Conexão Latina: Crema del Cielo

por Leonardo Vinhas

“Crema del Cielo” (“creme de céu”) é um sabor de sorvete de gosto duvidoso e procedência mais ainda. Até onde se sabe, só é encontrado na Argentina, onde uma banda independente adotou esse nome, dando margem a especulações que fazem crer que sua sonoridade é tão peculiar quanto a massa azulada que lhe serviu de “inspiração”.

Na verdade, Crema del Cielo é um sexteto de La Plata que filtrou suas influências britânicas de um jeito que só seria possível no país de Litto Nebia e Andrés Calamaro, e, como resultado, não soam nada britânicos. Mesmo recorrendo a melodias e arranjos bem trabalhados e a um humor cínico e ácido, a identidade forjada por eles é bem argentina, e ao mesmo tempo, nada típica.

Por isso, às vezes é preciso uma pequena “bula” para explicar certas idiossincrasias da banda. Como o rótulo que se deram, “britpop del barrio” (“britpop de subúrbio”, numa tradução livre). Fala Gabriel Rulli, vocalista, guitarrista e principal compositor: “Esse conceito tão contraditório nos parece muito engraçado. Foi uma invenção muito divertida de um jornalista”, ele avisa.

“A verdade é que sempre encontraram em nós um som britânico que não renegamos porque adoramos o rock e o pop ingleses em geral, principalmente pelo gosto pelas instrumentações, arranjos de vozes e melodias doces. Por outro lado, nossa origem é totalmente o contrário, somos pessoas da periferia, somos bem argentinos e nos sentimos profundamente latino-americanos e distantes de qualquer esnobismo ou tribo urbana. Somos gente simples que teve sorte de ter acesso a muita música e poder incorporá-la a nossa cultura”, conclui.

Com essa explicação fica mais fácil entender como chegaram à “Apostasía”, seu terceiro disco (ouça online), lançado em agosto de 2013 e de longe o melhor da banda (os outros dois são “Crema”, de 2008, e “Espiritu de Clase”, de 2010). Afinal, ali há uma balada roqueira setentista de inspiração tangueira (“Plaza Sarmiento”), divagações psicodélicas sobre tipinhos locais (“Entro en Pánico”, “Bit”) ou sobre o fervor pró-Papa Francisco (“Changuitas”).

Ao contrário dos discos anteriores, a guitarra só fala mais alto em “Un Éxito” (justamente uma piada sobre os sonhos de uma vida de excessos tão comuns entre os roqueiros aspirantes ao sucesso); as demais faixas trazem arranjos muitíssimo bem trabalhados, mas sem virtuose, com um entrelaçamento de instrumentos que ressalta mais a melodia e o clima que uma execução em particular. E à frente, um cuidado nas vozes pouco comum na Argentina (e raríssimo no Brasil, vale dizer).

A cereja do bolo fica por conta das letras, que podem conter versos como: “Você é totalmente beat / é um stone / sabe tocar Kinks / é uma mistura de Jesus com Edgar Allan Poe” (“Bit”); ou “Dá para fantasiar que é um protesto popular / se tem fila de um quarteirão e meio para voltar de táxi?” (“Volver en Taxi”); ou ainda “com os espíritos quero falar / eles estão pelo ar, e eu tenho wi-fi” (“Changuitas”). Poucos compositores conseguem sacanear os personagens e o clima da vida urbana tão bem.

Em um período ainda de colheita de frutos de “Apostasía”, e com planos de lançar um DVD, Gabriel, Fernando Gomblovsky (voz e guitarra), Leandro Giordano (teclados), Lautaro Ramirez (baixo), Eduardo Carreras (bateria) e Daniel Rulli (percussão) estão felizes, otimistas e humildes. Provavelmente por isso Gabriel estava tão bem humorado na conversa, mesmo tendo acabado de voltar de viagem: passara a noite no festival Music Is My Girlfriend, em Buenos Aires, onde sua banda se apresentou abrindo para os espanhóis Guadalupe Plata e Los Planetas e os brasileiros Boogarins.

Como surgiu “Apostasía”? Não é um disco conceitual, mas me parece haver uma ideia – ou melhor, uma estética – central que orienta o disco.
Na verdade, não está pensado como um disco conceitual nem tem uma estética muito pensada. É simplesmente produto de um momento em nossa composição, nossas vidas brincando com nossa arte. Só isso.

Porém ele soa mais ambicioso que os anteriores. Pra falar a verdade, quando os escutei pela primeira vez, os dois primeiros me soaram muito diferentes do “Apostasía”, mas agora já consigo ver semelhanças. Apesar disso, nota-se uma ambição claramente diferente, principalmente nos arranjos e na produção.
Não sei se é mais ambicioso porque sempre demos o melhor de nós mesmos. Acho que o lance foi ter mais experiência, mais tempo para trabalhar e uma ajuda maior na hora de gravá-lo. Gravamos o primeiro disco sem produtor, fomos bater na porta do estúdio Panda (N.: um dos mais concorridos de Buenos Aires) para pedir uma data de gravação e acabou que a técnica de gravação do turno que nos coube era uma mulher que gravava as canções do Disney Channel, e isso é bem perceptível. Até nos propuseram regravar o disco. No “Espíritu de Clase” já trabalhamos com um produtor amigo que pode refletir nosso som muito melhor. Acredito que “Apostasía” é simplesmente mais um degrau em nossa carreira evolutiva, por isso essencialmente continuamos soando como nós mesmos. Além disso, as canções de “Apostasía” são muito mais propensas a serem instrumentadas, e se não há mais instrumentações foi por falta de tempo ou de recursos.

As vozes parecem ter um papel muito importante na banda. São quase protagonistas, e seus arranjos são muito bem cuidados. Já rolou de vocês comporem uma canção começando pelas vozes? Porque parece que algumas melodias foram feitas para elas.
Em geral, componho as canções em casa, sozinho com meu violão, e o primeiro que faço é melodia, as letras vêm por último. Isso que você fala é bem certo, porque tudo gira ao redor das melodias da voz e adoramos arranjos vocais. Por sorte, todos sabem cantar e até temos feito ensaios de vozes, sem instrumentos. Observação muito boa, a sua, porque Crema del Cielo são melodias de vozes orquestradas.

As letras também são um destaque. E de todas de “Apostasía”, a que eu mais gosto é “Bit”. Tem muitas figuras assim no underground daí? Não faltam pessoas assim aqui no Brasil…
Aqui temos muitos disfarçados sentindo-se especiais e melhores que os outros simplesmente porque tiveram sorte de ter acesso a essa informação (N.: a cultura alternativa como um todo). Nós, por exemplo, gostamos de Jesus and Mary Chain, mas nem por acaso acreditamos que eles sejam melhores que Carlos Gardel ou Tom Jobim, nem que é necessário imitar como se vestem, se penteiam ou se drogam. Isso é do gosto de alguns que amam tudo que vem de fora, e acontece não só com a música. Isso é engraçado para nós.

Depois das perguntas elogiosas, vamos falar de algo incômodo: a capa do disco (risos) Quando eu peguei o “Apostasía” e vi aquela capa, pensei: “Que porcaria, parece um desenho de cassete hardcore ou de demo de metal de adolescente…” E claro, não tem nada a ver. Mas me explica de onde veio essa arte tão feia.
Concordo com seu conceito (risos). São várias explicações. A primeira é que imagem nunca foi algo da nossa praia e nunca demos a ela importância. Talvez seja um critério equivocado, mas acreditamos que o que realmente importa é a música, de modo que a capa do disco – acho que o formato disco logo será parte do passado, para minha tristeza – nunca foi muito importante para nós. A segunda é que tivemos que despedir nosso desenhista e amigo Javier Belza depois que ele me jogou uma garrafa na cara em um show.

Sério?
Totalmente sério. E tivemos que deixar a capa aos cuidados do nosso ex-baterista que mora na França, Marcelo Pilegi. Ele aceitou com prazer, e compôs a capa com fotografias em papel que ele tinha levado, desenhando em cima delas ou copiando-as. São momentos de nossa amizade como grupo, são anos acumulados e acho que, mais que uma capa de disco, ele fez uma catarse de sua própria melancolia: são seus amigos em sua cidade, tão distantes no tempo e no espaço…

Entendo. Mas conta melhor essa história da garrafa no rosto, por favor.
Javier Belza é nosso amigo, desenhista e artista plástico, um cara muito especial que fez o design dos dois primeiros discos. Para ele, qualquer coisa que tenha um mínimo sucesso se transforma imediatamente em algo descartável. Neste dia, estávamos tocando pela primeira vez em Buenos Aires com uma banda relativamente importante, o lugar estava cheio de gente e nós estávamos dando um show muito bom. Isto para ele foi sinônimo de sucesso. Eu só senti um golpe forte no rosto, era uma garrafa de plástico de um litro cheia de agua. Parei o show e desafiei o covarde que tinha jogado a garrafa a mostrar sua cara. Vejo então alguém surgindo das sombras e levantando a mão: “Fui eu”. Desci do palco para brigar com ele, mas quando me aproximei vi que era Javi! Ele foi retirado de imediato pela segurança do lugar. Os donos não podiam acreditar que se tratara de um amigo, de alguém do nosso entorno! E ele nunca se arrependeu do que fez nem pediu perdão, para ele tínhamos deixado de ser Crema del Cielo simplesmente porque estávamos tocando bem para muita gente na capital. Ele ainda vai nos ver de vez em quando e continuamos gostando dele, mas não pudemos continuar suportando sua presença constante em nosso entorno, é boêmio demais, bebe demais.

Mudando para temas mais alegres: como rolou o convite para que Manuel Moretti (N.: vocalista da banda pop – quase brega – Estelares) participasse do disco?
Temos uma relação de amizade com Manuel Moretti. Ele sempre foi seguidor do Crema del Cielo – na verdade, músicos e jornalistas sempre gostam do Crema del Cielo, não sei se isso é bom ou ruim, mas é o que acontece. Eu tive a sorte de ter sido convidado a cantar com Estelares e sempre ficou flutuando a ideia de chamar Manuel para cantar conosco. Quando compus “Plaza Sarmiento”, achei que era perfeita para ele. Mostrei, ele gostou e cantou bem demais! Manuel gosta muito de tango e sempre achei essa canção um pouco tanguera, tanto em letra como em música. Está dedicada à praça que ficava a uma quadra da casa da minha infância.

No fim de novembro, vocês tocaram no Music Is My Girlfriend (N.: nome que batiza um festival e um ciclo de shows independentes). Qual foi a importância disso para a banda?
Quando eu via os anúncios do Music Is My Girlfriend nas redes sociais, pensava: “Nunca vamos poder tocar aí”. Ter conhecido Sylvie [Piccolotto] e Pablo [Hierro, organizadores do festival e proprietários do selo Scatter] nos abriu um lugar neste espaço. Ter tocado na última edição do ano com bandas tão boas superou nossas expectativas. Estamos muito contentes.

No que o fato de não estar em Buenos Aires torna-se um problema para a banda? Ou não se torna?
Não é um problema não ser de Buenos Aires, o problema é não conhecer gente com relações no ambiente [de shows]. É difícil entrar no circuito seja você de Buenos Aires ou não, as relações públicas, como a imagem, nunca foram nosso ponto forte. La Plata está muito perto de Buenos Aires e goza de muito prestígio, tanto que dizer que você é de La Plata te dá o “passaporte de banda boa”. O difícil é entrar no circuito. Pedir uma data de show para um festival sem um manager ou um contato é muito difícil, por mais currículo que você tenha, por mais que tenha lançado três discos com boas críticas. Você tem que ir apresentado por alguém, e levamos anos para [conseguir] isso.

Ao que parece, vem um DVD por aí – vocês soltaram duas prévias na internet. Vai sair em 2015?
Todo esse trabalho está feito, só faltam alguns detalhes. Foi ideia de diretor de cinema e produtor chamado Hernan Moyano, que sempre que nos deu uma mão. Só falta entregarmos as mixagens das canções que gravamos ao vivo para que ele possa sincronizá-las.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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