Entrevista: Karine Alexandrino

entrevista por Marcelo Costa

Karine Alexandrino está de volta! São 14 anos desde a estreia com “Solteira Producta” (2002) e 12 desde o segundo álbum, o elogiado “Querem Acabar Comigo, Roberto” (2004), que formam com o recém-lançado “Mulher Tombada” uma trilogia de dúvidas e dores. “Os personagens do primeiro álbum voltam assumindo outras posturas numa continuidade própria da vida que segue”, conta Karine em entrevista ao Scream & Yell.

Novamente escudada por Dustan Gallas, que assina 13 das 14 canções do álbum em parceria com ela (a exceção é “Devaneios”, de Luis Gardey e Erasmo Carlos, um enorme sucesso radiofônico na voz de Julio Iglesias), Karine Alexandrino se mostra focada deixando de lado a polêmica com Karol Conka (que lançou “Tombei”) e pensando adiante, já em busca de novos parceiros e planejando exposição, livro e “muitos vídeos”.

No bate papo abaixo, Karine diz que se assume feminista, ainda que empiricamente (“Não estudei nem a metade do que as grandes feministas estudaram”) e conta que quer se curar de todos os ressentimentos. Explica que no longo tempo de silêncio discográfico empenhou-se na criação de seu filho, e que “a hora de voltar voltou. Estou aqui pronta para o trabalho de operária da música, da arte e da fruição e aprendizado”. Abaixo, o bate papo e um faixa a faixa assinado por José Augusto Lemos, editor-chefe e diretor da revista Bizz entre 1985-1994.

Karine, sentimos sua falta! Por que tanto tempo sem lançar material novo?
Sentiram? Fico feliz de certa forma. Eu passei um bom tempo pra terminar o disco. Algumas dificuldades chamadas Vida (rs). Eu me empenhei na criação dos primeiros anos do meu filho com exclusividade até que ele aprendesse a ler. Durante esse período fiz alguns shows e fui compondo no meu tempo. Como não tive obrigação mercadológica (gravadora, etc) quis respeitar o que chamo de “momento certo”. Tinha de ser esse tempo mesmo. Estava maturando tudo. Inclusive minha vida pessoal. E acho que tenho que lançar álbum quando sinto necessidade de me expressar. A hora de voltar voltou. Estou aqui pronta para o trabalho de operária da música, da arte e da fruição e aprendizado.

O que é “Mulher Tombada’? Rolou uma polêmica com a cantora Karol Conka, né. O que aconteceu?
Mulher Tombada é uma performance que criei desde o início dos 2000. É uma mulher com muitas nuances e histórias de vida. Ora tristes, ora alegres. Sobre essa polêmica, fãs apareceram do Brasil inteiro (mesmo no meu período sabático nunca me abandonaram, sempre tive o meu inbox do facebook e e-mails cheios de reinvindicações de shows e pedidos pra eu voltar), então eu comecei a achar que eles poderiam ter razão. Era muita gente reclamando que havia uma apropriação sem citar a fonte. Eu fui no embalo por eles. Hoje isso é passado. Não me importo, nem tenho medo dessas coisas. Meu álbum novo fortalece minha criação da Mulher Tombada. Um álbum que passou uns 8 anos pra ser terminado. É autobiográfico e há uma história com muita subjetividade. Isso o torna forte. As pessoas ouviram, estão ouvindo, vão ouvir e percebem que há uma verdade ali. Como na música que resume o sentimento do disco: “Se Não For Sincero, Não Quero”.

Como “Mulher Tombada” se relaciona com os dois álbuns anteriores? Podemos chamar de trilogia?
Sim. Está tudo conectado. É um álbum muito humano, conta histórias de pessoas e suas dúvidas e dores. Os personagens do primeiro álbum de 2002 (“Solteira Producta”) voltam assumindo outras posturas numa continuidade própria da vida que segue. Há muitos sentimentos reincidentes que dão uma coerência. Seria legal se as pessoas que gostam do trabalho ouvissem os três. Recebo muito feed back de fãs com os três discos nas minhas redes. Eles consideram uma obra fechada mesmo. Eles entenderam.

Dustan Gallas é um grande parceiro e está bastante envolvido com seu trabalho. Como funciona a parceria de vocês?
A nossa parceria é algo de uma sintonia assustadora. Ele é um excelente produtor. Considero o Dustan o maior de todos. Ele é o ideal pra mim. Mas terminamos nossa parceria com o “Mulher Tombada”. Estou em busca de outras conexões que me agradem. Não gosto apenas de músico que saiba tocar. Ele deve ter algo mais. Estou procurando e vou achar. Já tenho letras pro próximo disco. O primordial pra mim é que este músico que ainda não conheci seja multi-instrumentista. A vida vai me mostrar outro. A vida me dá presentes (rs).

Entre “Solteira Producta” (2002) e “Mulher Tombada” (2016) muita coisa avançou nas discussões de gênero e de feminismo. Você se considera feminista? Como você esse momento?
Eu me considero feminina e sinto em mim todas as dores das milenares injustiças históricas. Sou feminista de uma maneira diferente. Me sinto muito empírica porque não estudei nem a metade do que as grandes feministas como a Marcia Tiburi e outras estudaram. Quero me curar de todos os ressentimentos. Eu gosto dos homens e procuro os mais evoluídos. Sou solidária a todas as mulheres porque tenho empatia. Eu estou sempre disposta a lutar pela nossa causa de libertação. E sou contra o aumento dos deveres na vida das mulheres. O machismo continua. O machismo é um verme profundo soterrado nas entranhas dos homens e de algumas mulheres que estão sofrendo da mesma doença.

Qual será a formação da banda que irá te acompanhar nestes shows? O que o público pode esperar?
Dois multi-instrumentistas de muita personalidade. O Fabricio Carvalho (Astronauta Pinguim) e Felipe Faraco. Ofereço uma performance calorosa. Eu me entrego de corpo e alma. Eu faço meu trabalho pra valer. Como sempre digo: eu boto pra tombar. E com a ajuda de excelentes músicos, tudo fica mais tranquilo. Comigo não tem meio termo. É natural. Eu nasci pra estar num palco cantando os versos que escrevo. Eu ofereço minha verdade, usando minha voz e corpo como meios.

Disco nas lojas, show na estrada: o que vem de novo por ai? Quais os planos de Karine Alexandrino?
Uma exposição autobiográfica da “Mulher Tombada”, muitos vídeos e meu primeiro livro. E trabalhar, trabalhar, trabalhar muito. Até o fim (rs).

faixa a faixa por José Augusto Lemos

“Duchamp Não Passa”
Ribombante míssil dirigido sem misericórdia às pistas de dança. Sua batida rock-guitarreira lembra os melhores momentos do T. Rex; e a letra, em inspirado trocadilho, coloca o papa da arte de vanguarda como sua base e sustentação: o próprio chão onde a estrela pisa altaneira, impedindo-a de cair nos esgotos da baixaria. Atenção para os deliciosos “ais” e “uis”.

“Amor na Estrada (Quero Sair Dessa Bolha Maldita)”
Acidente automobilístico à beira-mar mergulha no precipício das dores de amor. A corda bamba sob o abismo das angústias é tecida pelas lânguidas baladas shanga-langa dos anos 50; e sobre ela a menina estende brilhante poema convoluto em busca de ar e sobrevivência. Adoro como sua mera entonação da palavra “bandida” leva a canção para totalmente outra direção. Isso é cantar, não apenas ter uma voz afinada.

“Se Não For Certo, Não Quero”
Estalidos estéreo de pipoca tecno-pópica anunciam aquela que é provavelmente a mais bela de todas as obras-primas compostas até hoje por Karine. Você escolhe: serve tanto para chacoalhar até lustrar o assoalho do salão de baile, como para ouvir em posição fetal no sofá da sala, abraçado a uma almofada, pensando na pessoa amada. Quando a gente pensa que já fizeram todas as canções de amor que realmente importam, aparece uma coisa dessas! Perspicaz cartógrafa do território afetivo-sexual, a poeta escancara qual é a sua: amar entregue por inteiro, sem manipulação, nem guerra de nervos, com reciprocidade e transparência. Se os “tchu-ru-rus” e “sha-lá-lás” não te levarem ao céu, você está morto.

“Assim Vamos Chegar no Japão”
Orquestra de cordas hollywoodiana desemboca em arroubo bossa nova lounge-exportação (alô, Walter Wanderley!). Suspiros e gemidos irresistíveis apimentam o balanço gostoso, sexy de doer. Contraposta a um cafajeste amante mandão, a gata mostra suas garras em versos como: “O único paraíso possível para mim seria, querido, outro corpo agora”, ao passo que sua voz esvoaçante rodeia a Terra feito satélite do amor.

“Troglodita Predileto”
O momento mais descabelado, sobre sacolejão electro-dançante pulsando com a atitude de um gorila lutando para estraçalhar a jaula. Cheia de autoridade (nos dois sentidos!), Karine debocha de todos os estereótipos machistas; e nos deixa — nós homens — com certo pesar. Será que, conforme a letra sugere, a mulher latino-americana só encontra duas alternativas de macho: ou um troglodita; ou alguém com aquela sensibilidade que faz a poeta cantar que “sem amigo gay, ninguém evolui”???

“Sociedade Alternativa”
Não é cover de Raul! A dama dos penteados bufantes tem o topete, isso sim, de apresentar sua própria utopia contracultural, sem emprestar nada de ninguém… embora o órgão (de fole?) na abertura evoque os Beatles de “Fool on the Hill”. A partir daí, temos embalado iê-iê-ê tropicálio-mutante, florido em guitarra radiante e contrabaixo corpulento gastando os trastes; encabeçado por supremo girl group de uma cantora só, desconstruindo mais uma vez o testosterona. Phil Spector iria adorar! Mais legal ainda quando, a um terço do final, a saltitante canção engata outra marcha para ficar ainda mais dançante.

“Mulher Tombada”

Conceito que pede para ser decifrado por mentes curiosas, em vez de interpretado no reducionismo de uma “mulher caída”. Filosófica sem delonga, a garota pós-papo-firme ecoa aqui aquela outra mina cantada por Mr. Dylan em “Love Minus Zero/No Limit”: “Meu amor fala suavemente/Ela sabe que não há sucesso como o fracasso/e que o fracasso não é nenhum sucesso”. Os “idiotas da objetividade”, como dizia Nelson Rodrigues (com quem Karine partilha certa esfera literária), dificilmente irão entender por que o fracasso vale mais a pena do que o sucesso. Quem, porém, enxergar neste manifesto a convicção de que antes a ruína do que qualquer concessão à mediocridade, se tornará solidário na torcida para que Producta-Perdicta levante, sacuda a poeira e dê a volta por cima. Ah! Também é altamente tecno-dançante, guitarrinha funky patinando sobre beat agalopado. P.S. — Interessante como os versos “a eterna luta entre o salto alto e a escada/entre o sucesso e o fracasso/não é pra mim” anteciparam recente polêmica no tapete vermelho do festival de Cannes!!!

“Devaneios”
Depois de Morris Albert e Domenico de Mugno, só faltava mesmo atacar Julio Iglesias! Linda demais a versão, a começar pela bacanuda metamorfose do bolero em batuque tribal ao estilo Banshees/Joy Division/Bunnymen. Sussurrante caliente ao pé do ouvido, a cantora dá show à parte. Aos casais apaixonados, só resta dançar de rostinho colado. Também me agrada sobremaneira ser esta a única cover do disco, porque Karine tem mais é que nos brindar com o maior número possível de composições suas.

“Exame de Voltas”
Inacreditável como a garota sapeca, num astral Alice às maravilhas ou Dorothy no reino de Oz, não pára de tirar um coelho atrás do outro de sua cartola forrada de melodias pop, ganchos classudos e encantos mil. Gostosérrimo balanço sinuoso chega para curar qualquer travação nos quadris, enquanto a cascata de arpejos simula odisseias no espaço. Não entendo quase nada do trecho em inglês que ela canta no final, mas ostenta tanto charme que coloca a canção como mais uma séria candidata às paradas de sucesso.

“Cabaret Producta”
Introspectivo épico de seis minutos compõe o último episódio na saga da fêmea embalada para consumo. Vocalise esparramado em technicolor-cinemascope varre o deserto até a câmera entrar pela janela do aposento de Producta, quebrando seu espelho e procurando seus sonhos embaixo da cama… até tudo, de repente, explodir em interlúdio de furor uterino com sonoplastia de cinema erótico japonês. Pena Bob Fosse não estar vivo para dirigir o videoclipe!

“Rádio AM (Amor de Telemarketing)”
Arrepia, derrete e disputa com “Se Não For Certo…” o título de momento máximo na carreira de Karine. O título não está equivocado: se tem uma música radiofônica da cabeça aos pés é esta aqui, na cadência romântica de uma jovem-guarda remota com órgão de churrascaria, guitarras ultra-supimpas de Dustan e inesperada entrada no rock de arena. Incrível: até a praga do telemarketing a marota alquimista consegue transmutar em doçura das mais amorosas. Não é pequena a façanha! Atenção para o específico sotaque nordestino (característico, segundo ela, de Recife e do Cariri), ingrediente especialmente irresistível deste manjar de coco com calda de ameixa preta em forma de canção.

“O Bebê de Zelda”
Opa! Olhaí o fumegante naipe de metais da Motown, casando com o rock inglês dos anos 60 pelas mãos do comandante Gallas. Não surpreende reencontrarmos aqui o fantasma que assombra Alexandrino desde priscas eras, já homenageado em seu disco de estreia. Se não estou enganado, deve ser este o protótipo de todas as “tombadas”: Zelda Fitzgerald, linda e talentosa escritora-pintora que seu marido Scott chamou de “a melindrosa original”; definidora, portanto, do estilosíssimo visual envergado pelas mulheres emancipadas nos anos 1920. Talento e beleza que, no entanto, desceram pelo ralo: sua obra literária ofuscada pela do marido, com ambos os cônjuges mergulhados no poço do alcoolismo. Interessante como este novo tributo de Karine a ela se distingue, com forte imponência, da personalidade quebradiça de Zelda. Mas Zelda teve um bebê? Teve sim: a jornalista e escritora Frances Scott Fitzgerald.

“Meu Nome É Igual”
Funkão da pesada para levantar a mais desanimada das festas sacode cenas de um matrimônio fracassado. Enquanto a casada-producta pondera se fica ou vai embora, despencam do céu varais carregados de anzóis pop para fisgar os incautos. Outro detalhe atraente: a abertura viajandona (ecos de Rita & seus Mutantes?) fica mais legal ainda quando reaparece no meio da canção.

“Reclame no Avião”
Batida tecnotrônica conta o tempo feito bumbo-relógio. Palavras de ordem intercalam-se a cantiga de ninar. Teclados disparam enxame de abelhas em zigue-zague, quando não espoucam em código-morse. Quem está no avião? Vai reclamar de quê? Põe na conta dos mistérios de Karine. O que percebemos é que o adeus está no ar… e que ela prefere nos fazer passar por suas experiências do que ser decifrada.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.
– Fotos de Nicolas Gondim / Divulgação
– José Augusto Lemos foi editor-chefe e diretor da revista Bizz entre 1985-1994.

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