DeFalla ao vivo no Sesc Pompeia

Textos por Marcelo Costa
Fotos por Liliane Callegari

Uma das bandas mais instigantes do rock nacional nos anos 80, o DeFalla sempre sofreu com a síndrome de estar muito à frente de seu tempo, conectada com o que grandes bandas gringas vinham fazendo no mesmo período (como RHCP e Faith no More), mas sem uma unha da admiração e sucesso que elas viriam a ter na virada da década de 80 para os 90. Com uma carreira errática, o DeFalla começou pós punk noise funk nos dois clássicos primeiros discos e, dai em diante, gravou hard rock, thrash metal, funk, fake top hits, Miami popuzada rock’n’roll e, em 2016, anuncia o lançamento de seu nono álbum, “Monstro”, e de uma nova fase na história da banda.

Para a nova empreitada, a formação embrionária do DeFalla, que marcou presença na histórica coletânea gaúcha “Rock Grande do Sul” (1986), com Edu K (então na guitarra e vocais), Biba Meira (bateria) e Carlo Pianta (baixo) encontra a formação clássica via Castor Daudt, que gravou guitarras nos dois primeiros icônicos discos do grupo (“Papaparty”, 1987; e “It’s Fuckin’ Borin’ to Death”, 1988, já com Flu no lugar de Carlo) e partiu para a bateria gravando os álbuns “Screw You!” (ao vivo de 1989), “We Give a Shit! (Kickin’ Ass for Fun)” (1990), “Kingzobullshitbackinfulleffect92” (1992) e “D.Fhala Top Hits” (1995), esse sem Edu K, que remontaria a banda nos anos 2000 (sem Castor e Biba).

O ensaio para volta começou em 2011, quando o DeFalla (ainda com o baixista Flu, também da formação “clássica”) circulou em festivais e chegou a tentar um crowdfunding para bancar o que viria a ser “Monstro”, um disco que se conecta com “Kingzobullshitbackinfulleffect92”, e tem a manha de soar tanto empolgante quanto extremamente (e estranhamente) correto para os padrões caóticos erigidos pela banda nos últimos 30 anos. A nova formação (Edu K, Biba, Castor e Carlo) gravou 57 minutos de rock funk pós psicodélico terror inspirados em Zé do Caixão e Mário Bortolotto, que assina a letra da faixa título (e influencia o conceito do disco).

O primeiro grande teste ao vivo da nova formação aconteceu no Sesc Pompeia, em São Paulo, com uma plateia que dá certa noção da importância do DeFalla ao reunir integrantes do Pin Ups, Inocentes, Mickey Junkies, La Carne, Mamelo Sound System, Clube do Balanço mais Kiko Zambianchi, Edgard Piccoli, o amigo e parceiro Carlos Eduardo Miranda e Mário Bortolotto além de ex-participantes do reality show A Fazenda. No palco, o quarteto abriu a noite com a insinuante faixa título do novo álbum (“Passo creme nas espinhas, me masturbo na cozinha, eu sou um monstro de timidez”, canta Edu) emendada em uma grande versão de “Sodomia”, clássico da primeira fase adaptado à sonoridade do novo disco.

A disposição do palco, com a bateria na linha de frente disputando a atenção com os demais integrantes, busca mostrar que todo mundo no DeFalla é importante, mas, nessa noite, as pancadas de Biba Meira infelizmente ficam em segundo plano, soando um pouco mais baixa que os demais instrumentos, e prejudicando uma sonoridade que necessita de força para pegar o espectador pela gola e faze-lo chacoalhar. “Zen Frankenstein”, primeiro single e clipe do novo álbum, vem na sequencia, com o bass hero Carlo Pianta dando um show particular enquanto Edu K, rindo controladamente no microfone, tenta inibir sua tendência ao caos.

“Agora vamos tocar ‘Infinita Highway’”, finalmente ele zoa, tentando se corrigir na sequencia: “As nossas novas ordens espirituais não me permitem ser sarcástico… mas se alguém quiser chupar o meu pau depois do show, tudo bem”. Surge então a nova “Dez Mil Vezes”, uma ótima faixa pop que no álbum conta com a participação surpreendente de… Humberto Gessinger, até então um desafeto histórico da banda (há uma sarcástica citação da versão dos Engenheiros para “Era um Garoto” na abertura de “We Give a Shit! (Kickin’ Ass for Fun)”). Ao final da canção, Edu não perde a chance para zoar: “Ei, Miranda, fizemos uma canção Kleiton e Kledir”…

O clima do show é funkeado e ao repertório de novas canções (“Fruit Punch Tears”, “Timothy Leary”, “Ken Kesey”, “Veneno”) unem-se ótimas versões de “Sossego” e “Satisfaction” (presentes em “Kingzobullshitbackinfulleffect92”) mais a grandiosa “Repelente”, com citação de “Caminha (Q Aqui é de Osasco)”, uma das ausências mais sentidas no set. Edu ironiza (“Participar de A Fazenda me tornou uma pessoa melhor”) e gargalha na introdução de “Sobre Amanhã” (outro clássico do primeiro disco) para, ao final, confessar: “Durante muito tempo fiz pouco caso dessas canções, mas hoje respeitamos demais essas músicas, porque sabemos o quanto vocês gostam delas”. E o riff cortante de “Não Me Mande Flores”, uma das melhores músicas do DeFalla (show à parte de Biba) fatia a atmosfera do Sesc Pompeia, seguida de “It’s Fucking Boring to Death”, outro clássico.

O trecho final traz mais um bloco de canções novas (“Delírios De Um Anormal” e “Love Is For Losers”) com o quarteto encerrando a noite com a noise “Mate-Me”. Na volta para o bis, Carlo brinca: “Não peçam músicas que esse pode se transformar no primeiro e último show dessa formação”. A banda, então, reprisa “Zen Frankenstein”, tornando explicito o que disco e show, até então, insinuavam: o DeFalla voltou para tentar transformar todo o reconhecimento cult de três décadas em sucesso (seja lá o que isso signifique em 2016). Com uma postura mais séria e respeitosa com as canções e o público (se era isso que o público esperava são outros quinhentos), o quarteto deu start a uma nova fase num bom show de redescoberta de química, que tende a se azeitar conforme as apresentações forem se sucedendo. Ou seja: não perca de maneira alguma esse “Monstro” se ele passar pela sua frente.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Fotos: Liliane Callegari (@licallegari). Confira a galeria completa de fotos aqui

Leia também:
– Castor Daunt: “O mundo precisa de um novo álbum do DeFalla, não acha?” (aqui)
– DeFalla ao vivo no Festival SeRasgum 2011 (aqui) e na Virada Cultural 2012 (aqui)
– O primeiro disco do DeFalla e outras nove pérolas raras do rock nacional (aqui)

MAIS SOBRE MÚSICA, ENTREVISTAS E REVIEWS NO SCREAM & YELL

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.