CDs: Kaiser Chiefs, Skylab, Andrew Bird

por Marcelo Costa

“Education, Education, Education & War”, Kaiser Chiefs (Universal)
Sabe aquela banda divertidamente adolescente que lançou um dos grandes álbuns de estreia do novo século, “Employment” (2005), e depois cravou um single viciante no número 1 da parada britânica, “Ruby”, em 2007? Bem, ela amadureceu. O processo foi bastante traumático, com discos descendo a ladeira (o injustiçado “The Future Is Medieval”, de 2011, merecia melhor sorte), singles ignorados e vendas despecando (“Employment” bateu nos 2 milhões de cópias vendidas enquanto “Off With Their Heads”, estancou nas 300 mil), a ponto de Nick Hodgson, o baterista fundador, não segurar a barra e pedir as contas em dezembro de 2012. Tudo apontava para o pior. Porém, “Education, Education, Education & War” (lançado em março de 2014 no exterior e só em janeiro de 2015 no Brasil na tentativa de pegar carona nos shows da banda junto ao Foo Fighters no país – a indústria brasileira é uma piada sem graça) não só coloca a carreira dos Chiefs nos trilhos como exibe um lado mais sério da turma de Leeds. As cicatrizes são expostas na faixa de abertura, a raivosa “The Factory Gates”, que crítica duramente o capitalismo. A balada “Coming Home” ironiza a síndrome de Peter Pan no rock enquanto em “Misery Company”, o bom vocalista Ricky Wilson diz, com ecos de Bono, que “o peso do mundo está em nossas mãos”. Os traumas fizeram os Chiefs crescerem e o resultado é um disco forte (de entressafra) que mantém a banda “Together fighting”, como diz a boa letra de “Bows & Arrows”. Qual caminho será que eles vão seguir? Apostas?

Nota: 7
Preço em média: R$ 28

Leia também:
– Apesar de ser excessivamente reverencial, “Employment” traz hits incontestes (aqui)
– “Off With Their Heads” não reedita o sabor pós punk da estreia dos Chiefs (aqui)
– Kaiser Chiefs no Planeta Terra 2008 (aqui) e no Lollapalooza Brasil 2013 (aqui)

“Melancolia e Carnaval”, Rogério Skylab (Independente)
Após lançar 10 álbuns da série “Skylab” (entre 1999 a 2011) apostando num repertório cômico, de baixo calão e repleto de histórias deliciosamente absurdas que se tornaram clássicos do cancioneiro psicopata (“Matador de Passarinhos”, “Carrocinha de Cachorro Quente”, “Moto-Serra” e “Convento das Carmelitas”), Rogério Skylab começou uma nova trilogia inspirada no… carnaval. Provocando (e confundindo) todos aqueles que construíram em seu imaginário uma imagem imutável sua (seja correndo atrás de fãs em shows com uma faca ou teatralizando seus clássicos no programa de Jó Soares), o músico envereda por um repertório calmo de bossas e sambas de caixinha de fósforo que já havia impressionado no primeiro volume, “Abismo e Carnaval” (2012), que contava com Jorge Mautner. Neste segundo álbum, “Melancolia e Carnaval” (2014), Romulo Fróes aparece logo na faixa de abertura dividindo o vocal na belamente arranjada “Elegante e Decadente”. O tom classudo se segue na imponente “Beira do Cais”, na recriação magistral do poema “Cogito”, de Torquato Neto, com participação certeira de Jards Macalé, e na empolgante “Aqui Todo Mundo é Preto”, que junto a sinatriana “Tudo é Tão Depre” e ao sambão de encerramento “Vamos Esquecer”, que traz a Velha Guarda da Mangueira arrepiando nos vocais, apresenta um Rogerio Skylab muito mais sério, poético e melódico (ainda que números como “Curador” e “Hino Americano” remetam suavemente a antiga fase), e tão interessante quanto em sua fase sádica. Deixe tocando…

Nota: 8
Preço: R$ 25 (com frete incluso aqui)
Download gratuito: http://www.rogerioskylab.com.br/

Leia também:
– “Skylab V” crava ao menos dois clássicos do cancioneiro psicótico de Skylab (aqui)
– “Skylab VII”: perto de Rogério Skylab, Marilyn Manson até parece o Júnior Lima (aqui)
– “Skylab IX”: se o politicamente incorreto tivesse um nome seria Rogério Skylab (aqui)

“Echolocations: Canyon”, Andrew Bird (Independente)
Em 2001, a gravadora Trama lançou no Brasil os três excelentes álbuns de Andrew Bird junto a banda Bowl of Fire (“Thrills”, de 1998, e “Oh! The Grandeur”, de 1999, exibem forte influência da Squirrel Nut Zippers – Andrew havia colaborado com eles em três discos – enquanto “The Swimming Hour”, de 2001, acrescenta indie rock à mistura de jazz, blues, folk e neo-swing), mas para entender “Echolocations” é preciso voltar para 1996, época em que Andrew torna-se bacharel em violino pela na Northwestern University. Nesse mesmo ano, ele estreia (aos 23 anos) com “Music Of Hair”, um álbum de virtuose no violino pagando tributo às raízes jazz e blues de sua terra. “Echolocations: Canyon” é também um tributo à terra, mas com a diferença da maturidade musical: reciprocidade. Aqui Andrew não só toca, mas ouve (e incorpora) os ecos que lhe são devolvidos pelo ambiente, no caso o canion Coyote Gulch, em Utah. Esqueça o formato canção pop de “Armchair Apocrypha” (2007) ou “Hands of Glory” (2012). De um lirismo emocionante, as sete canções do álbum integram uma instalação (literal) de música ambiente exposta por Andrew Bird e Ian Schneller no Instituto de Arte Contemporânea de Boston: 36 megafones tocando o álbum no jardim do museu entre 04/02 e 10/05/2015. Primeiro volume da série (que passará por florestas, lagos e vias urbanas), “Canyon” consegue algo raro no atropelado mundo moderno: cativar o ouvinte (mesmo distante do jardim do museu – e do canyon). É só violino, assovio e natureza. E é bonito demais.

Nota: 9,5
Preço: US$ 10 no site oficial

Leia também:
– Três álbuns distintos e excelentes de Andrew Bird’s Bowl of Fire (aqui)

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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