2016: Cinco discos para prestar atenção

por Marcelo Costa

Os artistas que estão na grande mídia são fáceis de encontrar: as músicas tocam em rádios, televisão, talkshows, festivais e tudo mais (que o jabá possa pagar), quase sempre de forma onipresente fazendo com que o ouvinte se acostume e até passe a gostar de algo que, provavelmente, passaria batido sem esse exercício de exposição massiva do marketing cultural, que convence muita gente de que é preciso ouvir para se sentir parte de algo, afastar a solidão e integrar uma “tribo” (mas não basta ouvir, é preciso “curtir”).

Nas margens deste universo cultural em constante expansão, muitos seguem fazendo trabalhos excelentes, por amor, vício ou mesmo tentativa de agregar-se, dar um salto no escuro e, quem sabe, galgar os mesmos espaços que as decantadas estrelas frequentam – e não há nenhuma culpa no desejo, pelo contrário, mas sim na forma de realiza-lo, o que é assunto para outro dia). Seja no Brasil, Portugal ou na América Latina, grandes discos continuam chegando aos ouvidos e, por isso, selecionamos cinco álbuns de 2016 que merecem atenção.

“Outras Histórias”, Deolinda (Portugal)
Eles não são apenas um dos nomes mais interessantes da interessantíssima nova música portuguesa, mas, diria eu, um dos melhores nomes da música cantada em português – e, ainda que praticamente inexistentes no Brasil, são enormes na terra de Cristiano Ronaldo. Lançado em fevereiro, “Outras Histórias” é o quarto álbum da banda, e é uma sutil pisada no freio em relação aos três trabalhos anteriores, soando mais intimista e reflexivo, o que pode estranhar quem conheceu a banda através de faixas vigorosas como “Um Contra o Outro” e “Movimento Perpétuo Associativo”, mas que, no final, conquista o ouvinte. Ouça com calma prestando atenção as letras.

“Rei Vadio”, Romulo Fróes (Brasil)
O músico paulistano sempre declarou sua paixão pelo cancioneiro de Nelson Cavaquinho e “Rei Vadio”, lançado pelo Selo Sesc, é o fruto desse amor: são 14 canções do lendário Nelson Antônio da Silva transpostas para o habitat de Romulo, que entorta ainda mais o que já era samba torto no original. Acompanhado dos amigos do Passo Torto mais Juliana Perdigão e o grande guitarrista Guilherme Held, entre outros, Romulo homenageia Nelson Cavaquinho num disco que cabe perfeitamente em sua discografia. Ouça aqui. Conselho: deixe “Juízo Final” no repeat por uma hora.

“El Folk de la Frontera”, Molina y Los Cósmicos (Uruguai)
Após uma belíssima estreia com “El Desencanto” (2014), Nicolás Molina retorna com o grupo Los Cósmicos num disco que soa ainda mais folk da fronteira que o antecessor, característica emocionante e absolutamente necessária no mundo atual, repleto de artistas que soam dolorosamente iguais. Aprofundando seu “terroir” no choque com influências mundiais, “El Folk de la Frontera” alcança um sonoridade personal / atemporal e transporta o ouvinte para outro universo, ainda que os temas sejam universais. Um belo disco que também pede calma. Ouça aqui.

“Nas Estâncias De Dzyan”, Juliano Gauche (Brasil)
Segundo disco solo de Juliano, “Nas Estâncias De Dzyan” não rompe com a sonoridade do excelente álbum de estreia, “Juliano Gauche” (2013), muito pelo contrário, soa uma sequencia natural desde a manutenção da dupla de colaboradores produtores Tatá Aeroplano e Junior Boca tanto quanto a inspiração setentista rock brasileira enquanto busca investigar o lugar do indivíduo no mundo moderno. Destaques para a faixa título, que abre o álbum, a deliciosa“Muito Esquisito” (que namora Reginaldo Rossi) e bela letra de “1,99”. Ouça na integra abaixo ou faça o download gratuito aqui.

“Sirumba”, Linda Martini (Portugal)
Vai longe o tempo que em que este excelente quarteto noise lisboeta era apresentado como uma das cult bands mais interessantes de seu país, afinal “Sirumba”, quarto álbum que chega às lojas físicas (portuguesas) e onlines no primeiro dia de abril, terá como palco de lançamento o mítico Coliseu dos Recreios, em Lisboa, inaugurado em 1890 e com capacidade para quase 3 mil pessoas. O primeiro single do álbum é este abaixo, “Unicórnio De Sta. Engrácia”, que prova que o grupo não cedeu para alcançar o primeiro escalão do rock português. Ouça alto!

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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