a MambaRec, gravadora que visa dar vazão às experimentações ensaiadas nas noites de São Paulo, tendo como ideário a expansão dessa experiência coletiva para além do espaço da festa.

A ideia é que a MambaRec lance outros projetos ainda este ano. Segundo Laura, “o selo reúne produtores importantes para a nossa história e que também tem conseguido dialogar com vários espaços e festas no país como: Benjamin Sallum, Save the Cosmos, Carrot Green e outros projetos que a galera viu na Mamba. Ainda para esse ano, o MN02 traz Alexandre Silveira, conhecido por EXZ_, mas preferimos deixar as novidades para o futuro”. De qualquer forma, esses lançamentos concretizam-se agora, após um ano de esforço das meninas para a captação de recursos e produção desses lançamentos. No caso do Teto Preto, a gravação de seu primeiro EP, “Gasolina”, aconteceu em novembro de 2015, nos estúdios da Red Bull, em São Paulo. O lançamento traz a faixa-título original e uma releitura de Itamar Assumpção (que, em sua sanha concretista, parece ter sido feita especialmente para os loops eletrônicos).

Atualmente, a Teto Preto se apresenta com a formação base de L_cio (drummachines), Zopelar (synths), Carneosso (voz / composição) e Bica (percussão / trombone), tendo recebido músicos convidados como: Filipe Massumi (violoncelo), Carrot Green (contrabaixo), e Gaivota Naves (voz) em performances ao vivo. No bate papo abaixo, Laura, isto é, a Carneosso, sobre o processo de produção e lançamento da banda. Confira!

O Teto Preto surgiu a partir da festa Mamba Negra e agora como o primeiro lançamento da Mamba Rec, então você acredita que ela é um filho natural desses encontros?
A Mamba nasce em maio de 2013. A nossa história começa desde 2009, pelo menos, num momento de efervescência cultural e politica no centro de São Paulo. A música eletrônica ganha força na cena underground fora do clube e nós nos conhecemos trabalhando para criar esse contexto de festas de rua, em locações degradadas, festivais autogeridos, ocupações estudantis, artísticas e de moradia. Nos reunimos para explorar uma vertente marginal ao hedonismo tropical, algo mais denso, debochado, ácido e envolvente. Em 2014, nos aproximamos dos meninos do Gaturamo. A Laura (Carneosso) já conhecia o Bica de outras bandas. Em novembro daquele ano fizemos a Mamba na Boca, chamamos o L_cio e fiz o convite de cantar uns improvisos no set dele. Como quem não quer nada, chamei o Bica também para ganhar umas cervejas e levar as congas, cuíca e trombone para nos apertarmos no L’Amour às 5 da manhã e fazermos essa jam session. Um mês depois o Zop colou junto e já éramos o Teto Preto.

Vocês, tanto no Teto Preto, quanto nos outros projetos nascidos da Mamba Negra, trabalham com toda uma estética estilizada, com grafias e fontes distintas, bem como uma produção visual cuidadosa. A força estética do grupo é uma base fundamental para vocês? Quais são as principais referências que movem vocês nesse sentido?
A comunicação visual da festa é essencial para expressar nosso conteúdo artístico. Esse universo foi construído com o Estúdio Margem (Alexandre Lindenberg e Nathália Cury), responsável pela identidade e arte da Mamba. A identidade da MambaRec, por sua vez, é assinada pelo Margem em parceria com Ilana Tschiptchin. O nosso ponto de partida são as restrições: debochamos das dificuldades políticas, burocráticas e legalistas que enfrentamos para criar a cena e produzir. A partir disso, antropofagizamos o inimigo, devolvemos seu gêmeo negro, ácido, viral. A falta de recursos é recurso estético: uma produção rápida, com imagens em baixa qualidade, reticuladas, em alto contraste, impressão em uma cor só, em papel fino para ser lambido pela cidade. Os glitchs e a helvética “violentada” são nossa síntese de dislexia. O conteúdo é cifrado, contra a representação: pela criação de estímulos e provocações visuais em estado de obra aberta. Grande parte do imaginário desse universo é transposto também ao trabalho de luz e ambiência com o LABLuxz_ (Paulinho Fluxus e Diogo Terra). Com a MambaRec agora ganhamos uma nova plataforma de expressão de conteúdo através dos vinis, músicas online e videoclipes que conseguem reunir e disseminar o trabalho de todos esses parceiros.

Muitas vezes já se ouviu dizer que a língua portuguesa não “casa” com a música eletrônica, porém o rolê de vocês é claramente romper com isso, inclusive trazendo uma releitura do Itamar Assumpção. Você percebe que essa ruptura é importante para que a cena eletrônica se conecte mais com manifestações nacionais que super se engendram nessa onda?
Itamar Assumpção é uma grande influência direta e indireta. Conheci Denise, atriz e cantora, no Teatro Oficina, ano passado. Ela é uma grande inspiração e foi figura crucial no nosso contato com a família do Nego Dito. O que o Teto faz é importante por ser brazyleiro, sem ser caricato. Não estamos fazendo nada de vanguardista e nem temos essa pretensão. Ainda lavramos a canção, que se desdobra em catarse, mantra, improviso e colagem. Temos influências do eletrônico, deep, house, techno, eletro como também do jazz, krautrock, maracatu, samba, Tropicália, Poesia Concreta e Cinema Novo. Estamos encarando, sem a soberba da grande MPB, os synths e máquinas como nossos instrumentos, lembrando que muitos outros antes de nós já iniciaram essa guerrilha há décadas. A direita reacionária tem suas datas comemorativas e feriados fantasmagóricos. Nós temos nossos rytos e espaços de luta, ainda que simbólica, por liberdade. É o eletrônico antropofagisado e devolvido a pista como ritual coletivo performático.

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Bate a Fita

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