Balanço: Festival Radioca, em Salvador

Texto por Marcelo Costa
Fotos por Rafael Passos

Em 2012, quando conversei com Alberto Guijarro, diretor de um dos melhores festivais do mundo, o Primavera Sound, em Barcelona, comentei que havia uma grande dificuldade em fazer um grande festival com a qualidade do Primavera no Brasil. Qual o segredo? “Simplesmente crescendo passo a passo. O festival começou sendo pequeno, só um dia e com alguns poucos artistas e fomos crescendo ano a ano sem parar, tanto em público quanto em infraestrutura e palcos. Só assim um festival pode ter uma base sólida”, ele disse.

No país do lucro imediato, em que investidores pensam muito mais no montante financeiro final (que também é importante) do que no projeto cultural como um todo, muitas vezes investindo em áreas que desconhece com o único intuito de arrecadação (em boa parte das vezes sem entregar um produto bem acabado ao público), um festival independente surge com proposta inicial semelhante ao Primavera: curadoria impecável de artistas, local escolhido a dedo e serviço caprichado. Eis as credencias do primeiro Festival Radioca, em Salvador.

Derivado de um programa no ar desde novembro de 2008 na Rádio Educadora FM de Salvador, o Radioca estendeu para o evento aquilo que já vinha fazendo no rádio: dar atenção ao que há de melhor e mais recente na produção musical da Bahia e do Brasil. Por isso não soa estranho dizer que os oito artistas que se apresentaram neste primeiro sábado (01) e domingo (02) de agosto mantiveram um nível tão alto de qualidade em seus shows que não houve uma ruptura sonora no palco: os oito shows foram excelentes, o que valoriza a curadoria.

Os dois dias foram abertos por nomes emergentes da cena local do estado: Pirombeira, Ifá Afrobeat e O Quadro tocaram para um excelente público, que compareceu em peso ao Trapiche Barnabé, um velho armazém portuário antes abandonado cujas estruturas (sem teto, ao ar livre) combinaram a perfeição com o evento. Abertura de festival geralmente não atrai tanto público, que prefere chegar para as atrações principais, mas no Radioca foi diferente, com um grande número de pessoas presente desde a hora que os portões se abriram.

Quem deu o start na programação pouco depois das 17h do sábado foi a Pirombeira, que mesmo com álbum de estreia a ser lançado, já atrai um grande número de seguidores com sua fusão de baião, frevo, chula, jazz e rock. Uma amostra da elegante sonoridade do quinteto pode ser ouvida no Soundcloud da banda. Um dos segredos da cena local, com muitos elogios dos experts da cidade, o Ifá Afrobeat fez um show foi bonito, agitado e suingante, que mostra que o grupo já tem estofo para conquistar outras capitais e ir além.

Dos nomes locais, quem mais se destacou, porém, foi O Quadro, de Ilhéus. Recém-chegados de Roskilde, o badalado festival na Dinamarca (e com shows nos britânicos Bestival, festival na Ilha de Wight, e no Great Escape, em Brighton, no currículo), o septeto fez uma apresentação poderosa, com o trio de rappers contagiando a plateia e conseguindo a proeza de fazer uma galera dançar sua fusão de rap, dub e reggae debaixo de chuva. “Valor de X² (Parte 2)” e “Música das Músicas” (baixe o álbum aqui) ecoaram bonito no Trapiche Barnabé.

Dos estrangeiros em terras baianas, destaque inevitável para o primeiro show dos cariocas dos Mulheres Que Dizem Sim em Salvador em 20 anos. O grupo de Rodrigo Cebrian (baixo), Marcelo Callado (substituindo Domenico na bateria), Pedro Sá e Maurício Pacheco (guitarras) trouxe para o palco faixas inéditas (a ótima “Palhaço Carequinha” mais “Momento Macho” e “Amo Godard”), homens de vestido, solos de guitarra e participação de Moreno Veloso. Na grade, ao fim do show, uma senhora perguntava: “Onde compro o CD deles?” 🙂

No sábado, os gaúchos da Apanhador Só (visivelmente cansados de uma sequencia de shows que unia Campinas, João Pessoa e Salvador em três dias) fizeram uma apresentação aquém de seu potencial, mas que foi compensada pelo carinho dos fãs. O show começou com trio original (acompanhado de um baterista e um guitarrista agregado) entoando canções do elogiado “Antes Que Tu Conte Outra”, de 2013 (“Vitta, Ian, Cassales”, “Líquido Preto”, “Por Trás”). Depois, as faixas psicodélicas do compacto “Paraquedas” (2012) fizeram a ponte com o álbum de estreia. A noite terminou com os fãs esvaziando os itens na lojinha da banda.

Acompanhada de uma bandaça, a paulista Anélis Assumpção seduziu a plateia com um show vigoroso, que melhora ainda mais o ótimo álbum “Amigos Imaginários” (baixe o disco aqui), reconhecido com um prêmio APCA em 2014 (a APCA também havia contemplado a Apanhador Só em 2013). “Cê Tá Com Tempo?” e a empolgante “Eu Gosto Assim” abriram o festejo, que ainda contou com a estrela local Russo Passapusso cantando com Aneles a parceria “Devaneios” e citando a ótima “Bola na Rede”, canção do Bemba Trio (do refrão “Não é preciso passar por cima de ninguém / É só aproveitar as chances que tem”) num show excelente.

Os maiores destaques (será casualmente?) foram dois artistas que estão divulgando álbuns novíssimos (ambos liberados gratuitamente), lançados neste duvidoso 2015 de “fla-flu político” e “apesar da crise”: no sábado, um Cidadão Instigado inspiradíssimo mostrava seu “Fortaleza” praticamente na integra (apenas a climática “Perto de Mim” ficou fora do set) para uma plateia atenta e a fim das novidades de um dos principais grupos do país, mas que também festejou o bis caprichado com “Homem Velho”, “Contando Estrelas” e “O Pinto de Peitos”. A sensação nítida é de que, a cada show, o disco melhora cada vez mais.

No domingo, Siba mostrava o melhor álbum de 2015 (até agora e para este que vos escreve), “De Baile Solto”, também praticamente na integra, num show sensacional, mais (in)tenso que o habitual, seguindo o tom sério do disco, ou como define Siba: “A dança com finalidade auditiva”. Acompanhado de tuba (Leandro Gervásio), um baterista genial e caótico (Antônio Loureiro), um guitarrista inventivo (Lello Bezerra) e o companheiro Mestre Nico (na percussão, voz e dança), Siba fez a plateia dançar ciranda, carnaval e hits como “Meu Time” e “Toda Vez Que Dou Um Passo” encerrando o festival de forma apoteótica.

Com oito atrações que não frequentam as FMs e TVs do país, a primeira edição do Festival Radioca esgotou 2 mil ingressos no domingo (no primeiro dia foi quase) mostrando que há público interessado em boa música fora dos esquemões da grande indústria. Num ambiente agradabilíssimo (a escolha do Trapiche Barnabé foi um grande acerto) que ainda tinha feira de vinis, food trucks e um mercadinho cultural, o Festival Radioca mostrou que é possível, sim, entregar ao público um evento altamente profissional e de qualidade. Que o festival cresça, passo a passo (como diz Guijaro), nos próximos anos mantendo a identidade desta celebrada primeira edição. Foi especial demais presenciar o início de uma grande história.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne
– Rafael Passos (www.facebook.com/rafaelpassosfotografo) é fotógrafo do Festival Radioca

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9 thoughts on “Balanço: Festival Radioca, em Salvador

  1. De fato, esse festival foi de altíssima qualidade em todos os aspectos (bandas, espaço, aparelhagem, banheiros, comida, bebida, acesso, segurança, etc), até a chuva caiu sincronizada. Pra mim, foi melhor evento do ano até agora. Aguardando ansiosamente a segunda edição.

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