Boteco: da Alemanha, 8 cervejas da Schneider

schneider1.jpg

por Marcelo Costa

Cerca de 200 anos atrás, cerveja Weiss (de trigo) só podia ser produzida pela família real da Baviera em suas cervejarias. Porém, em 1872, observando o declínio do estilo cervejeiro, o Rei Ludwig II deixou de fabricar cerveja Weiss, concedendo o direito a Georg I Schneider. Nascia em Munique, numa fábrica que produzia cerveja Weiss desde 1607, a Weissbierbrauerei G. Schneider & Sohn (Georg Schneider e Filhos), e, 143 anos depois, a família continua comandando a cervejaria, agora com Georg IV Schneider à frente. Após a destruição da fábrica durante os bombardeios aliados em 1944, toda produção foi transferida para Kelheim, ás margens do Rio Danúbio, a cerca de uma hora de Munique, e permanece lá até hoje. O tempo passou, mas a cervejaria não fechou os olhos para as evoluções cervejarias, e alguns rótulos da casa se posicionam com destaque entre os melhores produzidos na Alemanha hoje. Abaixo, oito cervejas da casa que podem ser encontradas com facilidade no Brasil.

schneider2.jpg

A Schneider Weisse TAP 1 Mein Blondes (Minha Loira) é uma German Hefeweizen mais suave com receita que une os lúpulos Hallertauer Tradition e Saphir com 60% de trigo e 40% de cevada da região de Kelheim. De coloração amarela quase âmbar devido a turbidez e creme branco de ótima formação e média alta permanência, a Schneider Weisse TAP 1 apresenta um aroma tradicionalíssimo, com frutado remetendo a banana e condimentação sugerindo cravo. Há, ainda, leve presença de bubblegum, caramelo suave e trigo. Na boca, leve acidez frutada no primeiro toque (banana, claro) acompanhada de amargor comportado e condimentação suave (cravo). Há um leve e interessante azedume no conjunto além de acréscimo de notas herbais (provavelmente derivadas da lupulagem) numa cerveja refrescante que finaliza de maneira seca e traz, no retrogosto, banana e trigo. Delícia.

schneider3.jpg

A Schneider Weisse TAP 2 Mein Kristall (Minha Cristalina) é uma German Kristallweizen (ou seja, filtrada) cuja receita une três lúpulos (Cascade, Hallertauer Magnum e Hallertauer Saphir) com 50% de trigo e 50% de cevada da região de Kelheim. De coloração dourada cristalina (que remete a uma pilsen) com creme branco de boa formação e média permanência, a Schneider Weisse TAP 2 apresenta um aroma bastante próximo da TAP 1, com ligeiro destaque para a sugestão de bubblegum, que soa mais intensa aqui. Fora isso, as notas tradicionais (banana, cravo, cereais) muito bem distribuídas. Na boca, muito mais leveza no corpo que a TAP 1, com frutado no primeiro toque (banana) acompanhado de tutti-frutti, leve azedinho, suave doçura e um toque de cravo. O amargor é pontual e o conjunto agradabilíssimo, de alto drinkability. Termina com doçura, trigo e banana. No retrogosto, banana e um toque agridoce. Delicia (2).

schneider4.jpg

A Schneider Weisse TAP 3 Mein Alkoholfreies (Minha Sem Álcool) é, como o nome avisa, a versão sem álcool da casa, com apenas 0.3% de graduação. A receita une o lúpulo Hallertauer Tradition com 60% de trigo e 40% de cevada da região de Kelheim. De coloração âmbar mais turva que as duas versões anteriores e creme branco de excelente formação e longa duração, a Schneider Weisse TAP 3 apresenta um aroma com bastante sugestão de cereais e derivados (trigo, pão, biscoito, feno) e leve toque cítrico. A sensação é de que se está no meio de uma plantação de trigo. No paladar, a sensação é de um pão liquido: há bastante presença de cereais (trigo, pão, biscoito, feno), leve doçura caramelada e amargor pontual além de suave sugestão de banana. Bem gostosa. O final é maltadíssimo (caramelo e trigo) enquanto o retrogosto traz algo de ervas, chás e campo. Muito boa no que se propõe.

schneider11.jpg

A Schneider Weisse TAP 4 Mein Grünes (Minha Verde) é a receita orgânica da turma bávara, produzida com lúpulos Hallertauer Tradition e Cascade Naturland mais 50% de trigo e 50% de cevada cultivados na região montanhosa de Rhön (divisa da Baviera com Hesse). De coloração âmbar alaranjada e apresentando leve turbidez com creme branco de boa formação e média permanência, a Schneider Weisse TAP 4 é, disparada, a de perfil aromático mais cativante até aqui: há bastante condimentação (cravo e ervas), herbal (cereais) e leve cítrico (limão) ao lado das tradicionais notas frutadas que remetem a banana num trabalho magnifico das leveduras. Na boca, uma deliciosa confusão de sabores: há frutado remetendo tanto a banana quanto à limão; há condimentação (cravo e leve pimenta do reino); há herbal (cereais, feno e trigo) e há doçura de caramelo. O final é herbal, cítrico e condimentado. No retrogosto, banana e um toque azedinho viciante, que remete levemente a zimbro. Campeã.

schneider6.jpg

A Schneider Weisse TAP 5 Mein Hopfenweisse (Minha Cerveja de Trigo Lupulada) é produzida com os lúpulos Hallertauer Tradition e Saphir (alcançando 40 de IBU) com 50% de trigo e 50% de cevada da região de Kelheim. De coloração amarela com turbidez intensa e creme branco de ótima formação e longa permanência, a Schneider Weisse TAP 5 entra na briga com sua antecessora pelo posto de cerveja mais aromática da casa. O perfil magnifico traz notas cítricas (limão, tangerina e abacaxi), florais, especiarias (cravo e coentro), ervas, trigo, feno, frutas cristalizadas, cereais e banana além de leve sugestão de acidez. Na boca, uma rápida doçura cítrica (caramelo e tangerina) é submersa em acidez e amargor envolventes desabrochando como uma flor em notas que remetem a condimentação (cravo e coentro), frutas cítricas (limão, banana e abacaxi), herbal e floral. O final, esplendoroso, traz amargor cítrico, herbal, floral e doçura de caramelo. No retrogosto, acidez, picancia de especiarias e leve amargor. <3

schneider7.jpg

Mantendo o alto padrão de felicidade das versões TAP 4 e 5, a Schneider Weisse TAP 6 Unser Aventinus (Nossa Aventinus) é uma caprichada Weizen Bock cuja receita traz os lúpulos Magnum e Hallertauer Tradition ao lado de 50% de trigo e 50% de cevada tostada. De coloração âmbar escura (mas nem tanto) com turbidez presente e creme de ótima formação e longa permanência, a Schneider Weisse TAP 6 apresenta um perfil aromático riquíssimo, que valoriza tanto as notas tradicionais de uma boa cerveja de trigo alemã (com banana e cravo sempre em destaque) com uma derivação frutada que acrescenta sugestão de ameixa, uva passa e figo além de pimenta do reino e canela. No paladar, o conjunto envolve o bebedor logo no primeiro toque, com doçura caramelada, presença de banana e de frutas escuras (figo e uva passa). O amargor é pontual e levemente alcoólico e o final traz doçura, picancia e leve frutado. No retrogosto, caramelo, cravo, banana, figo e o desejo de beber outra na sequencia (e olha que são 8.2% de álcool). <3

schneider8.jpg

A Schneider Weisse TAP 7 Unser Original (Nossa Original) é uma German Weizen que começou a ser produzida pelos bávaros em 1972 seguindo a receita original do fundador da cervejaria, datada de 1872. Produzida com os lúpulos Hallertauer Tradition e Saphir e com 60% de trigo e 40% de cevada da região de Kelheim, a Schneider Weisse TAP 7 apresenta um líquido de coloração âmbar caramelada com leve turbidez e creme branco de ótima formação e longa permanência. No nariz, sugestão tradicional de banana, mas de forma bastante suave. Há, ainda, percepção de condimentação (semente de cravo e suave toque de canela), leve toque cítrico e de bubblegum. Na boca, há doçura caramelada no primeiro toque ao lado do frutado tradicional que remete a banana. O conjunto, no entanto, sugere bastante leveza (não tanta quanto a TAP 1, mas, ainda assim, bastante refrescante) terminando caramelado, picante e refrescante. No retrogosto, banana, trigo e leve condimentação. Delícia.

schneider9.jpg

Fechando o pacote de Schneiders com a Aventinus Eisbock, uma versão turbinadíssima da TAP 6. Conta a história que, durante o transporte da TAP 6 no inverno, alguns barris congelaram, mas não totalmente. Os mestres cervejeiros da casa foram experimentar o conteúdo não congelado, e se depararam com uma cerveja extra potente, afinal a água havia congelado deixando um conteúdo extremamente alcoólico. Nascia a Aventinus Eisbock, uma cerveja de… 12% de álcool. De coloração âmbar caramelada quase escura e creme levemente bege de ótima formação e permanência, a Aventinus Eisbock destaca no aroma tanto a doçura frutada (banana caramelada, ameixa, figo, uva passa e açúcar mascavo) quanto a presença marcante do álcool. Na boca, a textura é sedosa, quase licorosa, e junta no primeiro toque doçura frutada e picância derivada do álcool, e é mais isso que se seguirá: banana caramelada, ameixa, figo, uva passa e açúcar mascavo temperados com… álcool. O final é doce, quente e picante. No retrogosto, frutas escuras, pimenta do reino e álcool. Devagar e sempre.

aventinus1.jpg

Balanço
Produzida pela primeira vez em 1994, a Schneider Weisse TAP 1 é uma German Hefeweizen que soa como uma versão suave da TAP 7 (de 1972), com o lúpulo Saphir acrescentando um leve toque herbal que combina perfeitamente com o conjunto de uma cerveja refrescante e muito agradável. A Schneider Weisse TAP 2, lançada em 1990, é mais leve que a número 1, e, por isso, seu drinkability ganha pontos, já que ela desce mais suave (ainda que sem a mesma profundidade da versão anterior) lembrando uma Pilsen com um toque de banana. Bela Kristallweizen. Produzida pela primeira vez em 2002, a Schneider Weisse TAP 3 é a versão sem álcool da casa, é uma bela cerveja sem álcool, com aroma e sabor de malte transbordando da taça. Um estilo de cerveja que ainda precisa ser descoberto (e valorizado) no Brasil. Um dos agradáveis destaques desta sessão de cervejas da Schneider, a Weisse TAP 4 foi produzida entre 1916 e 1944 exclusivamente para a Oktoberfest, e retornou ao cardápio da casa em 1999. Nada mais é do que a versão orgânica dos bávaros, e é simplesmente apaixonante, apresentando um perfil aromático e de paladar raro em cervejas alemãs. O mesmo pode ser dito, com maior ênfase na animação, sobre a Schneider Weisse TAP 5, que exibe a influência da nova escola norte-americana sobre a secular escola alemã com o uso intensivo de lúpulo numa receita que nasceu em 2008, resultando em uma cerveja de trigo lupulada sensacional. Sensacional. Pode mandar um caminhão aqui pra porta de casa. Ok, calma. Ainda tem a Schneider Weisse TAP 6, uma Weizen Doppelbock produzida desde 1907 que poderia ser uma releitura bávara da escola trapista, de tão caprichado que é o resultado. Apaixonado! Fechando a lista numerada (ainda falta a 11, que não vem sendo trazida ao Brasil) com a TAP 7, a versão “da casa” da TAP 1, com receita datada de 1872. Uma German Hefeweizen muito boa, mas difícil não olhar para as versões 4, 5 e 6 com mais carinho. Para fechar esse passeio, a mais porrada da família: Aventinus Eisbock, uma versão alcoólica (12%) da TAP 6. O conjunto é para ser degustado com calma (não a toa, essa é a única 330 ml da família: todas as demais são 500 ml e há outras 750 ml), vagorosamente, curtindo o trajeto. Fecho de ouro pruma cervejaria alemã sensacional.

Schneider Weisse TAP 1 Mein Blondes
– Produto: German Hefeweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 3,41/5
– Preço pago no Brasil:  R$ 16,90 – 500 ml

Schneider Weisse TAP 2 Mein Kristall
– Produto: German Kristallweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5,2%
– Nota: 3,29/5
– Preço pago no Brasil: R$ 16,90 – 500 ml

Schneider Weisse TAP 3 Mein Alkoholfreies
– Produto: Cerveja Sem Álcool
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 0,3%
– Nota: 2,30/5
– Preço pago no Brasil: R$ 13,90 – 500 ml

Schneider Weisse TAP 4 Mein Grünes
– Produto:  German Hefeweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 6,2%
– Nota: 3,80/5
– Preço pago no Brasil: R$ 16,90 – 500 ml

Schneider Weisse TAP 5 Mein Hopfenweisse
– Produto: Weizen Bock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 8,2%
– Nota: 4,05/5
– Preço pago no Brasil: R$ 21,90 – 500 ml

Schneider Weisse TAP 6 Unser Aventinus
– Produto: Weizen Bock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 8,2%
– Nota: 4,00/5
– Preço pago no Brasil: R$ 21,90 – 500 ml

Schneider Weisse TAP 7 Unser Original
– Produto: German Hefeweizen
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 5,4%
– Nota: 3,41/5
– Preço pago no Brasil: R$ 16,90 – 500 ml

Schneiders Aventinus Eisbock
– Produto: Eisbock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 4,00/5
– Preço pago no Brasil: R$ 23,90 – 330 ml

schneider10.jpg

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *