Love, comédia e expectativas

por Manoel Magalhães

Não sei dizer como fui parar em “Love”. Ou sei, Netflix avisou no mailing. Comédia escrita e produzida por Judd Apatow, autor/produtor/diretor que vai de “Ligeiramente Grávidos” à “Girls” no rascunho de um novo imaginário jovem, meio emulando John Hughes nos filmes, meio esboçando representações mais realistas na série da HBO, “Love” parece apontar um caminho interessante.

O desencontro constante dos protagonistas, que retrata a atual confusão de expectativas nos relacionamentos pós-digitais, e principalmente a personagem de Gillian Jacobs (Mickey, a garota assumidamente perdida, hedonista e adicta), evitam que a série confirme alguns clichês da comédia romântica no desenrolar da trama, abrindo a possibilidade de uma leitura mais humana para um produto de comédia sobre jovens adultos. Ainda que Paul Rust (que interpreta Gus, o nerd caricato que forma com Mickey o casal-tema de “Love”) seja uma espécie de Lena Dunham para a série, cheio de exageros em um personagem inconveniente.

Comédias para a TV são sínteses de comportamentos. E sínteses desumanizam personagens. Mesmo com diferenças de formato, seja em “Friends”, “How I Met Your Mother”, “New Girl” ou “Community”, essas pessoas-símbolo não representam processos existenciais próximos aos do cotidiano de fato. A tradição desse tipo de comédia para a TV cria um padrão reducionista para os relacionamentos humanos, deixando tudo com um verniz falso, e projeta no inconsciente expectativas muito distantes da realidade dos envolvimentos afetivos, do mundo do trabalho ou de qualquer questão existencial um pouco mais complexa.

Esses produtos reforçam que precisamos manter uma rede de amigos muito próximos (conceito que “Love” parece ironizar quando Mickey vasculha o perfil de Gus no Facebook, invejando suas dezenas de fotos com os melhores amigos), buscar empregos que sejam a definição do que somos (Mickey e Gus não gostam de seus trabalhos, mesmo que seus amigos digam que são empregos ótimos) e encontrar amores que nos completem, feitos de um arco narrativo instigante e que quase invariavelmente acabem em final feliz. Rachel e Ross em “Friends”, Ted e Robin em “How I Met Your Mother”. Vocês conhecem essa história.

“Girls” já é uma série muito mais próxima de “Love”. As dinâmicas mudam, as paixões também, o egoísmo e o fracasso estão mais expostos, mas o excesso de personagens e o foco exagerado nos sentimentos de Hannah (protagonista interpretada por Lena Dunham) permitem leituras mais rasas. Talvez essa mudança de padrão encontrada em “Girls” e “Love” seja também só um sintoma do nosso tempo, com o esgotamento de um modelo de filmes e séries de comédia sobre pessoas de plástico. Ou um período de questionamento do papel da comédia para além do riso.

“Love” começa não convencendo. O primeiro episódio basicamente não precisaria existir. O momento em que casal se conhece em uma loja de conveniências (final do primeiro episódio, início do segundo) é o início da série de fato. A contextualização dos relacionamentos anteriores dos dois pouco acrescenta à narrativa e poderia ter sido feita aos poucos. Gus e Mickey são o que são e cedem muito pouco, e “Love” talvez seja o começo de uma boa série por sublinhar isso. Mesmo com os registros do passado, agimos nos relacionamentos de acordo com nossas personalidades. E as expectativas dos relacionamentos mascaram essas personalidades durante um bom tempo.

A história do casal é uma boa alegoria sobre a falibilidade dessas máscaras. Tanto Gus quando Mickey conseguem esconder muito pouco o que realmente pensam, o que só aumenta a frustração dos dois o tempo todo. Tentamos aceitar ou reverter a personalidade do outro quando amamos? Até quando isso está diretamente ligado às expectativas que criamos imaginando um relacionamento feliz? É realmente fruto da imaturidade não mudar? São perguntas que qualquer série sobre amor deveria tentar discutir sem julgar. Seja ela de comédia ou não. Seria um serviço à maturidade emocional.

Como comédia estritamente, “Love” funciona. Algumas cenas são realmente bem escritas e engraçadas, como a da bad trip de Mickey com raízes de sassafras no metrô de Los Angeles ou a em que Gus finalmente demonstra alguma virilidade e mata os insetos que Mickey aprisiona por medo em copos descartáveis. Uma boa e irônica preliminar para o sexo entre os dois.
A série é cheia de citações e referências que tentam ampliar as possibilidades de leitura. John Candy aparece com “Armados e Perigosos” (1986), que Mickey assiste por influência de Gus, John Hughes é citado indiretamente nesse momento com “Antes Só do que Mal-Acompanhado” (1987), para explicar quem é John Candy, e também nas menções a Ferris Bueller quando Mickey elabora um plano egoísta e obsessivo para visitar o set em que Gus trabalha. Vários filmes são sacaneados na cena em que Gus joga fora sua coleção de Blu-rays, de “Uma Linda Mulher” (1990) a “Harry e Sally – Feitos Um para o Outro” (1989), todos são apontados como mentiras que o cinema conta sobre a vida e os relacionamentos, em momento de metalinguagem explícita sobre o ponto de vista de “Love”, mesmo que isso também soe, de certo modo, como uma homenagem a esses filmes.

É significativo notar que as obras citadas são de um período bem curto, fim dos anos 80, início dos 90. E na trilha e no roteiro estão ainda Violent Femmes, Wilco, Elvis Costello, Paul McCartney and Wings, Beastie Boys e Jakob Dylan. Traços que orientam a empatia que teremos com o contexto da vida desses personagens. Lembretes pra gente que cresceu vendo e ouvindo esse tipo de coisa.

Acho que o que fica de bom da primeira temporada de “Love” é a promessa de uma série que tenta crescer aos poucos, desviando o foco das grandes mentiras do gênero. A relação dos dois se esforça pra mostrar que mesmo buscando o outro como solução a resposta nunca é a esperada. E é comum e humano que as coisas mudem conforme a experiência. Esse é o ponto pra “Love” no final, não esconder que a vida precisa da realidade e do esforço prático pra funcionar. E que mesmo assim, nem sempre funciona.

– Manoel Magalhães (@chelseanights) é músico e jornalista. Vive no Rio de Janeiro.

Leia também:
– Lena Dunham poderia ter explorado mais e melhor em seu livro (aqui)
– O legado de John Hughes para o cinema é imenso (aqui)

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5 thoughts on “Love, comédia e expectativas

  1. Assisti todos os episódios em 3 dias. Gostei bastante. Sim tem uns exageros, mas todos aceitáveis e que divertem o espectador. Mas acho que só tem espaço para 3 temporadas no máximo. Isso se for soturna e inspirada como essa 1ª temporada.

  2. Cai em Love meio sem querer. Só sabia da Gillian e só fui saber de detalhes no dia do lançamento. Não me arrependo de ter começado -e ver tudo em uma sentada.
    O texto acima é muito bem escrito e consegue ao mesmo tempo gerar curiosidade em quem não assistiu, e prazer em quem assistiu.

  3. Apesar da discrepância na qualidade de direção de alguns episódios (a luz e alguns planos em certos momentos são de doer a alma), no geral Love é boa(zinha). Mas não passa muito mais disso. Se é pra pegar e me convencer com esse discurso de “somos humanos com defeitos e as comédias românticas que estamos acostumados a ver não nos representam!!”, sugiro que assistam You’re The Worst. Bem melhor.

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