Coluna: Banda do Mar, o amor e o ódio

por Marcelo Costa

Em maio de 2014, o casal Marcelo Camelo e Mallu Magalhães anunciou que estava montando uma nova banda com o conceituado baterista português Fred Ferreira, integrantes dos grupos Orelha Negra e 5-30, entre vários outros, produtor musical requisitado e filho de Kalú, também baterista, na Xutos & Pontapés, uma das bandas icônicas do punk rock tuga. A Banda do Mar, como foi batizado o projeto, lançou seu primeiro disco em agosto de 2014, e logo saiu em turnê passando por várias capitais brasileiras.

Tanto Mallu quanto Camelo são idolatrados por um público bastante fiel assim como lideram listas de “haters”. De seus 22 anos, Mallu já está a 8 na mídia, crescendo na frente do público. Já Marcelo viu sua banda de colégio, uns tais de Los Hermanos, se transformar em uma vaca sagrada da música brasileira, e perdeu o tesão pelo caminho, desacelerando o hardcore inocente do começo de carreira em prol de uma musicalidade mais calma, como se o tempo mudasse de uma tempestade para um fim de tarde na praia.

Os anos seguintes viram Marcelo Camelo fechar-se em uma concha pessoal de álbuns solo e shows para fãs dos Los Hermanos enquanto Mallu Magalhães crescia musicalmente e buscava novas sonoridades (há um grande salto, tanto musical quanto textual, de “Mallu Magalhães”, o segundo disco, de 2009, e o ótimo “Pitanga”, de 2011). Os fãs não os abandonaram, e os haters continuaram a gargalhar enquanto reliam um texto deliciosamente satírico chamado “como eu me fudi no show dos Los Hermanos”.

Tudo bem, vacas sagradas são realmente um saco e uma das coisas mais desconfortantes na cultura pop é ver gente de talento limitado sendo elevado ao Olimpo. Ainda assim, na posição de hater, é preciso ter a mente aberta (será pedir demais?) para não odiar alguma coisa pelo simples “dever” de odiar, ignorando um objeto de arte ancorado na defesa tola do “não ouvi, mas sei que é uma merda”. O prazer da surpresa é uma das coisas mais interessantes na cultura pop, e não é o nem o caso de se desarmar, mas baixar levemente a guarda.

Em 2007, escrevi um texto cômico para sarrear Chris Martin, do Coldplay (desde então, semana sim, semana não, aparece um fã revoltadinho). O primeiro disco deles, “Parachutes” (2000), era bom; o segundo, “A Rush of Blood to the Head” (2002) tinha poucas coisas boas (entre elas “God Put a Smile Upon Your Face”) enquanto no terceiro, “X&Y” (2005), eles se colocavam em uma bandeja para o mercado. Fiz piada da seriedade da banda, mas, no ano seguinte, admirei “Viva la Vida”, e escrevi sobre (desisti logo depois com os grandiloquentes álbuns seguintes).

Voltando a Banda do Mar, me surpreendi nesta última semana com a raiva de alguns leitores com o fato do disco deles aparecer em segundo lugar na votação de Melhores Discos Nacionais de 2014, no Scream & Yell. “Banda do Mar”, o disco, é um delicioso apanhado de músicas pop que resgatam o desejo de Marcelo Camelo em fazer canções cantaroláveis tanto quanto mostram Mallu evoluindo como cantora e compositora, percepção explicita em canções como “Mais Ninguém” e, principalmente, “Muitos Chocolates”, com ecos de Rita Lee & Tutti Frutti.

Ao vivo a coisa entorna um pouco, é verdade, muito porque os fãs veem os shows de Marcelo e Mallu como uma ida ao psiquiatra: eles não pagam pra ouvir, eles pagam pra falar / cantar / gritar. Nesse sentido, Camelo, virando o microfone para a plateia logo na terceira canção do show em São Paulo (“Hey Nana”), mostrou uma contradição e uma dependência: se era impossível os músicos dos Los Hermanos se ouvirem no palco em meio a tanta gritaria de fã, por que incentivar o mesmo na carreira solo? Busca de afirmação? Quem sabe…

Os argumentos dos haters são vários. Um deles diz: “Admirável Banda do Mar em segundo lugar… apesar da Mallu”, sem saber que ela é responsável pelo melhor do disco. Um outro lamenta: “Medo de listas que colocam Banda do Mar como o segundo melhor disco do ano”. Um terceiro condena: “Banda do Mar é picolé de chuchu”. Pode até ser… pra ele, mas para 26 pessoas (entre 114) que votaram no disco da Banda do Mar, ele é um dos melhores do ano. E não é esse disco tão ruim e inaudível quanto os haters pintam por ai.

Alguém precisa dizer, então vai lá: todo fã tem um pouco de otário, normalmente porque ignora os defeitos e só observa o que ele acha ser qualidade. Da mesma forma, todo hater também tem um pouco de otário, porque observa apenas o que ele julga ser defeito e ignora o que pode ser qualidade. E ambos fazem julgamentos errados. Não é algo novo (se perguntado, Platão provavelmente daria algum exemplo da Grécia Antiga) e muito menos fadado ao fim (daqui uns 500 anos alguém estará refletindo a mesma coisa), mas é bom, vez em quando, observar as coisas com cautela: entre o preto e o branco existem milhares de tons de cinza.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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