Discografia comentada: Ramones

por Leonardo Vinhas

Quarenta anos após seu lançamento (abril de 2014), o álbum de estreia dos Ramones recebeu o disco de ouro nos Estados Unidos, prova tanto de que seu legado continua vigente quanto do status de banda cult em seu país natal. Se eles foram influentes e famosos em muitos países mundo afora (especialmente na América do Sul), nunca obtiveram, enquanto ativos, reconhecimento em seu país.

Os Ramones são como o vinho, ou seja, assuntos sobre o qual já se escreveu muita bobagem. Afinal, ambos são, ao mesmo tempo, simples e complexos, alvos de comentários notáveis e de tolices desmesuradas, capazes de proporcionar momentos ótimos ou péssimos. E ambos com muito mais por trás de sua aparência do que a primeira visão pode sugerir… e possivelmente danosos se consumidos em excesso.

Explicando essa última metáfora: há quem associe, até hoje, os Ramones com incompetência instrumental, citando sua influência para justificar a indigência na execução das próprias canções. Nada mais injusto: se é verdade que melodias complexas passam longe da proposta da banda, é também verdade que o estilo de guitarra de Johnny é bastante pessoal e, segundo muitos músicos, inimitável. Também é justo lembrar que a batida criada por Tommy, e depois acelerada e popularizada por Marky, é outra assinatura musical da banda. Para não falar de sua capacidade em aliar melodias sessentistas à urgência das primeiras gravações de rock’n’roll. Dentro de suas limitações, os Ramones encontraram sua identidade pessoal, que foi preservada, tanto quanto possível, pela mão de ferro de Johnny, responsável por administrar as idiossincrasias de Joey e Dee Dee – os compositores mais prolíficos, e também as personalidades mais perturbadas, da banda.

De 1974 a 1996, apenas o vocalista Joey (Jeffrey Hyman) e o guitarrista Johnny (John Cummings) permaneceram – ainda que na maior parte desses anos o relacionamento dos dois tenha se limitado às conversas profissionais inescapáveis. E da formação original, completada por Tommy (Tomas Erdelyi, bateria) e Dee Dee (Douglas Colvin, baixo e backing vocals), nenhum sobreviveu. O legado hoje é mantido pelo incansável Mary (Marc Bell), que não cansa de emprestar suas baquetas a quem o chamar, e em menor proporção por CJ (Christopher Ward), o baixista que entrou na banda em 1989, com apenas 22 anos de idade. Outros ex-Ramones são os bateristas Elvis (Clem Burke, do Blondie), que tocou em apenas dois shows, e o discreto Richie (Richard Reinhardt).

Dizer que a discografia dos Ramones é extensa é quase eufemismo: são 14 álbuns de estúdio e seis ao vivo. Há ainda várias coletâneas álbuns solo e projetos paralelos dos integrantes, além de mais de 40 discos-tributo feitos por artistas mainstream ou independentes de vários países diferentes. Tanto quanto possível, esses discos, à exceção dos tributos, serão comentados aqui. Vale apontar ainda que os oito primeiros discos de estúdio tiveram versões expandidas e remasterizadas lançadas pelo Rhino Records em 2001 e 2002. Esses extras também serão apontados no texto.

Uma última ressalva: quando se apontam os sucessos de cada disco, deve ser notada a recepção dada às canções entre os fãs ou nos rankings de países que não os Estados Unidos, já que o desempenho dos Ramones nas paradas de seu país foi pífio. Mas chega de conversa: hey ho, let’s go.

Ramones (abril de 1976)
O disco que ensinou o mundo que três acordem podem ser tudo o que você precisa. O disco cuja capa mostrou a garotos em diversas partes do globo que jeans rasgados, camiseta e jaqueta de couro bastam para ser cool. Que diz que todos os garotos querem cheirar cola, porque não têm mais nada para fazer. Que toca pelo tempo suficiente para animar uma festa e acaba antes da polícia chegar (14 faixas em cerca de 28 minutos). O disco que lançou o cântico de “Hey! Ho! Let’s Go!”. Que ensinou ao mundo como contar de um a quatro, com fúria, em inglês. Que devolveu ao rock o senso de perigo e rebeldia. Que tinha músicas sobre filmes de terror baratos. Que transformava hits açucarados do rock em pauladas distorcidas. Que tem letras de apenas dois versos. Que foi gravado em uma semana de estúdio, por pouco mais de 6 mil dólares. Que influenciou Clash, Sex Pistols, Vandals, Damned, Buzzcocks. O disco que você precisa ouvir agora.

Bônus da edição de 2001: basicamente, demos – de “I Wanna Be Your Boyfriend”, “Judy Is a Punk” e “Now I Wanna Sniff Some Glue” (que estão no disco em sua versão final); de “You Should Never Have Opened That Door” (que entraria no álbum “Leave Home”) e “I Don’t Care” (de “Rocket to Russia”); e as nunca lançadas em álbum “I Can’t Be” e “I Don’t Wanna Be Learned / I Don’t Wanna Be Tamed”. Além delas, há a versão de “Blitzkrieg Bop” tirada do single original.

Sucessos: “Blitzkrieg Bop”, “Beat On The Brat”, “Havana Affair”, “Today Your Love, Tomorrow the World”, “I Wanna Be Your Boyfriend”, “I Don’t Wanna Go Down On The Basement”.

Nota: 10

Leave Home (janeiro de 1977)
Gravado com mais tempo e dinheiro (10 mil dólares, quase o dobro do disco de estreia), “Leave Home” é um disco melhor mixado e masterizado, com um som cheio e vibrante, uma preciosidade de puro frescor rocker. Faz bonito na pancadaria, com “Glad to See You Go”, “Commando”, “Pinhead” (a faixa que trouxe o brado “gabba gabba hey”, “parafraseado” de uma fala do bizarro filme “Freaks”, de 1932) e outras. Mas faz mais bonito ainda nos temas inspirados pelo surf rock (“Suzy Is a Headbanger”, o cover dos Rivieras “California Sun”) e nos mais românticos, como “Oh Oh I Love Her So” e “I Remember You”. O álbum teve diferentes versões na Inglaterra e nos Estados Unidos, já que a faixa ”Carbona Not Glue” só esteve presente na primeira prensagem – o empresário Danny Fields achou melhor removê-la por temer um processo da empresa que detinha o direito do nome Carbona, a marca de um popular solvente. A faixa foi substituída na reedição americana por “Sheena Is a Punk Rocker”, e na edição inglesa pelo outtake “Babysitter”.

Bônus da edição de 2001: o álbum é apresentado em sua lista original de temas, com “Carbona Not Glue” como quinta-faixa, e “Babysitter” entrando como bônus, deixando “Sheena Is a Punk Rocker” de fora (ela estará presente em “Rocket To Russia”). Traz ainda 16 canções pinçadas de “Leave Home” e seu antecessor gravadas ao vivo no The Roxy (Los Angeles) em dezembro de 1976.

Sucessos: “Pinhead”, “Suzy Is A Headbanger”, “Commando”, “Swallow My Pride”, “California Sun”, “Gimme Gimme Shock Treatment”.

Nota: 10

Rocket to Russia (novembro de 1977)
Tudo que já era muito bom nos dois primeiros discos atinge seu ápice em “Rocket to Russia”. A arejadíssima produção de Tony Bongiovi (em parceria com Tommy Ramone) captou – como nunca antes e nunca depois – o som da guitarra de Johnny, a marcação precisa de Dee Dee e a batida única de Tommy. Aqui, a ideia de unir o som do rock’n’roll dos anos 50 com o pop e o som garageiro dos 60 e a urgência do quarteto atingiu um ponto de equilíbrio perfeito. Como escreveu o crítico André Forastieri num texto antológico da seção Discoteca Básica, da revista Bizz, “entre ‘Rockaway Beach’ e ‘Teenage Lobotomy’ está tudo o que você precisa saber sobre rock” (Bizz 77). Foi o primeiro disco da banda a ser lançado no Brasil (em 1987), o que talvez ajude a explicar a devoção criada em torno da banda por aqui. Além do som, havia a iconografia poderosa da banda, fosse na imagem da capa (os quatro novamente retratados em preto e branco, exibindo seu visual de jeans e couro enquanto apoiados em um muro deteriorado) ou nos desenhos do encarte e da contracapa, feitos por John Holmstrom. Dois ótimos covers – “Do You Wanna Dance?” (originalmente de Bobby Freeman, ainda que a gravação ramônica seja uma “eletrizada” na versão veloz dos Beach Boys) e “Surfin’ Bird” – se tornaram tão emblemáticos que muita gente até hoje acredita serem temas próprios da banda.

Bônus da edição de 2001: a demo da ótima “Slug” (canção incompreensivelmente dispensada do LP), versões de single de “I Don’t Care” e “Sheena Is a Punk Rocker”, uma primeira versão de “Needles and Pins”, dos Searchers – que entraria em outro take no álbum seguinte, “Road to Ruin”, que contaria ainda com o lado B “It’s a Long Way Back to Germany”, aqui presente como faixa extra.

Sucessos: a bem de verdade, o disco todo, à exceção de “I Can’t Give You Anything”, “Locket Love” e “Why Is It Always This Way?”.

Nota: 10

Road to Ruin (setembro de 1978)
Cansados de não entrar nas paradas, os Ramones começaram a tomar as primeiras medidas conscientes para mudar seu som e se tornarem mais acessíveis. A balada brega “Questioningly” (que Dee Dee compôs apenas para mostrar à mãe que era capaz de escrever uma canção de amor), o embalinho country-pop “Don’t Come Close” (com direito a solo de guitarra!) e a já citada cover de “Needles and Pins” eram acenos claros ao sucesso. Mas o sucesso não entendeu o recado, e os Ramones passaram despercebidos pelo grande público, mais uma vez. O som forjado nos três primeiros LPs continuava ali, em “She’s The One”, no hino antitudo “I’m Against It”, na lassidão de “I Just Want to Have Something to Do” e, acima de tudo, em “I Wanna Be Sedated”. Mas algo tinha mudado irreversivelmente. Já se notava a auto repetição (vide “Go Mental” e “Yea Yea”), e o primeiro racha no relacionamento surgia: Tommy estava exausto das turnês e não mais a fim de segurar a bronca entre os gênios difíceis de seus três companheiros, então deixou a banda e passou ao papel de produtor, ao lado de Ed Stasium (engenheiro de som de “Rocket to Russia”). Marky, ex- Richard Hell & The Voidoids, assumiu a bateria porque – segundo contado no livro “Mate-Me, Por Favor” – ao contrário de sua banda anterior, os Ramones ao menos faziam shows e ele teria grana para pagar suas muitas contas vencidas.

Bônus da edição de 2001: demos de “Yea Yea” e da tola “Come Back, She Cried a.k.a. I Walk Out”, um medley ao vivo com “Blitzkireg Bop”, “Teenage Lobotomy”, “California Sun”, “Pinhead” e “She’s The One”, constante na trilha do filme “Rock’n’Roll High School”; e takes alternativos para duas faixas da mesma trilha sonora, o tema-título e “I Want You Around”.

Sucessos: “I Wanna Be Sedated”, “I Just Want to Have Something to Do”, “Needles & Pins”, “She’s The One”.

Nota: 9

End of The Century (fevereiro de 1980)
Os Ramones não precisaram pensar muito para ceder ao assédio de Phil Spector, que insistia em fazer um disco do quarteto. Parecia perfeito: o produtor lendário que lapidou boa parte das músicas que os Ramones amavam, disposto a fazer um álbum deles? Não tinha como dar errado. Mas deu, e bastante. Não bastasse Spector estar enlouquecido pelo abuso de drogas (a ponto de apontar uma pistola para os integrantes da banda e sua equipe de apoio, impedindo-os de sair de sua mansão), ele tinha muito mais interesse em Joey do que nos demais. Além disso, Spector não soube trabalhar a energia bruta das composições mais pesadas, e a banda queria fazer sucesso a todo custo e tentava sem êxito soar pop. O resultado é um disco esquisito, tocado em grande parte por músicos de estúdio, já que Dee Dee se recusou a aguentar as sandices do produtor (“Até hoje não sei como ‘End of The Century’ foi feito nem quem tocou o baixo”, contaria Dee Dee, anos mais tarde, em sua autobiografia), enquanto Johnny e Marky gravaram apenas bases que foram complementadas ou mesmo substituídas pelo trabalho de músicos de estúdio. A presença de Phil também afastou Tommy, que ficaria de fora dos discos da banda até “Too Tough to Die” (1984). Nem tudo são espinhos, entretanto: “Do You Remember Rock’n’Roll Radio?”, um queixume sobre o rock estar morrendo (esse papo é velho, leitor…), é uma jóia, retrô e eterna ao mesmo tempo. “Chinese Rocks”, parceria de Dee Dee com Johnny Thunders, também é ótima, apesar de inferior à gravada originalmente pelos Heartbreakers. A cover de “Baby, I Love You” exagera um pouco na sacarose, mas nem isso afeta sua beleza. “I’m Affected” é um exemplo do que o álbum poderia ter sido se Spector tivesse entendido o peso da banda. “I Can’t Make It on Time” é uma belezinha sessentista, e “Danny Says”, uma sentida canção sobre sentir-se só na estrada, é o momento onde o gênio de Spector se faz sentir, valorizando uma das mais belas composições dos Ramones. Aliás, “End of The Century” foi o último álbum dos Ramones em que as canções foram creditadas coletivamente.

Bônus da edição de 2002: “I Want You Around” reaparece, agora na mixagem final, e demos de “I’m Affected”, “Danny Says”, “Do You Remember Rock’n’Roll Radio?” e das descartadas (e boas) “Please Don’t Leave” e “All the Way”. Há ainda um promo radiofônico lançado à época de seu lançamento original.

Sucessos: “Do You Remember Rock’n’Roll Radio?”, “Chinese Rocks”, “Rock’n’Roll High School”, “Baby, I Love You” (que gozou de pequeno sucesso nas paradas do Reino Unido).

Nota: 6

Pleasant Dreams (julho de 1981)
Traumatizados pelo fracasso comercial e artístico de seu álbum antecessor, os Ramones começaram uma disputa interna por poder, na qual Joey levou uma discreta vantagem. Para piorar, Johnny começou a sair com Linda Danielle, a namorada de Joey, até que esta efetivamente o deixou para se casar com o guitarrista. Ambos cortaram relações pessoais e jamais reatariam. Para piorar, Dee Dee estava imerso no vício em drogas legais e ilegais, especialmente heroína. Ainda assim, assinou cinco canções do álbum, com Joey entregando as outras sete. A gravadora Sire empurrou o produtor Graham Gouldman, integrante da banda 10cc (“I’m Not in Love”, lembra?), goela abaixo, mesmo com a banda insistindo em ter Steve Lillywhite nos consoles (!). Johnny desprezaria a produção do álbum, e os fãs mais punk reclamam até hoje do que dizem ser falta de punch, mas a verdade é que “Pleasant Dreams” funciona muito bem. É o trabalho mais pop dos Ramones, com especial cuidado nos vocais – basta ouvir os coros de “Don’t Go” ou a impecável performance de Joey em “7-11”. Gouldman tirou a sujeira, mas não o pique, tornando até canções perturbadas como “You Didn’t Mean Anything to Me” e “You Sound Like You’re Sick” (ambas de Dee Dee) em gemas power pop – embora pese um pouco a mão na excessivamente new wave “It’s Not My Place (in the 9 to 5 World”), que mais parece Blondie com os vocais de Joey. Essa última, junto com o single “We Want the Airwaves”, renderam clipes datados e risíveis. E até hoje permanece a dúvida se “The KKK Took My Baby Away” foi composta por Joey como um escárnio a Johnny (ele seria a “KKK”, devido a suas posições de extrema direita): há depoimentos que dizem que a canção já existia antes de o guitarrista começar a sair com Linda . De qualquer forma, o vocalista emprestaria esse sentido de escárnio a ela em seus círculos mais íntimos.

Bônus da edição de 2002: certamente a melhor seleção de material extra das edições da Rhino. Há “Chop Suey”, com vocais de Debbie Harry, Kate Pierson e Cindy Wilson (as últimas duas do B-52’s); dois ótimos outtakes que seriam reaproveitados em discos futuros (“I Cant’t Get You Out of My Mind” e “Touring”) e demos para faixas que não vingaram: “Sleeping Trouble”, “Kicks to Try”, “I’m Not Na Answer” e “Stares in This Town”.

Sucessos: “We Want The Airwaves”, “The KKK Took My Baby Away”, “Sitting In My Room”.

Nota: 8,5

Subterranean Jungle (fevereiro de 1983)
Se o clima no disco anterior estava ruim, aqui era muito pior: Marky estava no pico do seu alcoolismo e faltava a ensaios e gravações (e quando aparecia, costumava errar tudo), Dee Dee seguia afundando, e Johnny, rancoroso com as infrutíferas tentativas de soar pop, assumia definitivamente o comando, deixando um apático e depressivo Joey em segundo plano. Johnny se orgulharia de fazer um disco mais pesado, mas a verdade é que, à exceção de “Psycho Therapy”, nem mesmo os fãs se lembram do que há no disco. O fato de abrir com duas covers (“Little Bit of Soul”, do The Music Explosion, e “I Need Your Love”, da banda The Poppees), e conter uma terceira mais para a frente (“Time Has Come Today”, dos Chambers Brothers), mostra o quanto a banda estava desajustada entre si. Vale dizer, porém, que tais covers formam o melhor do álbum, junto com a já citada “Psycho Therapy”. A baladinha “My-My Kind of Girl” também tem sua graça. O resto não é ruim, é apenas… ordinário (OK, é ruinzinho, sim). Marky foi expulso da banda durante as gravações. A bateria de “Time Has Come Today” foi gravada pelo músico Billy Rogers, mas quem aparece segurando as baquetas no clipe da canção é Richie Ramone, o substituto oficial que já começaria a tocar na turnê do disco. Walter Lure, do Johnny Thunder & The Heartbreakers, gravaria muitas guitarras no disco – as que Johnny não queria ou não conseguia tocar. Essa prática se tornaria uma constante nos discos seguintes, com Lure ou outros músicos executando os instrumentos.

Bônus da edição de 2002: melhoram bastante a qualidade final do disco, com o mix original de “Indian Giver” (outro cover, dessa vez da banda-de-um-sucesso-só 1910 Fruitgum Company), o outtake sessentista “New Girl In Town”, uma demo acústica de “My-My Kind of Girl” e demos das abandonadas “No One to Blame”, “Roots of Hatred”, “Burning Along” e “Unhappy Girl” (curiosamente, todas creditadas coletivamente à banda, como não mais faziam).

Sucesso: “Psycho Therapy”.

Nota: 6

Too Tough to Die (outubro de 1984)
Provavelmente o álbum dos Ramones feito nas condições menos tumultuadas (“tranquilas” jamais seria o caso). Dee Dee entrara na reabilitação e estava sóbrio havia meses, até mesmo fazendo exercícios físicos; Johnny seguia firme na direção da banda e ninguém parecia questionar muito isso; Richie trouxe um estilo próprio e totalmente diferente de seus antecessores; Joey lutava com um de seus piores períodos de alcoolismo e depressão, mas não interferia no processo de composição e colaborava tanto quanto podia. Além disso, a produção ficava novamente a cargo da dupla Ed Stasium e Tommy Ramone, e os dois ajudaram a banda a (quase) deixar de lado as tentativas pop para assumir um som mais pesado (com influência do hardcore, diga-se). Como consequência, “Too Tough to Die” é um álbum encorpado, mas também cheio de variações: Dee Dee assume a voz solo pela primeira vez, esgoelando-se em duas faixas, as velozes “Endless Vacation” e “Wart Hog” (essa com o refrão cantado por Richie). Também é a primeira (e única) vez em que os Ramones entregam uma faixa instrumental, “Durango 95” (de apenas 55 segundos) – que se tornaria a canção de abertura de quase todos os seus shows deste ano em diante. Outro debute é o do músico Daniel Rey, que tocaria guitarra em algumas faixas e se tornaria colaborador frequente da banda de 1987 para a frente. Richie contribui com uma composição sua, o punkinho “Humankind”, mas as melhores faixas são as que trazem novidades: a cadenciada “Mama’s Boy”, a climática balada hard “I’m Not Afraid of Life”, a garageira faixa-título e o solitário aceno pop (sintetizado, ainda por cima!) “Howling at the Moon (Sha-La-La)”, uma ode à maconha que foi lançada inicialmente em um compacto produzido por Dave Stewart (então nos Eurhythmics).

Bônus da edição de 2002: tão interessante e valorosa quanto a do disco anterior, a seleção compreende uma cover meio torta dos Rolling Stones (“Street Fighting Man”, uma canção que Joey amava), demos cantadas por Dee Dee (“Too Tough to Die”, com viradas de bateria e tudo; a hilária tentativa de se mostrar politicamente consciente “Planet Earth 1988”; “Endless Vacation” e “Danger Zone”), outras demos (“Daytime Dilemma”, “No Go”, “Mama’s Boy” – com notável performance de Richie – e uma “Howling at The Moon (Sha-La-La)” que supera a versão final), e as sobras “I’m Not an Answer”, “Smash You” e “Out of Here”.

Sucessos: “Too Tough to Die”, “Mama’s Boy”, “Howling at the Moon (Sha-La-La)”, “Wart Hog”.

Nota: 7,5

Animal Boy (maio de 1986)
O disco é quase todo comandado por Dee Dee, que assina, sozinho ou em parceria, nove das doze canções. São algumas de suas melhores composições, mas a produção de Jean Beauvoir (que tocara com os Plasmatics e Little Steven and the Disciples of Soul) erra feio, colocando timbres modernosos (para a época) e jogando fartas doses de eco, reverb e teclados onde estes não deveriam estar. A influência do hardcore continuava na faixa-título e nas tolas “Eat that Rat” (cantada pelo baixista) e “Freak of Nature”, só que isso não impedia que houvesse espaço para baladas, como a bela “Something to Believe In” e a chauvinista “She Belongs to Me” – ambas desvalorizadas pelos arranjos e pela produção, infelizmente. “Mental Hell” era uma impressionante contribuição de Joey, retratando seu inferno pessoal sem meias palavras, enquanto “Somebody Put Something In My Drink”, de Richie, era uma rock song perfeita para as rádios – que não a tocaram. Porém, o marco do disco para os fãs é “Bonzo Goes to Bitburg”, canção que provocou uma crise na banda: a letra criticava uma visita do então presidente Ronald Reagan a um cemitério militar nazista, e Johnny, republicano radical, não admitia que falassem mal “do melhor presidente que os EUA já tiveram”, segundo suas palavras. Johnny se recusou a gravá-la, mas a canção era excelente, e acabou virando single. No disco, ela é rebatizada como “My Brain Is Hanging Upside Down” a pedido do guitarrista, que também não aceitava o pejorativo apelido de “Bonzo” para o político criticado.

Sucessos: “My Brain Is Hanging Upside Down”, “Animal Boy”, “Somebody Put Something In My Drink”.

Nota: 6,5

Halfway to Sanity (setembro de 1987)
“Vai ser realmente heavy, hard e metal”, declarava Joey sobre o disco em sua primeira entrevista ao Brasil, numa edição da Bizz de 1987. Você consegue imaginar os Ramones fazendo metal? Escute “Garden of Serenity” ou “Worm Man” e constate o (lamentável) resultado. Na verdade, o que domina “Halfway to Sanity” é um hardcore genérico, como exemplificado nas tontas “Weasel Face” e “I Lost My Mind” (outro vocal solo de Dee Dee). A tentativa de “se modernizar” só dá certo em “I Wanna Live”, emocionante e poderosa canção sobre a luta de Dee Dee para resistir ao vício (ao qual não resistiria). O baixista, aliás, estava mais interessado em rap que em rock, o que – somado com novo período de abuso de drogas – começaria a causar seu afastamento da banda. Richie também pularia fora após o lançamento do disco, cansado de ser excluído na divisão dos lucros obtidos com merchandising da banda, mas ainda entregaria uma última composição, a britadeira clichezaça “I’m Not Jesus” (que tem até Pai Nosso rezado em latim no meio). Fora a citada “I Wanna Live”, os únicos bons momentos do disco seriam as três solitárias composições de Joey: a love song sessentista “Bye Bye Baby”, a sombria “Death of Me” e a delicinha bubblegum “A Real Cool Time”.

Sucessos: “I Wanna Live”, “Bye Bye Baby”.
Nota: 4,5

Brain Drain (maio de 1989)
O disco foi saudado pela crítica como um retorno à grande forma dos Ramones, e a faixa “Pet Sematary” foi um grande sucesso radiofônico em vários países – a canção foi feita sob encomenda para a trilha do filme “Cemitério Maldito”, já que Stephen King, roteirista do filme e autor do livro no qual ele é baseado, é fã declarado dos Ramones. É realmente um bom álbum, apesar da produção de Bill Laswell deixar a bateria muito à frente na mixagem. Por outro lado, Laswell captaria a melhor performance vocal de Dee Dee, que canta quase em tom bluesy no pub rock “Punishment Fits the Crime”. O baixista novamente seria encarregado da maior parte das composições, mas não aguentava mais a pressão para escrever canções, nem o controle de Johnny, tampouco sair em turnê com a banda. Como resultado do descontentamento, faltou à maior parte das sessões de estúdio, e o baixo acabou sendo gravado majoritariamente por Daniel Rey (que é creditado como co-autor de cinco das 12 faixas). Marky dividia, pela primeira vez, a autoria de canções, com Rey e ou outros Ramones (“Learn to Listen” e “All Screwed Up”); Joey, por sua vez, contribui pouco: já sentia os primeiros sintomas do linfoma que viria a vitimá-lo em 2001. Havia reaproveitamentos: “Merry Christmas” já havia saído como lado B do single “I Wanna Live”, em 1987, e “Can’t Get You Outta My Mind” era uma regravação de uma sobra de “Pleasant Dreams” sutilmente rebatizada. Ambas boas, mas havia coisa boa entre as novidades: “I Believe In Miracles” se tornou uma favorita dos fãs (de bandas covers brasileiras…), o cover de Freddy Cannon, “Palisades Park” (escrita pelo picareta Charles Barris, autor do livro “Confissões de uma Mente Perigosa”), o power pop “Come Back, Baby”, e as já citadas “Punishment Fits the Crime” e “All Screwed Up”. O selo Captain Oi! relançaria o álbum em CD com uma faixa bônus: uma mixagem diferente para “Pet Sematary” (a ”Bill Laswell version”), sem tantos efeitos nos vocais, sem teclados e com outro tratamento de guitarras.

Sucessos: “Pet Sematary”, “I Believe in Miracles”, “Merry Christmas (I Don’t Want to Fight Tonight)”, “Palisades Park”.

Nota: 8,5

Mondo Bizarro (setembro de 1992)
Primeiro disco de estúdio com CJ, o baixista jovem que trouxe uma nova energia muito necessária à banda, já exausta das turnês incessantes (que efetivamente garantiam sua sobrevivência) e bastante desgastada na separação entre “Johnny e o resto”. O garoto já começava assumindo o vocal em duas faixas – em parte pela má forma física de Joey (cuja voz falhava com frequência ao vivo, devido à sua doença), em parte pelo desejo de Johnny em ter um vocalista que ele pudesse controlar. Uma dessas canções, “Strength to Endure”, se tornaria um hino para os fãs. Tratava-se, na verdade, de uma canção muito pessoal de Dee Dee, que a vendeu junto com outras duas (“Main Man”, também cantada por CJ, e “Poison Heart”, da trilha de “Cemitério Maldito 2”) porque estava falido devido ao vício, e desesperado atrás de dinheiro – anos mais tarde, o baixista se diria “roubado” nessa negociação. Ter recorrido ao antigo companheiro e ao baú de canções (“Touring”, “It’s Gonna Be Alright” e “Censorship” eram canções rejeitadas para discos da década anterior) para garantir metade do disco mostra que a criatividade não aparecia com facilidade naqueles dias. Ainda assim, há ótimas canções novas, todas de Joey, como a quase surf song “Heidi Is a Headcase” (outra personagem feminina para se somar às clássicas Judy punk, Sheena punk rocker e Suzy headbanger), a pesada “Cabbies on Crack” (com um solo de Vernon Reid, do Living Colour, enterrado na mixagem final) e a linda “I Won’t Let It Happen”, uma balada à Kinks. Duas composições de Marky apareciam sem muito brilho (“The Job that Ate My Brain” e “Anxiety”), e ainda havia um cover dos Doors, “Take It as It Comes”. Muitos fãs criticam a produção de Ed Stasium, agora condicionada a rock de estádios, depois de haver produzido discos de sucesso para Living Colour e Smithreens. De fato, a sonoridade big rock não se adequa tão bem aos Ramones, mas Stasium conseguiu deixar esse cata-cata de canções com um clima final arejado e coeso. Foi o álbum mais vendido da banda no Brasil, chegando a disco de ouro – o que, na época, equivalia a 100 mil unidades vendidas. Algumas edições em CD trazem o tema do primeiro desenho animado do Homem-Aranha (“Spider-Man”), originalmente gravada para a compilação “Saturday Morning Cartoon’s Greatest Hits”, como faixa-bônus.

Sucessos: “Strength to Endure”, “Poison Heart”, “Censorshit”, “Touring”.

Nota: 8

Acid Eaters (dezembro de 1993)
Como os Ramones sempre tinham mostrado alta qualidade na realização de covers, era de se esperar que “Acid Eaters”, inteiramente dedicado a elas, fosse um discaço. Mas as duas primeiras faixas já destruíam a ilusão: “Journey to the Center of the Mind”, original dos Amboy Dukes, vem cantada por CJ e embalada numa roupagem “indie 90”, enquanto nem a participação de Pete Townshend nos vocais salva a aguada versão de “Substitute”, sucesso do Who. Culpa do produtor Scott Hackwith, que queria “atualizar” a banda para a geração grunge, ou dos próprios Ramones? Possivelmente, um misto dos dois, já que tanto Johnny como CJ admitiriam anos depois que eles não conseguiam acertar o andamento ou o arranjo (ou ambos) de várias músicas, citando “Somebody to Love” (do Jefferson Airplane) como o exemplo mais gritante. Desencontrada, a banda não honra suas próprias raízes musicais, e chega até a estragar clássicos pop como “Surf City” (Jan & Dean) e “Seven and Seven Is” (Love). Salvam-se canções mais emocionais, como “When I Was Young” (Eric Burdon and The Animals), “Out of Time” (Rolling Stones) e “Can’t Seem to Make You Mine” (The Seeds), nas quais Joey mostra seu melhor lado intérprete. E “My Back Pages” (Bob Dylan) é óbvia, mas funciona. E só. Havia rumores de que seria o último álbum da banda. Felizmente não foi. A edição japonesa do CD trazia ainda ”Surfin’ Safari”, dos Beach Boys.

Sucessos: “Journey to the Center of the Mind”, “Substitute”.

Nota: 4,5

¡Adiós, Amigos! (julho de 1995)
Pensado desde o princípio para ser o último álbum da banda, poderia ter sido um disco preguiçoso ou excessivamente reverente (ou autorreferente). Em vez disso, a simplicidade toma conta, com riffs diretos, e uma produção que garante corpo e volume sem descaracterizar o som – embora o andamento tenha sido sensivelmente reduzido para se adequar às condições de saúde de Joey. O cantor estava bastante debilitado, e por isso CJ cantaria quatro faixas, todas compostas por Dee Dee, à exceção de “Scattergun” (de sua autoria, e com mais cara de Offspring do que de Ramones). Ainda assim, é Joey quem entrega os momentos que fazem o disco: a genial balada psicodélica “She Talks to Rainbows” e a comovente “Life’s a Gas”, uma senhora chupação (homenagem?) à canção homônima do T. Rex. Méritos também para sua atuação em temas comprados de Dee Dee (as pesadas “It’s Not for Me to Know” e “Born to Die in Berlin”) e de Johnny Thunders & The Heartbreakers (a empolgante “Baby, I Love You”). Há outro bom cover – “I Don’t Want to Grow Up”, de Tom Waits. A edição japonesa do CD traria como bônus mais covers: do Motörhead (“R.A.M.O.N.E.S.”, na voz de CJ) e, novamente, “Spider-Man”.

Sucessos: “I Don’t Want To Grow Up”, “The Crusher”.

Nota: 7

CARREIRAS SOLO

Fora Johnny e Tommy, os demais Ramones tiveram uma extensa carreira musical paralela à banda. A seguir, uma listagem brevemente comentada para cada integrante – à exceção do efêmero Clem Burke.

Joey Ramone: mesmo quando os Ramones ainda estavam atuantes, Joey não se furtava em colaborar em gravações de outros artistas. Ele se sentia feliz com o reconhecimento de bandas mais novas, e também ficava mais confortável em estúdio do que no palco, devido às complicações do linfoma. Em 1985 cantou, junto com Bruce Springsteen, Afrika Bambaataa, Lou Reed e outros – no single “Sun City”, que repudiava o regime sul-africano do apartheid. Nos anos seguintes gravou faixas com Holly and The Italians, General Johnson, Die Toten Hosen, The Nomads, Spacemaid, Blackfire e outros. Em 1994, sob o nome de Sibling Rivalry, gravou um EP de três faixas com seu irmão, Mickey Leigh, “In a Family Way”, lançado pela Alternative Tentacles.

Nos intervalos de seu tratamento contra o linfoma, Joey trabalhou em faixas para fazer sua estreia solo. Viria a falecer em abril de 2001, e o primeiro disco a levar seu nome, o single “Merry Christmas (I Don’t Want to Fight Tonight)” (depois incluído no EP “Christmas Spirit… In My House”), sairia apenas em dezembro deste mesmo ano, trazendo uma versão mais delicada da canção ramônica. Em 2002, o álbum “Don’t Worry About Me” causou comoção, mas a verdade é que, fora a arrepiante faixa-título, a certeira “Stop Thinking about It” e o cover punk para “What a Wonderful World”, não há outras canções memoráveis. Embora muitas sejam reveladoras de sua luta contra a terrível enfermidade que o vitimou, o resultado emociona mais pela ligação do fã com o cantor do que pela obra musical. Já “… Ya Know?” foi lançado apenas em 2012, e compila faixas inacabadas, que foram concluídas com gravações adicionais de amigos e músicos de estúdio. Vale mais como documento histórico do que como disco acabado (há canções nas quais não havia nada além da voz guia original, ainda com “la-la-las” e “oh-oh-ohs” à guisa de letra), ainda assim é mais revelador que seu antecessor, pois representa melhor a ampla gama de estilos nos quais Joey gostava de se arriscar, do bubblegum ao folk, do rock-farofa a baladas à T. Rex.

Entretanto, o melhor trabalho de Joey pós-Ramones é “She Talks to Rainbows”, EP de 1999 de Ronnie Spector produzido por ele e por Daniel Rey. Fã devotado das Ronettes, Joey convidou a cantora principal da banda para voltar ao estúdio e gravar cinco faixas. Ainda que envelhecida, a voz de Ronnie brilha com toda sua força, e os produtores sabem dar os arranjos certos para valorizá-la. Há duas versões dos Ramones, “Bye Bye Baby” (em dueto com Joey) e a faixa-título, além de covers de Beach Boys, Johnny Thunders (“You Can’t Put Your Arms Around a Memory”, com Joey nos vocais de apoio) e Ronettes.

Johnny Ramone: entre os fãs, correu por anos a lenda de que, ao final do último show dos Ramones, Johnny tirou sua guitarra dos ombros e deu-a a Eddie Vedder (que seguiu a banda em várias turnês), dizendo: “Fique com ela. Eu não preciso mais”. Posteriormente, pessoas próximas à banda duvidaram do fato, dizendo que ele jamais deixaria de ganhar dinheiro se tivesse a oportunidade, e que teria vendido o instrumento ao vocalista do Pearl Jam. Lenda roqueira à parte, o fato é que Johnny se afastou completamente da música. Chegava a dizer que, após aposentado, nunca mais tocou guitarra. A única exceção teria sido sua participação no álbum “A Special Tribute to Elvis” (2000), dos Swing Cats, banda formada pelos ex-Stray Cats Lee Rocker e Slim Jim Phantom com o Motörhead Lemmy Kilmister. Johnny deixa sua assinatura guitarrística em duas faixas, “Good Rockin’ Tonight” e uma “Viva Las Vegas” instrumental. Em setembro de 2004, Johnny faleceu devido a um câncer de próstata.

Dee Dee Ramone: o primeiro disco do baixista, “Standing on the Spotlight”, saiu em 1989 creditado a Dee Dee King, e sua ruindade já faz parte do anedotário rock’n’roll. Muito influenciado pelo rap, o baixista tentou inserir elementos do gênero no meio de suas indissociáveis raízes punk e pop. Saíram algumas faixas bizarras misturadas a alguns roquinhos, e o pouco que poderia soar simpático é destruído pela produção entupida de clichês oitentistas. Antes disso, mas no mesmo “conceito”, havia saído o single “Funky Man”, que rendeu um dos clipes mais involuntariamente engraçados do século passado.

Em 1994, fora dos Ramones havia cinco anos, lançou, sob o nome Dee Dee Ramone I.C.L.C., os toscos “Chinese Bitch” (EP) e “I Hate Freaks Like You” (LP), sendo que do último sairiam ”Makin’ Monsters for My Friends” (com participação de Nina Hagen) e “It’s Not for Me to Know”, que os Ramones regravariam em “¡Adiós, Amigos!” – a edição argentina lançada pela Sick Boy Records compila os dois registros em um só CD. “Zonked!”, de 1997 e primeiro creditado apenas como Dee Dee Ramone, é muito melhor, com um sabor de americana e inspiração pop – pense que “Never Never Again” e “Disguises” não fariam feio em um disco do Teenage Fanclub! Os vocais ficam a cargo de Dee Dee, agora na guitarra, e de sua esposa, Barbara Zampini, baixista e companheira em todos os discos que se seguiriam. Produzido por Daniel Rey e com Marky Ramone na bateria, o disco honra a tradição ramônica, e traz Joey no vocal de uma faixa, “I Am Seeing UFOs”, que bem poderia ter se tornado um hit da banda se constasse em um álbum do quarteto. Lux Interior, dos Cramps, também faz bonito em “Bad Horoscope”.

O seguinte, “Hop Around” (2000), deita mais preguiçosamente na cama ramônica, mas é interessante para os fãs – vale correr atrás do vinil, que tem uma nova versão de “Chinese Rocks” no lugar da canção “Born to Lose”, presente no CD. Já “Greatest & Latest”, do mesmo ano, é um caça-níqueis no qual ele regrava hits dos Ramones. Em 2001, Dee Dee contribuiria com uma terrivelmente sincera versão de “Negative Creep”, do Nirvana, para o disco-tributo “Smells Like Bleach” – nem Kurt Cobain soava tão autodepreciativo. Outro tributo que participaria seria “A Punk Tribute to Metallica”, com uma “Jump In The Fire” infeliz. Em 2002, sairia um single em parceria com o Terrorgroupe, o despretensioso “Youth Gone Mad featuring Dee Dee Ramone”, cujo título autoexplicativo dá a letra: parecem moleques se divertindo numa jam com o tiozão roqueiro. Lamentavelmente, esse seria o ano em que uma overdose de heroína finalmente daria às drogas sua incontestável vitória na luta do músico contra o vício.

Na Itália, onde a pirataria não é crime, saíram vários bootlegs de Dee Dee. Dois deles, com sobras de estúdio, lados B e gravações toscas, são bem procurados pelos fãs: um intitulado apenas “Dee Dee Ramone Solo EP”, e outro, “I (Still) Hate Freaks Like You”.

Tommy Ramone: Tommy ficou responsável por administrar o espólio da banda após seu final, e o fez muito bem. Porém, pouco apareceu em palcos e estúdios. Fora a gravação com o The Bowery Electric Crew (veja alguns parágrafos abaixo), lançou apenas um disco com a dupla de bluegrass que formou com a musicista Claudia Tienan. Tommy tocava banjo (muitíssimo bem) e cantava, e o álbum – batizado com o nome do duo, Uncle Monk – é uma pequena pérola cult. Um câncer levou o baterista, último remanescente da formação original, em julho de 2014.

Marky Ramone: se alguém é o “operário padrão” do rock, este é Marc Bell. Ele já tinha gravado com as bandas Dust, Estus e Richard Hell and The Vodoids antes de entrar para os Ramones. Após o fim destes, tocou em álbuns de seus companheiros Joey e Dee Dee, lançou dois (fraquíssimos) discos com a banda Marky Ramone & The Intruders, um epônimo em 1996 e “The Answer to Your Problems?” em 1999; tocou num EP da ex-Runaways Cherie Currie (na faixa “Cherry Bomb”) em 2007; participou da encarnação caça-níqueis do Misfits (com o baixista Jerry Only e o ex-Black Flag Dez Cadena na guitarra) que lançou o álbum de covers “Project 1950” em 2003; gravou vários singles com os nomes Marky Ramone & The Speedkings (que teve dois álbuns, “Ni If’s, And’s or But’s”; e “Legends Bleed”) e Marky Ramone’s Blitzkrieg, um álbum com o Teenage Head… Até no Brasil Marky gravou: um show com os Raimundos, toscamente registrado, virou o grosso do disco “Éramos 4” (2001), lançado após a saída do vocalista Rodolfo; fez ainda “Tequila Baby & Marky Ramone Ao Vivo” (2005). Em ambos os casos, sua participação é exclusivamente nos muitos covers dos Ramones presentes nos discos.

CJ Ramone: assim como Marky, vive alegremente do legado da banda. Antes dos Ramones, lançou dois discos, hoje raríssimos, com a banda de farofada suburbana Guitar Pete’s Axe Attack, “Dead Soldier’s Revenge” (1985) e “Nightmare” (1986). Depois que os Ramones se separaram, montou os Los Gusanos, que fizeram um LP epônimo e dois EPs; montou ainda os Warm Jets, que lançaram um compacto antes de mudar o nome para Bad Chopper, que lançaria um único álbum. Tudo um genérico meio sem graça da banda que o deixou famoso. Mas em 2012, fez seu primeiro solo, “Reconquista”, e mostrou mais personalidade, ainda que mantendo a verve ramônica. “Last Chance to Dance” saiu em 2014 e segue a simpática linha de seu antecessor. Fez ainda participações vocais em gravações das bandas The Independents (“Love Sucks”) e Bien Desocupados (uma cover de “Punishment Fits the Crime”).

Richie Ramone: tinha participado de um álbum do Velveteen em 1983, “After Hours”, antes de se juntar aos Ramones. Ainda teve tempo de colaborar no disco solo de Fred Schneider, dos B-52’s, em 1984. Depois que deixou o quarteto, passou uns tempos difíceis e chegou até a trabalhar como carregador de tacos de golfe e músico de cruzeiros de turismo. Em 2008, ele ganhou direitos sobre as canções que compôs com os Ramones, o que o impulsionou a novos projetos – chegou até a compor uma peça clássica para a orquestra californiana Pasadena Pops. Em 2013, fez seu próprio álbum, “Entitled”, no qual regravou muitas de suas composições para os Ramones e também coisas novas – infelizmente, tudo soando como um hard rock punkificado, forçado e sem charme. Tocou ainda nas bandas Gobshites e Rock’n’Roll Rats, que lançaram discos também em 2013. É o único Ramone a tocar no segundo de Joey, … “Ya Know?”.

The Ramainz: projeto montado em 1996 por Dee Dee (guitarra e voz), sua esposa Barbara (baixo) e Marky (bateria), que em seu primeiro ano contou também com CJ (guitarra e voz), que depois deu lugar a Ben Trokan, guitarrista que já havia tocado com os Intruders. Era, pura e simplesmente, uma banda cover – mesmo que, em dado momento, tivesse três membros originais fazendo parte dela. Seu único álbum, “Live in N.Y.C.” saiu em 2002 e é absolutamente desnecessário – para não dizer constrangedor. Com a morte de Dee Dee, a banda chegou ao fim.

The Bowery Electric Crew: o músico nova-iorquino Jed Davis compôs uma homenagem a Joey Ramone em 2003, “The Bowery Electric”, e conseguiu gravá-la com a participação de Marky, CJ e Tommy (que também produziu a faixa), além de Daniel Rey. A gravação – histórica e emocionante, com uma simplicidade pop de dar gosto – foi lançada no ano seguinte pelo selo espanhol No Tomorrow em um disco chamado “The Bowery Electric EP (A Tribute to Joey Ramone)”, que continha ainda registros das obscuras bandas Goin’ Places e Suzy & Los Quattro.

COLETÂNEAS

“Ramones Mania”, de 1988, foi a primeira compilação oficial, e o único lançamento da banda a ganhar disco de ouro nos EUA até a honraria ter se repetido com o álbum de estreia em 2014. Originalmente comercializado em vinil duplo, foi sucesso também em CD, e trazia uma seleção bastante justa dos maiores sucessos até então, ainda que compreensivelmente mais focada nos quatro primeiros discos. Na era pré-internet, os fãs valorizavam a chance de ter as versões de single de “Sheena Is a Punk Rocker”, “Howling at The Moon (Sha-La-La)” e “Needles and Pins” (essa, ainda melhor que a do disco “Road to Ruin”), um take alternativo de “Rock’n’Roll High School” e o lado B “Indian Giver” misturados aos hits. O icônico clipe de “I Wanna Be Sedated”, com a banda impassiva enquanto uma insana algazarra acontece atrás deles, foi criado para promover essa coletânea. O Japão chegou a ver o lançamento de um “Ramones Mania 2”, que pretendia começar de onde a anterior parou, porém suprimia as faixas de “Brain Drain”. Fora esse deslize, a lista de temas é boa, ainda que sem surpresas ou novidades.

Num período em que os discos originais estavam fora de catálogo (1990), a dobradinha “All the Stuff (And More!)” fazia sentido: o volume 1 compilava os dois primeiros álbuns mais quatro faixas bônus, e o segundo trazia “Rocket to Russia” e “Road to Ruin” e, novamente, quatro extras. No caso do primeiro eram as demos de “I Can’t Be” e “I Don’t Wanna Be Learned / I Don’t Wanna Be Tamed”, mais “California Sun” e “I Don’t Wanna Walk Around with You” ao vivo; no segundo, demos de “Slug”, “I Want You Around”, “I Don’t Want to Live This Life (Anymore)” e “Yea Yea”. Hoje, é recomendada apenas para completistas – mais pelos ótimos encartes do que pelas faixas a mais, que podem ser encontradas em outras compilações ou nas edições relançadas pela Rhino.

A gravadora Chrysalis não teve pudor em explorar seu catálogo ramônico e lançou várias coletâneas: a insuficiente e injustamente titulada “Best of the Chrysalis Years” (2002, relançada em 2004 como “The Best of the Ramones”); a excessiva “The Chrysalis Years”, um CD triplo (sendo que um é ao vivo), também de 2002; e “Essential” (2007). Nenhuma trouxe nada de novo, concentrando-se apenas em agrupar, em diferentes ordens e seleção ligeiramente distinta, canções do período compreendido entre “Brain Drain” e “Greatest Hits Live”. “Masters of Rock”, parte de uma série de coletâneas padronizadas, saiu em 2001 sob o selo da EMI, dona da Chrysalis, cobrindo o mesmo período e não fazendo o mínimo sentido, com uma seleção pra lá de duvidosa. “Greatest Hits” é uma roubada cometida pela Warner: vinte faixas pinçadas dos seis primeiros álbuns, mais “Pet Sematary” e “Wart Hog”. Esqueça.

“Hey! Ho! Let’s Go: The Anthology” (1999) é um CD duplo com faixas de todos os discos, à exceção de “Acid Eaters”. Para alguém que quer ter uma “geral” da banda e sentir o clima de cada disco, é de longe a mais indicada. Muitas das tiragens saíram num pack que trazia um encarte de 80 páginas assinadas por David Fricke (da revista Rolling Stone) e Danny Fields (ex-empresário da banda). Vá atrás dessa.

“Loud, Fast Ramones: Their Toughest Hits” tem a mesma pretensão do disco acima citado, mas o fato de ser um CD simples faz com que muita coisa boa fique de fora, mesmo que tenha sido tudo selecionado pelo próprio Johnny Ramone. As primeiras 50 mil cópias continham um CD bônus, “Ramones Smash You: Live ’88”, com oito canções gravadas em um show em Londres. É o único registro oficial de Richie ao vivo.

A caixa “Weird Tales of the Ramones” é o sonho do ramonemaníaco: três CDs (totalizando 85 faixas), o DVD “Lifestyles of the Ramones” (veja Filmes e Vídeos, mais adiante), uma HQ sobre a banda, óculos 3D e um cartão postal. O pacotão foi lançado pela Rhino em 2005.

OUTROS DISCOS

“The Ramones Family Tree” é um CD duplo que traz um bom apanhado do que os integrantes fizeram após o fim da banda. Os discos solo de Joey ficam de fora, mas há gravações que ele produziu ou nas quais cantou (até um cover de John Cage aparece!), além de faixas de Dee Dee solo, Bad Chopper, Marky Ramone & The Intruders, Uncle Monk e The Bowery Electric Crew, e outras que possam contar com um Ramone no meio – como a regravação que Cherie Curie fez para “Cherry Bomb” com Marky na bateria, por exemplo. Interessantíssimo.

“The Ramones Heard them Here First” faz parte de uma série lançada pela Ace Records, que traz as gravações originais de canções que outros artistas celebrizaram. Elvis Presley, David Bowie e Dusty Springfield estão entre alguns dos contemplados pela boa sacada do selo. No caso dos Ramones, com tantos covers registrados, não tem como dar errado: são 24 faixas, que evidentemente não dão conta de todo o material regravado pelos nova-iorquinos, mas garantem uma boa festa.

DISCOS AO VIVO

Duas coisas eram garantidas em um show dos Ramones: volume e velocidade. O resto – técnica, paixão, surpresas – nem sempre aparecia. Porém, em uma boa noite, o quarteto promovia uma fonte inesgotável de adrenalina. É o que se constata em “It’s Alive” (1979), frequentemente mencionado em lista de melhores discos ao vivo de todos os tempos. São os Ramones, ainda com Tommy na bateria, tocando no reveillón do London Theatre em 31 de dezembro de 1977. A banda no auge, e bem gravada: os fãs não podem esperar registro melhor.

Outros dois títulos contemplam o mesmo período: “NYC 1978” foi lançado só em 2003, mas traz um dos últimos shows com Tommy, já em 1978, mas a lista de faixas pouco difere de “It’s Alive”. Foi relançado em 2004 com o título “Live, January 7, 1978 At The Palladium, NYC”, e com uma capa diferente. Já “You Don’t Come Close” foi gravado em 1978 (e comercializado em um longínquo 2001) já com Marky nas baquetas, e tem apenas 11 faixas, além de um vídeo para “Rockaway Beach” como bônus. Apenas para completistas.

“Loco Live” (1991) é considerado por CJ e Johnny como o pior disco ao vivo dos Ramones. Embora muito popular no Brasil, é realmente um disco vergonhoso: soa como a mesma faixa tocada 30 vezes, com o andamento disparado e Joey, em péssima forma, errando tempos e melodias. Houve várias regravações em estúdio para “corrigir” as falhas de execução, mas a mixagem amadora planificou tudo e conferiu uma sonoridade insuportável. No Brasil, o vinil tinha três faixas a mais que o CD (“Havana Affair”, “Palisades Park” e “I Just Want to Have Something to Do”). Não que fizesse diferença. Os masoquistas podem procurar a edição dupla em CD da Captain Oi!, que traz todas as 37 baixas do show, realizado na Espanha.

“We’re Outta Here” documenta o último show, feito em 6 de agosto de 1996 no The Palace, em Los Angeles. Os fãs não se conformam até hoje que os Ramones não tenham encerrado suas atividades em sua Nova Iorque natal; por outro lado, havia propostas milionárias para que o último show fosse na Argentina. Segundo as biografias da banda, Joey teria vetado a opção sul-americana apenas porque sabia que negar a Johnny a oportunidade de ganhar tanto dinheiro por um show o aborreceria profundamente (o que de fato ocorreu); Johnny insistiu então tocar em Los Angeles para ficar perto de seus novos e famosos amigos, como Nicolas Cage, Johnny Depp e Vincent Gallo, deslumbrado que estava com a admiração deles. Polêmicas à parte, é um bom show, mesmo com Joey no limite de sua capacidade vocal. Há participações algo apagadas de Chris Cornell e Ben Shepherd (Soundgarden), Lars Frederiksen e Tim Armstrong (Rancid), e Lemmy (Motörhead). Dee Dee Ramone e Eddie Vedder também contribuem, mas suas participações – em “Love Kills” e “Any Way You Want It”, respectivamente – fazem muita diferença.

“Greatest Hits Live” é um caça-níqueis descarado: apenas 16 faixas, com várias macetadas de estúdio para equalizar instrumentos e corrigir os agora roufenhos vocais de Joey. Para induzir o fã a desembolsas uns trocados, duas faixas inéditas de estúdio, ambas covers: “R.A.M.O.N.E.S.”, do Motörhead (e cantada por CJ), e “Anyway You Want It” (do Dave Clark Five). Dispensáveis, como o disco todo, aliás.

FILMES E VÍDEOS

“Lifestyles of the Ramones” foi o primeiro lançamento, ainda em VHS e depois em DVD. No Brasil, era facilmente encontrado em bancas de revistas durante a febre dos “DVDs musicais de banca”, na primeira metade dos anos 00. Trazia vários clipes (quase todos até 1990), simples e divertidos, entremeados com entrevistas com a banda – que não convencia ao tentar manter o mito de “família feliz” – entremeados com depoimentos da banda e de admiradores tão diferentes como Debbie Harry, Little Steven, Chris Isaak e o pessoal do Anthrax. A versão que foi incluída na caixa “Weird Tales of the Ramones” atualizava o DVD com clipes dos anos 1990 e mais artistas dando depoimentos.

O filme “Rock’n’Roll High School”, dirigido por Allan Arkush, é bobo e datado, mas nem por isso chato. Diverte muito ver a canastrice de Joey, Marky, Johnny e Dee Dee (que teve terríveis dificuldades para dizer sua única fala: “hey! Pizza!”), adulados por um grupo de alunos rebeldes, todos fanáticos pela banda. É mais engraçado ainda se você pensar que o produtor Roger Corman queria que a banda em questão fosse o Cheap Trick, que declinou supostamente por problemas de agenda. A trilha sonora, disponível em CD, traz canções dos Ramones, claro (incluindo um medley de cinco faixas ao vivo), mas tinha também Nick Lowe, Brian Eno, Alice Cooper, Chuck Berry, Devo e outros artistas.

“We’re Outta Here”, de 1997, padece de uma edição que corta canções no meio e mostra momentos de descontração da banda com seus convidados, mas não dá para desprezar o registro do último show dos Ramones – ainda que o disco seja um documento mais digno e interessante (a filmagem é bem amadora). O poder de fogo da banda ao vivo – assim como a eventual lassidão instrumental, a adoração dos fãs latino-americanos e outros marcos do imaginário ramônico – é melhor documentado no DVD duplo “It’s Alive 1974 – 1996”, de 2007, que traz registros de diferentes shows e apresentações de TV durante todo o período em que a banda existiu. Ou seja: começa com uma precária filmagem no CBGB no ano de estreia da banda, e termina com três canções captadas no estádio do River Plate em 1996. Documento mais fiel da banda no palco não há.

“Ramones – Around the World” é um vídeo de 1993 que compila imagens captadas por Marky e sua câmera amadora. Muitas de suas cenas foram usadas no filme “Raw”, de 2004, em que o cineasta John Cafiero teve uma preocupação maior em contar uma história com os takes amadores de shows e bastidores filmados pelo baterista. Muitas dessas imagens, aliás, constariam também em “We’re Outta Here” e no clipe de “Touring”. Como todo vídeo do tipo, é mais indicado para fãs do que para neófitos ou admiradores ocasionais.

O mesmo não pode ser dito de “End of the Century: The Story of The Ramones”. Dirigido por Jim Fields e Michael Gramaglia, é recomendado para fãs de documentário, de música, dos Ramones, de estudos sobre a dificuldade de convivência entre seres humanos… Integrantes da banda, seus parentes e amigos, e o staff em volta dos Ramones dão depoimentos que mostram quão intensa, conturbada e veloz foi a trajetória da banda. Desde Richie, de terno e cabelo bem aparado, falando sobre sua saída, aos extras do DVD, com Tommy dizendo quem na verdade compôs cada canção dos primeiros discos, não faltam momentos para encantar (ou desiludir) os fãs, e apresentar a banda de uma maneira que, até então, não havia sido feita de forma tão crua. Indispensável.

BIOGRAFIAS

Cinco biografias sobre a banda foram lançadas no Brasil, duas delas escritas por ex-integrantes, cuja escrita reflete seus respectivos estilos de compor e tocar. “Coração Envenenado – Minha Vida com os Ramones” foi lançado pela editora Barracuda, esgotou a tiragem e não teve reimpressão. É a autobiografia de Dee Dee (em parceria com a jornalista Veronica Kofman), tão errática, rancorosa e inquietante quanto seu autor. Não é indicada para marinheiros de primeira viagem, já que a narrativa não é cronológica, omite períodos longos de tempo e apresenta personagens para depois se esquecer deles. Porém, é indispensável para os fãs, que nunca mais escutarão canções como “I Wanna Live”, “Chinese Rocks”, “I Believe In Miracles”, “53rd & 3rd” e outras da mesma forma – serão sempre testemunhos da dolorosa luta que o baixista vivia contra seus demônios.

Já “Commando” é, como diz seu subtítulo, “A Autobiografia de Johnny Ramone” (editora Leya Brasil), seca e direta como os riffs da velha Mosrite do autor. É a história da banda contada exclusivamente de seu ponto de vista, e se não é simpática, é sincera e elucidativa. Escrita durante os estágios finais de seu tratamento contra o câncer, tem os capítulos finais permeados pela iminência da morte e pelo deslumbramento com a amizade com celebridades – enquanto os demais trechos não economizam no pouco caso para falar da maioria de seus ex-companheiros (Dee Dee e CJ são as exceções). Tem ainda comentários do próprio Johnny sobre cada disco dos Ramones, e várias de suas listas de “maiores de todos os tempos” (incluindo a dos maiores republicanos), coisa que adorava fazer.

Monte Melnick era gerente de turnê dos Ramones e vítima preferencial das cruéis brincadeiras que a banda cometia na estrada. “Na Estrada com os Ramones” (Edições Ideal) é a sua versão da história, e talvez a mais apropriada para quem quer descobrir mais sobre os Ramones. Usando o formato de entrevistas consagrado em “Mate-Me Por Favor” (outro livro bastante recomendável para saber sobre os primórdios da banda), Monte e o jornalista Frank Meyer ajudam a equilibrar as vaidades e dão os devidos créditos para Tommy, CJ, Richie e o próprio Monte, que tiveram sua importância subestimada no mérito de manter a banda viva e contribuir com alguma renovação musical. Pode se argumentar que é uma defesa em causa própria, mas isso não tira o valor da obra.

“Hey Ho Let’s Go – A História dos Ramones” (editora Madras) também usa o mesmo formato, mas a tradução desleixada e a falta de revisão atrapalham bastante a leitura. O jornalista Everett True não apura boatos levantados por seus entrevistados, o que também depõe contra o livro. Por fim, “Eu Dormi com Joey Ramone” (editora Dublinense) é uma tentativa de Mickey Leigh, irmão de Joey, de reivindicar alguma parcela de responsabilidade pela fama do irmão. Porém, nem a ajuda de Legs McNeil (fundador da revista-zine “Punk!”, que documentou o início e o crescimento da cena de Nova Iorque) ajudou Mick a superar a inveja que ele tinha de Joey nem o ressentimento por ter fracassado em sua própria carreira. Leigh define a obra mais como um livro de suas memórias do que como uma biografia de Joey, porém a impressão que fica é que foi, na melhor das hipóteses, um “desabafo terapêutico” de alguém que olhou para seu passado e não gostou do que viu.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell

Leia também:
– Livro: “Coração Envenenado”, Dee Dee Ramone: “Triste, mas sincero e sem rodeios” (aqui)
– DVD: “End of Century, a História dos Ramones”: Uma família bastaste problemática (aqui)
– “Commando”, de Johnny Ramone, é um livro duplamente relevante (aqui)
– “Na Estrada com os Ramones” exibe um excelente acervo fotográfico da banda (aqui)
– “Everyone Loves You When You’re Dead’: Olhando os ídolos de perto (aqui)
– A mesma música: Ramones x Inocentes (aqui) Ramones x Wander Wildner (aqui)
–  “…Ya Know?”, Joey Ramone: farofadas desnecessárias e algumas pérolas (aqui)

Leia também:
– Discografia comentada: The Clash, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada: Sinéad O’Connor, por Renan Guerra (aqui)
– Discografia comentada: Babasonicos, por Leonardo Vinhas (aqui)
– Discografia comentada: Suede, por Eduardo Palandi (aqui)
– Discografia comentada: Alanis Morissette, por Renata Arruda (aqui)
– Discografia comentada: Pato Fu, por Tiago Agostini (aqui)
– Discografia comentada: Mogwai, por Elson Barbosa (aqui)
– Discografia comentada: Wander Wildner, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada: Foo Fighters, por Tomaz de Alvarenga (aqui)
– Discografia comentada: Morrissey, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada: Bob Dylan, por Gabriel Innocentini (aqui)
– Discografia comentada: Paul McCartney, por Wilson Farina (aqui)
– Discografia comentada: Elvis Costello, por Marco Antonio Bart (aqui)
– Discografia comentada: Echo and The Bunnymen, por Marcelo Costa (aqui)
– Discografia comentada: The Cure, por Samuel Martins (aqui)
– Discografia comentada: Leonard Cohen, por Julio Costello (aqui)
– Discografia comentada: Midnight Oil, por Leonardo Vinhas (aqui)
– Discografia comentada: Nick Cave, por Leonardo Vinhas (aqui)

11 thoughts on “Discografia comentada: Ramones

  1. Ótimo texto, fez uma avaliação justa dos discos da banda. Até vou ouvir melhor alguns deles para os quais não dava tanta bola.
    Só algumas correções: o primeiro disco dos Ramones foi lançado em 1976, “Mondo Bizarro” é de 1992 e “Acid Eaters”, de 93.

  2. Confesso que não escutei todas as músicas de todos os discos, mas do que eu já escutei, o favorito é o primeirão mesmo, a essência da banda está ali. Leave Home e Rocket to Russia também são praticamente impecáveis. Road to Ruin também é recheado de boas músicas (Needles and pins, Don´t come close, She´s the one, Go mental…) Daí em diante eu acho que a banda foi se esgotando, tornando-se repetitiva ou falhando ao tentar soar diferente, Mas preciso ouvir direito os outros discos, dos quais só conheço mais os “hits”.

  3. Ramones foi a banda responsável por eu me interessar por Rock,quando escutei a coletânea Ramones Mania que era do meu pai, desde então é uma das minhas bandas favoritas,fora que a contribuição dos caras pra música é imensa já que criaram um estilo que tem influenciado diversas bandas desde então. Meu disco favorito é o Its Alive pois ele reúne músicas dos 3 primeiros álbuns ,tocadas ao vivo que era onde o Ramones mostrava de verdade toda a força do som que a banda fazia.

  4. Eu conheço Ramones desde 1992,com o disco Mondo Bizarro.Eu vi no saudoso Clip Trip,da Gazeta o clipe de Poison Heart e fiquei pasmo com aquilo.Foi um dos primeiros clipes que vi,e fiquei chocado com aquela simplicidade e estética toda.Depois assisti no mesmo programa o Pet Sematary e foi muito bom também.Mas pulando no tempo,comprei em 2001 um poster da Bizz que tenho até hoje sobre a banda,não tão informativo quanto vi na matéria mas muito bom também,sobre a historia da banda e tal.Ai eu comprei o famigerado Greatest Hits da Warner,hehe,que tem todas as musicas ou quase todas e,vendo agora,vejo que preciso comprar os albuns de verdade e tal.Me surpreendi com a critica do Pleasant Dreams,porque sempre me falaram que é um disco ruim demais,mas pelo jeito não tanto.

  5. Das bandas que eu mais ouvi (e Ramones deve ter sido a número 1), esta é com certeza a que estou há mais tempo sem ouvir. E talvez por isso ler este texto tenha sido tão saboroso. Foi muito legal relembrar as músicas à medida que eu lia o nome delas, assim como ver o filme de momentos marcantes de minha vida que tiveram a participação dos Ramones. Muito obrigado pelo texto, Leonardo Vinhas. Vou ali ouvir meus CD’s antigos agora. Hey ho let’s go!

  6. A revisão foi bem explicativa e clara. Porém dar uma nota ruim para “Brain Drain” e “Mondo Bizarro” já é meio forçado não concorda ? Um registro da fase mais rápida e destruidora dos ramones como “Greatest Hits Live” ainda que seja verdadeiramente um caça-níqueis incompleto por ser metade de um show, não pode ser considerado dispensável. Jamais..

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *