Entrevista: Esteban Tavares

por Marcos Paulino

Gaúcho de Camaquã, Rodrigo da Fonseca Tavares ficou conhecido pelo último sobrenome durante os seis anos em que empunhou o contrabaixo da Fresno, entre 2006 e 2012, tendo gravado dois álbuns e um EP com o grupo (“Redenção”, de 2008; “Revanche”, de 2010 e “Cemitério das Boas Intenções”, de 2011) e assinado 15 canções em parceria com Lucas Silveira – a primeira, “Onde Está”, saiu no segundo disco da Fresno, em 2004.

Porém, desde que saiu da banda, em 2012, é como Esteban que ele tem se apresentando, seja na carreira solo, seja nos projetos em que toca ao lado de seu grande ídolo, Humberto Gessinger, também em carreira solo. Não à toa, Tavares regravou a canção “Concreto e Asfalto”, dos Engenheiros do Hawaii, para o tributo “Espelho Retrovisor”, lançado pelo Scream & Yell em novembro de 2011, e já com 22 mil downloads gratuitos feitos.

Três anos após “Adiós, Esteban!”, que deu início a sua nova fase, Tavares apresenta seu novo trabalho, “Saca La Muerte de Tu Vida”, um disco recheado de influências de músicas gaúcha (claro!), argentina e uruguaia. O álbum, forjado com a colaboração dos fãs via crowdfunding, traz 13 faixas, todas compostas por Esteban, que também tocou todos os instrumentos. Nesta entrevista ao PLUG, parceiro do Scream & Yell, ele conta as novidades.

Foram três anos entre o último disco e este. O que se passou nesse período?
Lancei o outro disco em setembro de 2012, logo que saí da Fresno. Minha intenção era lançar este trabalho já em 2013. Mas, nesse meio tempo, veio o convite do Humberto Gessinger para integrar a sua banda. Sempre fui um fã dele, e gravamos juntos um disco e um DVD. O processo de composição do “Saca La Muerte de Tu Vida” foi de no máximo oito meses, não fiz muita pré-produção, já gravei valendo. O lapso entre os dois discos se deve mesmo a outros trabalhos que eu estava fazendo, e não ao trabalho de composição. Até porque em 2016 já quero lançar outro disco.

Como foi a experiência de produzir um disco por crowdfunding?
No começo, tive um pouco de medo, porque vi uns exemplos de que eu não tinha gostado muito. Tinha muita banda pedindo dinheiro a esmo, sem dar nada em troca, teve artista que vendeu até disco de ouro em crowdfunding. Eu estava a fim de fazer uma coisa mais honesta com o público. No final das contas, foi uma grande ferramenta pra pré-venda do disco, a gente saiu com quase 5 mil vendidos. Mas não chegou nem a ter lucro, tive que pagar muita coisa da gravação do meu bolso. Dos 81 mil reais arrecadados, 44 mil foram pro correio. Mas foi bacana, é uma grande jogada até pro futuro das bandas. Só tem que saber montar bem o pacote pro fã também se sentir beneficiado.

Você compôs todas as músicas deste disco e tocou todos os instrumentos. Que influências te guiaram nessa experiência tão solitária?
Desde o primeiro disco, tenho uma influência muito forte da música do Uruguai e da Argentina. E sempre tive uma afinidade muito grande com a música do Rio Grande do Sul, tanto que o acordeão é um instrumento que está no disco inteiro. No primeiro disco, como tinha acabado de sair da Fresno, eu tinha uma cobrança interna sobre o que a mídia e o público precisavam. Já este disco foi totalmente tranquilo nesse sentido. Fiz as músicas pensando no que eu gostaria de ouvir e acreditando que, assim, meu público também gostaria. Foi bem mais prazeroso. Hoje sou bem mais desligado sobre o que rege o mercado pop.

Muita gente gostaria de estar no seu lugar na Fresno. O que te levou a sair de uma banda de sucesso, bem estruturada, pra ir pro oposto, pra lançar um disco num sistema em que é preciso ter a contribuição financeira dos fãs?
A pergunta tem duas partes. A primeira é sair da Fresno, banda que foi muito importante pra mim. Não estaria em São Paulo hoje e nem teria a carreira que tenho se não fosse a banda. Mas fui honesto comigo e com eles quando não me senti mais confortável com aquilo que a gente estava fazendo. E a Fresno, mesmo tendo uma exposição muito boa, passou por alguns traumas devido à manipulação que existe no mercado pelos Don Kings da música. Chegou uma hora em que aquilo acabou me desconectando totalmente do que eu queria com a vida. Hoje, tomo conta do meu negócio. Conversei com muitas gravadoras antes de lançar meu primeiro disco, mas no segundo não vi necessidade, pois já havia conquistado o que elas me dariam. Fui direto pro fã pra poder fazer o disco do jeito que eu queria.

Como rolou a oportunidade de tocar com o Humberto Gessinger?
O Humberto pra mim é uma faculdade, um grande aprendizado. Saí da Fresno tocando baixo e queria muito voltar pra guitarra, e ele me deu essa oportunidade. Pude compor com ele e fizermos uma turnê grande juntos. Foi uma realização pessoal muito grande. Essa fase foi um grande psiquiatra, numa época em que tinha o peso da cobrança dos fãs da Fresno. O Humberto me apresentou pra um público que talvez até soubesse quem eu era, mas não tinha muito interesse em ouvir porque achava a Fresno fabricada. E foi importantíssimo pra mim, sou um grande fã dele. Passo mais tempo olhando pro lado no palco do que pra frente. Vou ficar agora um ano de férias e no começo de 2017 a gente volta a trabalhar junto.

Do ponto de vista comercial, como foi trocar o público de uma banda como a Fresno para outro, bem mais limitado?
Financeiramente, vale mais a pena agora, porque, por menor que seja o negócio, o lucro é quase todo meu. Na época da Fresno, houve muitos momentos de fama que não condiziam com o cachê. Muita gente se engana quando pensa que nas bandas rola muito dinheiro. Hoje negocio o show como quero. E o trabalho com o Humberto veio num momento muito bom, cheguei a fazer 18, 19 shows por mês. Além disso, tenho o direito de escolher quando quero ficar de folga. Hoje, sou um cara muito mais tranquilo com a minha vida financeira.

O som da Fresno é muito diferente daquele que você faz hoje. Mesmo assim, você conseguiu trazer fãs da banda pra sua carreira solo? Como tem sido o feedback do disco?
O feedback foi muito bom, os shows de lançamento que fiz até agora foram fantásticos, nem parece que é um disco novo, dá impressão que a galera conhece há muito tempo. Com certeza, trouxe muitos fãs da Fresno. E também consegui buscar muitos fãs do Humberto Gessinger, o que eu não esperava. Começa a ter também uma geração de fãs do meu trabalho, que nem sabiam que eu era da Fresno.

Você adiantou que já está planejando um novo disco. O que esses fãs todos podem esperar dele?
Tenho uma regra que é não me copiar, tento sempre me diferenciar nos discos. O “Adios Esteban!” tem uma pegada muito mais folk que o “Saca La Muerte de Tu Vida”, que é muito mais introspectivo, o acordeão guia todo ele. Não vou abandonar o acordeão, que é uma marca registrada da minha música, mas vou vivendo, ouvindo e absorvendo coisas novas e vou colocando na minha música. Sempre com a cobrança interna de não fazer música igual. Pode ter certeza que já estou bem preocupado sobre como vou fazer o próximo disco. Sou jovem, tenho que trabalhar e fazer o melhor sempre.

Marcos Paulino é editor do caderno Plug (plugmusic.zip.net), da Gazeta de Limeira.

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