Três livros: Goodman, Beatles, Jimmy Page

por André Fiori

“Strange Days”, Dean Goodman (Outpost Books)
Dean Goodman nasceu na Nova Zelândia. Em 1992, um filme de Oliver Stone (“The Doors”, visto quatro vezes seguidas) o convenceu a partir para os EUA, mas precisamente Los Angeles. Jovens de todo o mundo partem para L.A. em busca do estrelato, as expectativas de Dean eram modestas, e começando no jornalismo, cobrindo “qualquer coisa”, ele se firmou no meio musical. Esse “Strange Days” (2014), que tem o subtítulo “The Adventures of a Grumpy Rock’n’Roll Journalist is Los Angeles”, reúne algumas de suas melhores entrevistas, entremeadas com muito bom humor. O que fazer quando David Bowie, ao falar do irmão falecido, começa a chorar no meio da conversa? Como disfarçar ao engolir uma mosca durante a entrevista com Mike Love? Sorte que o Beach Boy o socorreu com sua garrafa de água… Nem todos os momentos foram tão acidentados, ainda bem. Além das entrevistas em si, Dean situa a época em que a conversa foi feita, não raro comparando as inúmeras vezes em que ele conversou com o artista durante os anos. E foram muitas, muitas conversas. Johnny Cash e June Carter (durante uma festinha de família na residência do casal), Iggy Pop, Ice-T, Steven Adler (Guns’n’Roses), Isaac Hayes, Billy Idol, Artimus Pyle (Lynyrd Skynyrd), John Cale, Gene Simmons, Garth Brooks, Melanie C (Spice Girls) e Ray Manzarek (The Doors), dentre outros, sempre com saborosas anedotas sobre os bastidores do jornalismo musical. Perfis de Aerosmith, Sex Pistols, Queen, INXS e Doors, combinando análise histórica com a verdade nua e crua. O livro revela detalhes sobre os clássicos da soul music escritos por Steve Cropper (guitarrista do Booker T & The MG’s), quanto Doug Yule ainda recebe de royalties pelos discos do Velvet Underground que ele participou (e sua mágoa por não ter sido chamado para a reunião de 1993) e de como Michael Nesmith, dos Monkees, praticamente “inventou” a MTV e não quis levar o crédito. Le-se sobre festas e premiações como a do “Rock’n’Roll Hall Of Fame”, às quais ele ia e voltava de ônibus (quase um crime em L.A.) e sobre o melhor funeral entre todos os que ele frequentou (o de Ray Charles). Além de ser chamado de “cuzão” por Phil Collins, é claro… “Strange Days” é uma delícia para quem curte cultura pop e gosta de um texto enxuto, bem humorado e principalmente muito bem escrito.

“Isaac Hayes me deu coragem para raspar a cabeça. Ele me convenceu de que, assim como ele, isso me ajudaria a fazer sucesso com as mulheres. Hayes faleceu em 10 de agosto de 2008, e eu escrevi o seu obituário. Quanto ao assédio feminino, para mim não chegou nem perto do previsto. Acho que ele esqueceu de dizer que fama, fortuna e talento também ajudavam…”

Leia trechos do livro: http://www.strangedaysbook.com/
Preço: US$ 7 (kindle) US$ 16 (impresso)

“Love Me Do: 50 momentos marcantes dos Beatles”, Paolo Hewitt (Editora Verus)
Ao se deparar com um livro como este, a primeira reação é de ceticismo. Afinal, o que será que ainda se pode ler sobre os Beatles que ainda não se saiba? Mas se você der uma chance a “Love Me Do”, lançado no Reino Unido em 2012 e com edição brasileira (e tradução de Leandro Woyakoski ) em 2013, vai perceber que sempre se pode encontrar um olhar diferente, e essa é a maior qualidade do texto de Paolo Hewitt. Jornalista inglês formado nas “categorias de base” do semanário New Musical Express, Hewitt escolhe 50 momentos-chave em toda a carreira da banda, desde o dia em que “John conhece Paul”, passando pela ascensão, separação, a série “Anthology”, até as mortes de John e George. Dá pra ver que funciona, pois em várias partes o leitor se pega descobrindo coisas que sempre estiveram ali, mas que não havia dado a devida atenção. Além de histórias de bastidores nem sempre divulgadas, as fotos também são bem escolhidas, fugindo do lugar comum. Mais um título para a sua biblioteca-beatle.

Sobre George:
“Harrison não sofreu o trauma vivenciado por McCartney ao deixar a banda. Na verdade, ele se sentia feliz e aliviado com a separação…”

“Ao comentar a invasão de sua casa, e a agressão que sofreu, até nesse momento demonstrou bom humor, dizendo:
– Ele não era um ladrão, nem veio fazer teste para entrar nos Traveling Wilburys…”

Preço: R$ 45

“Luz e Sombra – Conversas com Jimmy Page”, Brad Tolinski (Editora Globo)
Lançado mundialmente em 2012 (incluindo a edição nacional, com tradução de Érico Assim), “Luz e Sombra” reúne as entrevistas realizadas por Brad Tolinski (editor chefe da revista Guitar World) com James Patrick Page durante duas décadas, organizadas em ordem temática e cronológica. Normalmente, os livros sobre o Led Zeppelin se concentram nos excessos, vida na estrada, e o trinômio sexo-drogas-rock’n’roll, mas aqui essa parte é deixada de lado. Page trata apenas do que os fãs gostam e querem saber: composição, arranjos, ideias, influências, inspirações, e detalhes, muitos e saborosos detalhes da sua vida e sua história, dentro e fora do Led. O guitarrista demonstra muito bom humor, e não foge de nenhum assunto. O autor toma o devido cuidado para não deixar o papo descambar para informações técnicas que só interessem a músicos. Jimmy Page fala sobre equipamentos, modelos de guitarra, amplificadores, efeitos, técnicas de produção e gravação, mas de forma comedida e inserida no âmbito musical. Para fãs do Led Zeppelin (há quem goste de rock e não seja?), “Luz e Sombra” (uma das maneiras que Page define sua música) está esperando para ser devorado.

“Me convidaram a fazer uma colaboração com Sean Combs (P.Diddy) num remake de “Kashmir”. Ele não queria samplear, mas que eu tocasse com uma banda ao vivo. Tudo soava bem. Mas ficou ainda mais interessante para mim, porque ele gravaria as partes dele em Los Angeles, e faria um link via satélite comigo em Londres. Ele me ligou e disse que em certo ponto da música queria fazer uma modulação. Expliquei que como a guitarra era em afinação aberta, eu preferia tocar em Ré. Então sugeri que modulássemos para Mi. Ele ficou um instante em silêncio e falou : Cara, eu não entendo nada desse lance de Ré e Mi…. Eu achei a resposta dele ótima! Depois que gravamos, ele me disse que queria colocar uma orquestra junto, e falei: excelente, boa sorte! E não é que ele acabou sobrepondo duas orquestras para criar um efeito estéreo massivo? Ou seja: o cara pode não entender nada de Ré e Mi, mas a imaginação dele é fantástica…”

Preço: R$ 40

– André Fiori é colaborador de primeira hora do Scream & Yell e capo da loja Velvet SP.

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– “No Coração do Mar” é um belo trabalho que desafia lentamente o leitor (aqui)
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