Entrevista: Nenung

por Marcelo Costa

Os The Darma Lovers é uma banda que surgiu quase que por acaso perto da virada do último século através da insistência de um amigo, Wanderley Luiz Wildner, que praticamente obrigou a dupla Irínia e Nenung a registrar em um CDR as canções que eles tocavam juntos. “Começamos a vender (o CD) com capinha de giz de cera, e vendeu mais de 500 de largada”, relembra Nenung numa tarde de sol de setembro em São Paulo.

De lá para cá, Nenung e Irínia partiram para retiros budistas pessoais (ele em Três Coroas, no Rio Grande do Sul; ela numa viagem para o Tibete) e já lançaram, juntos, seis álbuns (o último, “Espaço”, é de 2013) sob a alcunha Os The Darma Lovers. Nenung prepara agora sua segunda aventura musical, o Projeto Dragão, que já tem algumas músicas liberadas no Soundcloud e está prestes a ser lançado em CD (e em shows).

A diferença entre um projeto e outro, segundo ele, é que “o Darma tem uma função de pacificar” enquanto “o Dragão tem uma função de provocar”. Nenung também percebe uma abertura maior na temática de suas composições em relação aos primeiros trabalhos: “(Agora) Quem quer ler com um sentido mais sútil, consegue; mas quem não quer, também consegue interpretar de uma maneira que sirva pra ele próprio”, acredita.

No bate papo abaixo, Nenung fala sobre seu retiro espiritual, relembra o processo de composição de “Espaço”, analisa a fragilidade da felicidade e diz que, cada vez mais, somos escravos dos bancos. Num momento em que política virou assunto nacional, pontua: “É legal você ter uma posição, é importantíssimo, mas tu achar que isso muda as coisas é um romantismo melequento demais para mim. Sou mais punk que isso… como budista (risos)”.

Como foi a temporada no Tibete?
Eu nunca fui pra lá! A Irinia foi. Ela foi conhecer os monastérios clássicos e, para ela, foi uma experiência muito forte porque enquanto ela estava lá, o pai dela morreu. E o pai dela era o eixo referencial da vida dela… em termos biológicos… da vida, do tempo. Porque nos temos nosso eixo com os professores, mas o eixo temporal dela era o pai. E no momento que ele morreu, ela estava no Tibete com, talvez, o maior mestre vivo, que a ajudou. Eu sei da experiência dela, mas nunca fui para a Índia.

Mas você chegou a fazer um retiro aqui?
Eu fiz um ano e meio de retiro em Três Coroas (RS). Na época meu professor estava vivo, e ele orientava um retiro de três anos, três meses e três dias, que é o formato clássico dos retiros budistas antigos. Ele decidiu dar inicio a uma forma tradicional de fazer esse tipo de retiro, de aprofundamento da experiência. Eu entrei no decorrer de um grupo, quase praticamente na metade, sem saber se eu conseguiria segurar três anos – (pensando) e a minha história de arte, pra onde vai quando eu sair daqui? Eu tinha essa inquietude. Então ele me deixou um mês isolado, pensando e meditando a respeito disso (também). E quando chegou ao final (do período de isolamento), perguntei se eu poderia fazer metade (dos três anos), e ele disse que sim. Foi incrível, porque no sexto mês ele morreu, fez a passagem, e quem nos orientava a partir de então falou que de forma alguma conduziria alguém além do final daquele ciclo. Foi uma experiência muito louca, porque era um período que eu precisava muito (meditar)…

Foi quando isso?
Começou em abril de 2002 e foi até o final de novembro de 2003.

Foi logo depois do “Básico” então (disco de 2002)
Foi. A gente tinha gravado o “Básico” e eu tinha feito um retiro de verão com alguns lamas. Nós tínhamos uma data marcada de lançamento do disco no Theatro São Pedro (em Porto Alegre) e, no meio de tudo isso, meu professor pediu para me avisar que queria que eu entrasse em retiro. Eu perguntei quanto tempo e ele disse: “Três anos”. E eu… tá (risos). Só avisei-o que eu tinha um show muito importante, que era difícil de desmarcar, e eu queria entrar em retiro depois. Ele falou: “Tá bom. Pode ser no dia seguinte” (mais risos). Passamos aquele tempo se preparando para o show, tínhamos uma gravadora, que era pequena, mas tinha investido o que para eles era uma quantia substancial em estúdio e finalização do disco, e eles ficaram bem pouco confortáveis com a ideia. Perdemos a gravadora, mas fizemos um lançamento sem igual porque, no final do show, todo mundo sabia que eu iria ficar três anos fora, e não sabia se a banda voltaria a tocar algum dia. A banda estava num momento muito interessante e havia acontecido muito movimento em torno de nós. Naquela época havia rádios que tocavam (a nossa música), havia a Rádio Ipanema, que, com alguma independência, era o eixo referencial da música autoral (no Sul do país). (O retiro) Foi legal porque saímos de orbita no momento em que o giro da banda estava forte, não porque sentimos que alguma coisa estava decaindo. E quando voltamos, de cara sabíamos que o Kassin, o Moreno e o Domenico estavam tocando música da gente (inclusive algumas músicas eles não conseguiam tirar porque, segundo eles, era muito contra qualquer regra o jeito que eu tinha composto, não podia ser aquilo depois daquilo – risos), eles tinham feito algumas versões, mas que não era bem legal, não saia direito. Então os conheci, conheci um monte de gente, a banda dura pra caramba, sem nenhum dinheiro (toda grana que eu tinha foi para ajudar a Irínia a se sustentar no tempo em que eu estava fora, e eu também tinha um custo dentro do retiro), e espalhamos as músicas que tínhamos gravado tanto com o Kassin e o Berna quanto com o Miranda, os Dreher, um monte de gente (foram 12 produtores) e lançamos o “Laranjas do Céu” (2005), que ficou legal e interessante por ter sido gravado assim, porque se fosse de qualquer outra forma convencional, iria ficar menos interessante e rico. E essa é a história do Os The Darma Lovers: é um aparente desastre que dá numa surpresa muito legal atrás da outra. É tudo muito inesperado. A gente nunca teve planejamento, uma estratégia focada, a gente vai fazendo. Nós não tínhamos nem ideia de ser banda! O Wander (Wildner) nos obrigou a gravar o primeiro disco, e começamos a vender com capinha de giz de cera, e vendeu mais de 500 de largada. Fomos meio indo na onda. Foi se criando uma onda ao redor, que era a necessidade das pessoas de se ter aquela coisa extremamente simples, mas falando de coisas mais profundas do que habitualmente é feito.

Eu sinto que o som e, principalmente, a temática de vocês foi abrindo com o tempo. Até o “Laranjas do Céu” era algo mais fechado (em torno da doutrina, da ideia do budismo), mas que no “Simplesmente” e no “Espaço” se abriram, ou se ampliaram…
Explicitamente! O “Laranjas do Céu” já era para ser uma transição para isso porque senti que eu precisava falar de coisas mais leves. Senti isso num show em Porto Alegre: quando terminamos o primeiro intervalo, ninguém falou nada, nem aplaudiu. No intervalo seguinte, a mesma coisa. E no terceiro, algumas pessoas começavam a aplaudir e outras viravam e faziam “shhhhh”, como dizendo: “Não perturba”. Nos olhamos no final do show e pensamos: está ficando sério, grave demais o negócio. Era tudo muito denso e as pessoas estavam levando a coisa toda muito a sério. O “Laranjas do Céu” já é uma música mais aberta, mais tropical, mais solar, e a ideia era essa mesmo, sair desse coisa densa pra não virar uma banda deprê. Já o “Simplesmente” (2009) e o “Espaço” (2013) são discos que compus posteriormente ao retiro, e quando sai do retiro ficou claro para mim que compor, escrever e criar as harmonias se tornou um processo mais fácil e mais aberto. A capacidade de referenciar coisas e conseguir criar imagens para elas ficou mais universal. Eu queria isso para o “Laranjas do Céu”, mas ele ainda estava dentro daquela esfera “são os budistas falando”. A partir dali a estética abre. E por isso, de uns três anos para cá, criei o Projeto Dragão, no sentido de abrir ainda mais. O disco “Serenoato”, que estou prestes a lançar, é isso. Estava comentando isso com o Leo Cavalcanti, que tem um pouco esse impasse da coisa espiritual, das pessoas verem aquilo que ele faz como algo meio moral, e que também é uma briga que a gente sempre teve com os The Darma Lovers, que é essa coisa de conciliar (o discurso): quem quer ler aquilo com um sentido mais sútil, consegue; mas quem não quer, ou não dá conta, também consegue ler e interpretar de uma maneira que sirva pra ele próprio.

No que você diferencia o Dragão dos Darmas?
A intensidade, com certeza. A frequência da coisa. A minha autonomia de enlouquecer, porque nos Darmas eu preciso sempre estar atento a tudo, à minha forma de cantar, o tempo é também à expectativa das pessoas de terem que, necessariamente, criar uma onda mais harmônica. O Darma tem uma função de pacificar. O Dragão tem uma função de provocar. Eles estão na mesma direção e na mesma linha, mas tem funções diametralmente definidas como sendo aparentemente dissonantes. Quem ouvir conseguirá reconhecer que é da mesma fonte, mas o resultado é diferente. Para quem tem apenas os Darmas como referencia é chocante porque é mais maluco, mais pesado.

Quando começou o processo de composição do “Espaço”?
Por volta de 2011. Eu fiz as músicas numa sequencia a partir dos ensinamentos de um professor budista que tenho muito como referencia. Ele me ensinou a dizer para as pessoas, que tinham uma resistência à ideia da meditação e do budismo, o que era meditação, que é gerar espaço dentro da sua mente, conseguir incluir as outras pessoas no espaço pessoal, não ficar uma coisa tão reativa ou paranoica. Isso me deu um gancho muito forte, e a partir disso escrevi cinco músicas. Começamos a pré-produção e… estacionou (por quase um ano inteiro). Não tinha ainda um porquê de criar algo consistente que eu considerasse um disco. Um tempo depois, o Marcelo 4Nazzo, que estava encarregado da produção, falou: “Vamos acabar esse negócio”. E nesse tempo entrou na história o André Vicente, um rapaz que é deficiente visual, quase 100% cego, que se formou em composição e regência na UFRGs por conta própria, já que não existia – até então – partituras em braile. Ele criou uma forma de se adequar ao método e foi aprendendo, com toda desvantagem evidente, porque tinha que se dedicar 10 vezes mais do que qualquer outro (a partir dele, a UFRGs passou a destinar verbas para criar partituras em braile, por seu esforço e dedicação). E é um guri com astral incrível. E toca loucamente! Porque toca como alguém que não enxerga as teclas, então ele necessariamente precisa internalizar e sentir as músicas para então devolve-las. A presença dele na história da gravação deu um gás, um por que estético da coisa toda ser realizada e trazida a tona. A partir dali surgiu o entusiasmo da banda toda.

E calhou com a viagem da Irinia…
Foi. Esse intervalo (de um ano) calhou com a morte do pai dela e com a viagem para a Índia. Ela foi fazer uma peregrinação. Foi a forma dela de fazer retiro porque ela tem uma energia muito inquieta. Então isso de se colocar em lugares sagrados perto de grandes professores é a forma de ela fazer a experiência mais profunda e radical.

Como o disco está funcionando ao vivo?
A gente teve poucas oportunidades de experimentar o “Espaço” ao vivo porque ele ficou muito pautado na presença do acordeom e do piano (do André Vicente), e eu acho difícil reproduzi-lo. Ok a gente pegar um baixista, um guitarrista e um percussionista, mas pela forma com que o André Vicente entrou na história, eu acho difícil pegar outra pessoa que fizesse e tivesse a importância que ele tem quando está presente. Quando a gente toca no Sul, ali pelos arredores de Porto Alegre, é mais fácil de ele estar presente. Fizemos um show em que a ideia era mostrar a totalidade do disco, e funcionou. “Espaço” é um disco muito refinado em termos de sonoridade, mas no show, inevitavelmente, ele acaba sendo mais vibrante, porque temos uma vibe rock and roll. A gente tem uma frequência que, quando ela vibra, faz as pessoas vibrarem junto. Não fica tudo tão inquieto, mas é uma inquietude bacana, saudável, eu acho. Eu espero que a gente ainda tenha oportunidades de toca-lo da maneira mais completa, como a gente se propôs a fazer.

Gostei muito de “1 Milhão de Anos”. Como ela surgiu?
É uma parceria com Jimi Joe, e ele é um cara que tem muita música, muita musicalidade, mas que, paradoxalmente, é tímido na forma de se apresentar. E eu enchia ele há muito tempo para fazermos uma parceria, mas ele nunca apresentava nada. Só que, de uns anos para cá, ele está apaixonado, vivendo um relacionamento com uma garota, que é muito querida, e um dia tomou coragem e chegou dizendo (imitando a voz do Jimi Joe): “Tenho uma música para tocar para vocês”. Na hora em que ele estava tocando me veio à coisa do um milhão de anos, as primeiras frases, o que ele queria dizer com aquela melodia. Eu estava sendo meio que o ghost writer da história, escrevendo a música que ele queria ter escrito pra ela. O engraçado é que eu, especialmente, não estava vivendo uma relação, pelo contrário, estava numa ressaca violenta da relação que eu havia tido anteriormente, e estava dando um tempo. Mas não era uma coisa minha, era uma coisa dele. Então a música ficou muito legal. Eu fui pra casa e esqueci uma parte da letra, que era o refrão, e eu meio que refiz a partir do que eu lembrava que tinha sentido quando ele tocou a canção para mim. Eu meio que arrematei a música, mas a essência é o que ele trouxe. Fundimos a coisa toda de um jeito meio louco. Não é uma parceria convencional. Foi meio que a simbiose daquela hora, de ele estar ali, e se expor, e a gente ter uma conexão muito legal.

A canção que abre o disco, “Frágil Felicidade”, me lembrou uma canção do Porno For Pyros, banda do Perry Farrell, chamada “Sadness”, em que a letra diz que “a felicidade é algo bom por uma hora”. Li uma entrevista depois dele falando dessa música, e exemplificando com um atleta, que quando ganha um título e levanta uma taça, aquele é o momento de maior felicidade, mas depois bate uma tristeza, uma nostalgia…
…uma deprê de ele saber que não vai sustentar essa felicidade.

Exatamente. E você, na letra de “Frágil Felicidade”, fala dessa sensação da felicidade ser um fio de fumaça que pode nos sufocar. Você acredita que a felicidade pode se tornar um problema ou ela é apenas uma coisa boa?
Essa é uma faixa especialmente budista. A questão, na verdade, é como se relacionar com a felicidade, que é como a vida. Se tu sabe que ela é frágil, tu dá o valor devido no momento que ela merece. Não (só) quando você está morrendo. Tu faz um bom uso, adequado, e tu percebe a preciosidade dela enquanto você está em curso, não apenas no momento do retrospecto. Eu estava comentando isso com a Irinia no carro hoje, porque estamos convivendo com algumas pessoas que se acostumaram a bater boca, e isso vai criando um vício, um hábito, justificado com um “a relação é assim”. Não é. Isso é falta da noção da impermanência que faz desandar essa relação da preciosidade do quanto é raro tu estar perto de alguém que tu ama num tempo inevitavelmente curto. A coisa da noção da fragilidade da felicidade é o que dá a preciosidade dela. Tenho um professor que diz assim: a flor que é considerada a mais linda do mundo é aquela que floresce uma vez a cada ano e fica aberta durante um único dia. Se ela ficasse aberta por três semanas já não seria a flor mais linda do mundo. Tu dá o valor dela e não perde a noção de preciosidade que ela tem apesar de tudo que surge em torno. Acho que a fragilidade é a qualidade que a gente pode ter no refinamento da nossa relação com a felicidade. Sabendo que inevitavelmente permanente a forma como a gente se relaciona com essa realidade temporal. Saber que ela é sútil, que ela não é eterna. É isso que dá valor para que uma situação seja reconhecida como preciosa. Essa coisa de se expor e deixar o coração aberto para sentir as coisas é o que faz com que genuinamente tu possa ter a experiência da felicidade. Sem isso tu já cria um monte de filtros e o padrão da felicidade fica dependendo unicamente da excitação – e a depressão é o contraponto dela. Afinal é cool ser deprê.

Como você a relação do “Espaço”, o disco, com uma mega cidade como São Paulo, em que não existe silêncio…
Acho que o disco é especialmente significativo (para São Paulo), mas não é tão diferente de Porto Alegre, por exemplo. E acho que isso é uma vantagem, porque quando a gente está no campo, ou quando a gente cria a fantasia de que “quando eu for morar na beira da praia eu vou ter silêncio”, não vai. Porque se tua mente for inquieta e você tiver a ansiedade que sempre foi tua (ninguém te deu ela de presente), tu vai continuar com a tua mente inquieta, insatisfeita, frustrada, dependente, condicionada e, talvez, mais depressiva, porque não há saída (no campo ou na praia) para te ocupar. Então quando você está em São Paulo, você ao menos tem a chance de ter uma decisão mais clara, como boa parte dos meus amigos, que já decidiu: “Eu preciso sair de São Paulo em tanto tempo porque isso aqui não favorece a encontrar tranquilidade”. Cada pessoa precisa entender o seu ponto e entender que não é um ponto genérico. Não há uma saída romântica que funcione. “Ah, quando todos formos iluminados”… Não vai existir uma iluminação coletiva, tu tens que fazer a tua parte! Tu precisa encontrar o silêncio dentro de ti para lidar com o caos. O tipo de exigência que uma cidade assim propõe lhe da oportunidade de ter uma decisão mais radical. Eu faço ou não faço. E você sabe que pode ser tragado por isso. E até por isso é muito legal estar aqui.

Um tempo atrás surgiu o desafio de criar um conceito do próximo disco do Projeto Dragão, e eu pensei em realmente escrever sobre esse sentimento, e andando por São Paulo (ontem fomos passear no MASP) vi a exposição “As Cidades Invisíveis”, e era explicitamente o que eu precisava para ter esse alimento de pensar a cidade como um organismo caótico, vivo e cheio de seres humanos. Então eu pego um taxi e fico puxando assunto com os motoristas o tempo todo, e isso basta para descobrir como existem seres humanos carregados de humanidade dentro dessa esfera de concreto a qual é atribuída uma superioridade à qualidade humana que está dentro dela, o que causa uma perda de proporção das coisas porque vemos a cidade como um monstro que nos engole, e essa sensação nos faz perder muitas coisas, porque São Paulo tem um lado muito lindo. Há muita coisa legal, como as pessoas preservarem a gentileza, andar nesse transito louco e não ficar maluco (não sair batendo um no outro, isso é sensacional). Os motoristas de taxi geralmente são tranquilos. Porque é o fluxo que ele vive, e que ele escolheu. Não tem essa coisa de ficar se debatendo com a cidade. Se tu sabe que isso não te serve, tu tem que fazer um movimento interno para que alguma coisa te sirva. Ok sair daqui, mas se tu não mudar alguma coisa internamente não vai fazer muita diferença. Essa visão romântica de que somos vitimados pela cidade é uma mentira. A gente não é. Tem uma escolha e tu escolhe estar em São Paulo. Tem algo que te favorece, que é uma vantagem na forma de sua mente funcionar e até de se aquietar. Porque tem tanto barulho ao redor que a pessoa pensa: “Não preciso ser mais um pra ficar somando”.

E isso entra na próxima pergunta. Para mim, o ser humano passou sua história na Terra buscando maneiras para ocupar seu tempo ocioso, o tempo que ele tinha consigo mesmo, em silêncio. Vivemos agora, provavelmente, o ápice desse cenário com internet e redes sociais em tablets e smartphones mantendo a pessoa conectada e integrada ao mundo 24 horas por dia. O que tiro disso: pouca gente está preparada para lidar com ela mesma num momento de silêncio. Você acha que as pessoas temem o silêncio?
Totalmente. E cada vez mais. Quanto mais a gente se distancia, ou quanto mais a gente se coloca dentro de um universo que propõe que as saídas são barulhentas, ou que tu te comprometa com coisas a longo prazo que vão exigir toda a sua energia e vão te sugar, tu não vai ter mais a noção de ter liberdade ou responsabilidade ou autonomia ou segurança. A segurança se baseia na ideia de que se tu entrar na onda geral (de te encher de dívidas) você será um ser humano adequado. Ou seja, é consumir, prestar contas, justificar a tua existência pelo trabalho escravo pra ti próprio, para a corporação e para os bancos. Somos escravos dos bancos. Somos escravos de um sistema consumista, de uma fantasia de felicidade simbolizado “nas minhas férias”. O natal é isso: você espera 364 dias para abraçar alguém e dizer que o ama, mas na hora em que ele está do seu lado, você fica irritado com tudo o que ele diz. Ou então quando alguém bebe demais e fala aquela palavra errada (na hora de ceia), toda a sua expectativa de felicidade se transforma em uma frustração sem fim. Eu recebo muitos visitantes em Três Coroas e, dia desses, apareceu uma senhora que me perguntou, séria: “Por que você não põe alto-falantes na rua tocando músicas orientais?”. E eu pensei: uau, que grave, essa incapacidade de lidar com o silêncio porque dai tu vai ver onde tu está. Tem quase que uma obrigatoriedade ou de ver o quanto tu é neurótico ou do ponto em que tu tá, que em geral é bem insatisfatório. Ao longo do tempo esse processo vai se agravando, enquanto tu não se ouve e não respeita o que tu precisa. Cada vez mais tu vai terceirizando e culpando os outros dizendo que sua vida vai se resolver quando o mundo inteiro for iluminado. A tendência é ir cada vez mais para um beco sem saída. E isso é cultural. As crianças desde a primeira série com celular no ouvido e disputando pra ver quem vai ser o primeiro lugar no vestibular. Isso é muito massacrante, é muito… louco. Será que não há uma referencia em casa que a salve disso? Ela será mais uma para entrar no turbilhão da boiada, outra vitima. Está ferrada. E isso acontece porque a educação do silêncio é algo que não existe. Pontualmente existe por pessoas que desejam desbravar e criar núcleos possíveis disso, mas é algo bem pontual nessa cultura de agora. Televisão, rádio, música, streaming, shuffle… é uma poluição sem fim.

É uma anestesia…
E também uma capacidade de não reconhecer o que é essencial, o que é teu. Tudo é dos outros. Ou não é de ninguém. Há uma despersonalização que não é saudável. A meditação, por exemplo, te despersonaliza, mas você se responsabiliza por completo por aquilo que sobrar – e que pode ser alguma coisa mais livre e até mais assustadora do que aquilo que você pressupõe. Dai tu vai viver a raiva essencial que tu cultiva, o medo essencial que tu cultiva, mas você tem chance de mudar se tiver coragem de olhar isso de frente. E mudar pelo teu exemplo, não pelo teu discurso de como você acha que o mundo devia ou não ser. É como discutir política: é legal você ter uma posição, é importantíssimo, mas tu achar que isso muda as coisas é um romantismo melequento demais para mim. Sou mais punk que isso… como budista (risos).

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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