Radiohead: A saga através dos EPs

por Bruno Leonel

Com pouco mais de 25 anos de carreira e 8 discos de estúdio lançados, o Radiohead pode se orgulhar de ter uma das discografias mais respeitáveis e impecáveis da história recente da música. Mesmo com o passar dos anos, o grupo continua se mantendo relevante, sempre se reinventando e buscando sonoridades novas a cada trabalho. No entanto, o que muitas vezes passa despercebido para a maioria do público e que, de fato, é de total importância para entender o rumo e a mudança de sonoridade que o grupo seguiu, são os peculiares compactos (ou Eps se preferir) que o quinteto lança paralelamente à discografia oficial.

De menor duração e com menor custo de produção (pelo menos em teoria), os Extented Plays são uma boa opção para se testar ideias e explorar sonoridades, assim como o resultado de novos tipos de produção. Devido aos riscos menores são uma manobra muito mais segura para uma banda testar “rascunhos” de músicas e ideias – assim como medir a recepção do público – do que arriscar um álbum completo, que envolveria orçamentos e processos muito mais complicados. Em se tratando de Radiohead, então, isso é crucial para entender sua trajetória: discos considerados inovadores como o elogiado “Ok Computer” (1997) e o ambicioso “Kid A” (2000) certamente teriam tido um processo muito mais tortuoso de produção, ou, sequer teriam soado do jeito que soam se não fosse pelos compactos que os precederam.

Além de ótimas faixas perdidas, um detalhe é notável na cronologia dos EPs do Radiohead: muitos deles costumam antecipar sonoridades e temáticas que a banda com o tempo amadurece e explora com mais profundidade nos álbuns. Isso ocorre até na discografia oficial do grupo: muita gente vê “Planet Telex” (do álbum “The Bends”, de 1995) como um pré-“Ok Computer” e “Airbag” (do próprio álbum “Ok Computer”) como um rascunho de futuros experimentos eletrônicos, mas são nos EPs que isso parece se manifestar com mais vigor.

Enquanto a banda parece seguir um hiato, vale a pena relembrar fuçar no baú que a turma de Thom Yorke lançou até aqui. Um breve olhar sobre a cronologia dos compactos deixa a constatação de que o futuro do grupo provavelmente está em algum elemento perdido que a banda já mostrou ao público, seja em um lado-b, em uma faixa single, ou mesmo em alguma canção obscura que passou despercebida. Logo, não estranhe se no próximo trabalho do quinteto, aparecer um disco inteiro baseado em alguma ideia perdida e deslocada da banda. Esse parece ser exatamente o método de trabalho deles. Vamos aos EPs:

Drill EP (1992)
Primeiro registro de estúdio da banda, lançado em maio de 1992 (“Pablo Honey”, o primeiro disco, sairia apenas em fevereiro do ano seguinte), “Drill” explora o peso e a estrutura de três guitarras que a banda usaria na fase inicial de sua carreira, incluindo o álbum de estreia. Na época, o Radiohead ainda sofria influências de várias escolas “indie” em alta na Inglaterra, com distorções, peso e vocais que hora parecem emular o rock de garagem do fim dos anos 80, com um leve piscar de olhos para o grunge e também para o shoegaze do começo da década.

São apenas quatro faixas de demonstração (demo), mas há um lirismo peculiar nas composições, embora seu conteúdo não seja muito diferente do que várias outras bandas (Ride, Slowdive, The La’s) faziam no mesmo período. “Prove Yourself”, faixa que abre o EP, foi retirada de “Manic Hedgehog”, terceira demo do grupo lançada em fita cassete em maio de 1991, ainda quando eles atendiam pelo nome de On a Friday. A melodia parece um rascunho de coisas que o U2 já havia feito e o arranjo mostra vocais ligeiramente mais destacados e emotivos, em comparação à versão que a banda regravou para “Pablo Honey”

Além de “Prove Yourself”, tanto “You” quanto “Thinking About You” também seriam retrabalhadas para “Pablo Honey”, sendo que a segunda ganharia um novo arranjo, acústico, muitíssimo superior a esta versão elétrica presente em “Drill”. O EP ainda tem “Stupid Car”, balada que fala sobre a neura de Thom Yorke com os perigos de se estar dentro de um automóvel. A faixa foi inspirada em um acidente que o vocalista sofreu no começo dos anos 90 e o pavor de veículos seria aprofundado, com mais intensidade, na faixa “Airbag”, lançada em “Ok Computer” cinco anos mais tarde.

“Drill EP” serviu para a banda testar rascunhos de canções e explorar ideias que seriam desenvolvidas depois. Todas as faixas foram registradas no Courtyard Studio com produção e assistência de Chris Huddford e mixagem de Timm Baldwin. Durante a gravação, a banda ainda assinava como On a Friday e só depois que as canções foram finalizadas que o quinteto mudou o nome para Radiohead (inspirados numa canção do Talking Heads). Comercialmente teve um desempenho modesto, batendo apenas na posição 101 das paradas do Reino Unido. O lançamento original teve 3000 cópias e é considerado um item raro, mas as quatro faixas estão presentes na edição deluxe dupla de “Pablo Honey”, lançada em 2009.

Itch (1994)
Registro lançado apenas no Japão em junho de 1994 após “Plabo Honey” e antes de “The Bends”, “Itch” é uma coleção de lados-b e versões ao vivo do período. O disco tem só duas inéditas de estúdio que apareceram como lados-b dos singles “Anyone Can Play guitar” e “Pop is dead” respectivamente: a boa “Faithless, The Wonder Boy” (bastante tocada ao vivo no período) e a doce “Banana Co.” (em versão acústica registrada na rádio Signal One – uma versão elétrica seria lançada futuramente), que de certa forma adiantavam o caminho musicalmente mais elaborado e suave que a banda adotaria nos discos a seguir.

Inédita também é “Killer Cars”, em que Thom Yorke retoma o tema de “Stupid Car”. A versão acústica presente em “Itch” foi retirada de um show em Chicago de junho de 1993 – deste show também saíram as versões de “Vegetable” e “You” presentes neste EP. A faixa “Stop Whispering (US Version)” aparece em mixagem diferente da versão original e “Thinking About You” aparece na mesma versão elétrica do EP “Drill”. Fechando o disquinho, “Creep” em registro acústico gravado na KROQ-FM, de Los Angeles, em julho de 1993. Quem assina a produção é Sean Slade e Paul Q. Kolderie, que haviam produzido o disco de estreia do grupo.

My Iron Lung (1994)
Enquanto Thom Yorke e seus companheiros refletiam sobre o monstro que haviam criado com o sucesso do single “Creep” e a recepção positiva de “Pablo Honey”, o clima entre a banda se tornava tenso, especialmente devido à responsabilidade e expectativa que os preparos de um segundo disco geraram. Um novo EP foi o melhor modo de aliviar as tensões. Lançado em outubro de 1994, “My Iron Lung” reúne oito faixas e é um dos melhores registros que a banda já mostrou ao público, ainda que não tenha lá devido reconhecimento.

Nele há material gravado durante as sessões (então em andamento) do disco “The Bends” assim como faixas mais introspectivas e experimentações sonoras com efeitos que a banda (especialmente o criativo guitarrista Johnny Greenwood) passaria a adotar nos anos seguintes. É visto como um álbum de transição e é aberto com a clássica “My Iron Lung” (que apareceria em “The Bends” nesta mesma versão), que exibe uma letra que funciona como uma auto-reflexão sobre o momento que a banda enfrentava, assim como a relação deles para com o sucesso de “Creep”: “This is our new song / just like the last one / a total waste of time / my iron lung”.

Há a soturna “The Trickster”, com bons arranjos de guitarra, o rock básico de “Lewis (Mistreated)” e a excelente “Punchdrunk Lovesick Singalong”, uma faixa etérea e climática repleta de efeitos e ecos que criam uma paisagem quase espacial que mais parece um perfeito um elo entre “The Bends” e “Ok Computer”. Há ainda a bela “Permanent Daylight”, faixa que marcou presença em vários shows da época e conta com arranjo dissonante (lembrando coisas que o Sonic Youth fazia na fase “Daydream Nation”) e um vocal estranhamente abafado. O baterista Phil Selway já começava a experimentar influências de jazz além de andamentos “quebrados” e incomuns de bateria.

A folk “Lozenge of Love” trás um complexo arranjo de violões além de um compasso incomum de melodia que flerta, levemente, com a música indiana, e que parece remeter a canções mais recentes do Radiohead, como “Faust Arp” e “Little by Little”. Há ainda a curta (apenas 1 minuto e 42 segundos), bonita e melancólica “You Never Wash Up After Yourself”, praticamente só voz e guitarra. Pra ser absolutamente perfeito só faltou incluir “Talk Show Host”, que foi entregue para a trilha sonora de “Romeu e Julieta” (1996), adaptação de Baz Luhrmann com uma Claire Danes menina apaixonada por um Leonardo DiCaprio pré “Titanic”, e se tornaria um dos lados-b mais tocados ao vivo em toda a trajetória da banda (apareceu até nos shows da banda no Brasil em 2009).

“My Iron Lung” fecha com a mesma versão acústica de “Creep” registrada em Los Angeles e presente em “Itch”, e é importante na carreira da banda por aproximar o quinteto do produtor Nigel Goodrich, que acompanha como engenheiro de som a gravação das faixas “The Trickster” e “Lewis (Mistreated)” e assina a produção de “Permanent Daylight” (além de “Talk Show Host”). É um EP que não é difícil de encontrar, mas suas seis faixas inéditas aparecem na edição deluxe de “The Bends” lançada em 2009.

No Surprises/Running from Demons (1997)
A popularidade do Radiohead cresceu de forma assombrosa em todo o mundo em apenas três anos. Se em 1994 eles eram apenas um grupo inseguro em lançar um segundo disco, no finzinho de 1997, após a boa aceitação de crítica e público de “The Bends” (1995) e a quase unanimidade de elogios que cercou a recepção de “Ok Computer”, o grupo, com a moral lá em cima, desfrutava de uma postura de conforto e comodidade para se focar no trabalho. E qual foi o resultado disso? Mais um EP, é claro.

Com seis faixas, “No Surprises / Running from Demons” foi lançado durante o auge da turnê que fez a banda excursionar pelo mundo todo. Ancorado no quarto single retirado de “Ok Computer”, a linda “No Surprises”, o trabalho foi planejado para ser lançado no mercado japonês visando promover parte da excursão que o grupo faria por lá em janeiro de 1998 (vários shows e vídeos dessa turnê podem ser vistos no filme “Meeting People is Easy”, lançado em 1999).

A fúnebre “Pearly” aparece em versão remixada – a original saiu alguns meses antes como lado-b do single “Paranoid Android”. A letra fala de envelhecimento e questiona alguém sobre como “seus dentes parecem tão perolados” (a faixa não é tocada ao vivo desde 2001). A etérea “Melatonin” tem um discurso parecido, baseada quase somente em teclados e com uma boa linha de percussão. O EP ainda trás a gélida “Meeting In The Aisle”, um marco para a banda por ser a primeira faixa instrumental gravada por eles e ser uma das primeiras vezes em que convidados apareceram em um registro de estúdio. No caso, dois integrantes do grupo de trip-hop Zero 7 usando programação e manipulação eletrônica. A música nunca tinha sido tocada ao vivo até 2012, quando apareceu na turnê de “The King of Limbs”.

A jazzy e dark “Bishop’s Robes” fala sobre abusos supostamente sofridos pelo vocalista na época de colégio e destaca um arranjo interessante de guitarra em slide, efeito raramente usado pelo Radiohead. Encerrando o EP, a belíssima e fantasmagórica “A Reminder” (mais uma faixa sobre envelhecer), com levada arrastada e cheia de efeitos e ruídos. Há até um sampler de uma gravação feita pela banda dentro de uma estação de metrô na cidade de Praga (quase uma “Climbing Up The Walls” parte 2) resultando em uma ótima faixa, que a foi tocada em um show pela última vez em 1998.

Das cinco faixas inéditas presentes em “No Surprises / Running from Demons”, um EP raro e dificílimo de se encontrar, quatro estão presentes na reedição deluxe de “Ok Computer” colocada no mercado em 2009 (“Pearly”, “Melatonin”, “Meeting in the Aisle” e “A Reminder”) enquanto “Bishop’s Robes” (lado b do single “Street Spirit (Fade Out)”) foi inclusa na edição deluxe de “The Bends” lançada em 2009. “No Surprises / Running from Demons” é um grande EP que, musicalmente, pode ser visto como intervalo entre o som de “Ok Computer” e o estilo mais experimental e obscuro que a banda adotaria nos discos seguintes.

Airbag / How i’m Driving? (1998)
Quinto EP do grupo, “Airbag / How i’m Driving?” é praticamente um reempacotamento do EP anterior, só que focado para o mercado norte-americano. Inclui canções do “Ok Computer” assim como lados-b lançados nos singles do disco. Abre com a feroz “Airbag” em uma mixagem um pouco diferente. A música, que apareceu originalmente no disco de 1997, marca a primeira vez que a banda usou programação eletrônica em uma canção, no caso uma trilha de bateria processada, fortemente inspirada na música “Changeling”, do Dj Shadow, lançada em 1996.

As diferenças de “Airbag / How i’m Driving?” para o EP “Ruinning from Demons” ficam por conta das faixas extras, a suave “Polyethylene” (mais do mesmo, se comparado a coisas feitas anteriormente pelo grupo) e a inédita “Palo Alto”, uma canção cheia de distorções e refrão enérgico, lembrando até coisas que o R.E.M. lançou durante a década. O encarte traz o trecho de um texto do livro “The Chomsky Reader” (1987), coleção de escritos políticos de 1960 a 1980 do filósofo e ativista norte-americano Noam Chomsky.

Até ser relançado em 2007, “Airbag / How i’m Driving?” era um item muito cobiçado por fãs fora dos Estados Unidos, chegando a ser vendido por preços altos em sites de leilão. A capa tem algumas bizarrices, como o número “1426148550”, um telefone em funcionamento no Reino Unido. Fãs podiam ligar e deixar mensagens na secretária eletrônica – que tinha uma mensagem gravada por Thom Yorke. As mensagens, supostamente foram sampleadas e usadas pela banda nos anos seguintes.

Embora seu conteúdo seja quase o mesmo do EP anterior, o enfoque mais abrangente de divulgação fez com que “Airbag / How i’m Driving?” recebesse uma recepção bem maior de crítica e público, a ponto do EP estrear na posição 56 do Hot 200 da Billboard, vendendo 20 mil cópias apenas na primeira semana! Embora tenha apenas 25 minutos de duração, o disquinho conseguiu até receber indicação para o Grammy em 1999, na categoria “Melhor Performance de Música Alternativa”, concorrendo com discos completos lançados por outros artistas (“Hello Nasty”, dos Beastie Boys, levou a melhor na premiação). Todas as canções do EP foram relançadas na reedição deluxe do álbum “Ok Computer”, em 2009.

I Might Be Wrong: Live Recordings (2001)
Na onda do sucesso da turnê “Kid A” / “Amnesiac”, o grupo lançou “I Might Be Wrong: Live Recordings”, um novo EP (considerado por eles mesmos como um álbum completo) com faixas dos dois discos em versão ao vivo. Se para muitos, “Kid A” e “Amnesiac” injetaram DNA robótico e climas eletrônicos em excesso no som da banda, este registro ao vivo, foi um jeito de humanizar o clima hostil que a sonoridade pós “Kid A” criou. Não à toa, as faixas presentes no lançamento trazem diversas mudanças em relação aos álbuns.

Retiradas de shows em Oslo, Berlim, Oxford, Vaison la Romaine, Cleveland e Los Angeles durante a turnê de 2001, “I Might Be Wrong: Live Recordings” é aberto com “The National Anthem”, e a faixa presente de “Kid A” traz aqui um som de baixo mais destacado além de perder os arranjos de metais da versão de estúdio. “Morning Bell” (outra de “Kid A”) aparece em versão mais orgânica, sem elementos como a bateria eletrônica, por exemplo. “Everything in Its Right Place” (que junto com “Idioteque” encerra as canções de “Kid A” presentes no álbum) aparece com uma sessão de experimentações eletrônicas no fim e tem quase três minutos a mais do que a versão de estúdio.

“I Might Be Wrong: Live Recordings” registra a primeira execução ao vivo de “Like Spinning Plates”, em uma versão muito diferente da registrada no disco “Amnesiac”: ela perde as diversas camadas de gravações invertidas e efeitos, que saem de cena em prol de um arranjo de piano e cordas. O álbum se encerra com a única versão oficial disponível de ”True Love Waits”, nunca antes lançada em versão de estúdio, aqui em registro acústico retirado de um show em Los Angeles, em agosto de 2001. Até hoje é o único disco ao vivo já lançado oficialmente pelo grupo.

COM LAG (2plus2isfive) (2004)
O flerte com a eletrônica, que a banda já demonstrava desde os anos 90, finalmente atinge aqui o status de relacionamento sério. Claro, no caminho ainda tiveram “Kid A” (2000) e “Amnesiac” (2001), que dividiram opiniões, e “Hail To The Thief” (2003), trio de álbuns responsáveis por uma verdadeira imersão do quinteto no gênero. Eis que em 2004 a banda já tinha mais do que experiência suficiente pra experimentar com o estilo e isso se reflete até no título deste EP: lag é um termo da informática para quando um aplicativo está travando ou sendo executado com erros.

Lançado em março de 2004 no Japão e na Austrália para promover a tour japonesa que o grupo fez em 2004, “COM LAG (2plus2isfive)” é uma coletânea com 10 canções entre lados-b, faixas ao vivo e remixes do álbum “Hail To The Thief”. Abre com uma poderosa versão ao vivo de “2+2=5” (gravada em um show em Londres). “Remyxomatosis” é uma versão drone e experimental da faixa “Myxamatosis”, aqui assinada pelo artista Chileno Cristian Vogel. “I Will (Los Angeles Version)” surge tocada pela banda completa em versãop menos arrastada e mais “pé no chão” do que a lançada em “Hail To The Thief”.

A épica “Paperbag Writer” tem arranjo de cordas e clima meio retrô aliado a batidas eletrônicas, baixo pulsante e um vocal com eco. A junção de elementos chama a atenção e antecipa algumas pirações que o Radiohead faria em “The King of Limbs” (2011). Uma pegada mais convencional com um certo clima western aparece em “I Am A Wicked Child”, música boa – rola até um som de gaita na faixa mais orgânica deste EP. Sintetizadores, batidas robóticas e sons pré-gravados aparecem na faixa “I Am Citizen Insane”, outra boa música instrumental do grupo, quase prima de “Meeting In The Aisle”.

“Skttrbrain” é um remix cabeçudo e estranho de “Scatterbrain” assinado por Kieran Hebden, o Four Tet, um trabalho que estraga um das mais simples e bonitas canções já gravadas pela banda. A balada “Gagging Order”, com belos violões, é mais um respiro orgânico em meio às experimentações que comandam a coletânea. “Fog” é um registro de voz e piano gravado por Thom Yorke ao vivo no programa parisiense Planet 2Nite TV Show, em agosto de 2003, uma versão bem diferente da (eletrônica repleta de barulhinhos) que saiu como lado-b no single “Knives Out”, de 2001.

Sonoramente, “COM LAG (2plus2isfive)” é o menos coeso EP que o grupo já lançou, embora tenha ótimas faixas. Além de músicas que apontam em várias direções, sem um foco específico, ele pouco tem a ver com o trabalho que o grupo lançaria em seguida, “In Rainbows” (2007), o que quebra certo padrão que a banda possuía ao testar elementos antes de álbuns completos. Talvez tenham testado coisas que acabaram descartando, ou, ainda, talvez possam até explorar elementos dele, em trabalhos futuros. As 10 canções de “COM LAG (2plus2isfive)” foram lançadas na reedição deluxe do álbum “Hail To The Thief”, em 2009.

TKOL RMX 1234567 (2011)
O relacionamento do Radiohead com a música eletrônica alcança seu auge neste “TKOL RMX 1234567”, que não é um EP, mas sim uma compilação de 19 remixes feitos a partir de faixas de “King of Limbs”. Ao todo, sete singles foram lançados nos meses posteriores ao lançamento do álbum original contendo versões variadas das faixas, todas compiladas neste álbum duplo. A variedade de abordagem impressiona mesmo nas faixas que aparecem mais de uma vez, e que soam praticamente como músicas distintas devido à competência e experimentação sonora dos produtores convidados.

Só pra se ter uma ideia, “TKOL RMX 1234567” traz cinco versões de “Bloom” (remixada por Harmonic 313, Mark Pritchard, Blawan, Jamie XX e Objekt), três de “Morning Mr Magpie” (em remixes assinados por Nathan Fake, Pearson Sound Scavenger e Modeselektor) e duas de “Lotus Flower” (com Jacques Greene e SBTRKT nos botões). Há também uma faixa bem interessante: “TKOL”, que contém elementos de várias músicas agrupadas em uma só. O álbum passeia por gêneros diversos como o Dubstep, UK Garage, House e até IDM.

O time de produtores impressiona e vai de Four Tet, Caribou e Jamie XX até nomes mais obscuros como Jacques Greene, Nathan Fake e os alemães do Modeselektor. Cada um deles injeta uma sonoridade poderosa no disco e torna o conjunto bastante plural. O álbum foi lançado em outubro de 2011 em formato físico e também digitalmente pelo site da banda – seguindo o padrão dos singles separados de remixes.

Em uma entrevista na época do lançamento de “TKOL RMX 1234567”, Thom Yorke contou sobre a fascinação que possuía sobre a arte de remasterizar que, segundo ele, é interessante para observar como ideias fluem no processo e como uma canção pode soar bem diferente após a abordagem de outra pessoa. O resultado de “TKOL RMX 1234567” impressiona pela qualidade da produção, mas faltam momentos envolventes e emocionantes. Entre os poucos pontos altos estão “Bloom” (no remix de Harmonic 313), “Separator” (Four Tet) e “Codex” (Illum Sphere).

FAIXAS PERDIDAS
Os EP’s do Radiohead não esgotam todo o material que a turma de Thom Yorke deixou pelo caminho, e que demonstra o potencial experimental do grupo quando não está sob os holofotes do lançamento de um novo álbum. Entre as faixas perdidas (quase todas compiladas em uma série de bootlegs que atende pelo nome de ”Towering Above the Rest” e soma o número assustador de 24 discos) estão canções de destaque como “Million Dollar Question” (b-side do primeiro single “Creep”, lançado em setembro de 1992), o single “Pop Is Dead” (segundo single lançado pela banda em maio de 1993) e “Maquiladora” e “How Can You Be Sure?” (b-sides dos singles “High and Dry / Planet Telex” e “Fake Plastic Trees”, respectivamente).

Do período “Ok Computer” vale citar “Lull” e “How I Made My Millions” enquanto a radicalização da dobradinha “Kid A” e “Amnesiac” é muito bem representada pelos lados-b “Fast Track” e “Kinetic” (duas faixas repletas de ecos), “The Amazing Sounds of Orgy” (em arranjo mantrico), “Trans-Atlantic Drawl” (novamente ecos e exageros de produção entortados por tapes sobrepostos e riffs sujos de guitarra), “Cuttooth” (uma faixa mais tradicional e certinha) e “Worrywort”, que aproxima o Radiohead do Kraftwerk (com quem a banda excursionaria nos anos seguintes). A fase “In Rainbows” traz b-sides como “Down Is the New Up” (de pegada jazz) e “4 Minute Warning” (construida sobre efeitos, percussão e piano). Há mais, muito mais. E vale vasculhar.

Bruno Leonel é jornalista e já entrevistou Márcia Castro e Siba para o Scream & Yell

Leia também:
– Radiohead honra o mito ao vivo em São Paulo, 2009, com show grandioso (aqui)
– “Pablo Honey”, por Eduardo Palandi (aqui)
– “The Bends”, por Renata Honorato (aqui)
– “Ok Computer”, por Tiago Agostini (aqui)
– “Kid A”, por Luís Henrique Pellanda (aqui)
– “Amnesiac”, por Marco Tomazzoni (aqui)
– “Hail To The Thief”, por Marcelo Costa (aqui)
– “In Raibows”, por Alexandre Matias (aqui)
– “The King of Limbs”, por Marcelo Costa (aqui)
– Radiohead e Iggy Pop em DVDs baratinhos (aqui)
– “Rocks”, Radiohead: registro matador da banda ao vivo em 2001 (aqui)
– O dia em que o Sigur Ros roubou a festa do Radiohead na Bélgica (aqui)

7 thoughts on “Radiohead: A saga através dos EPs

  1. Adorei a matéria! Como fã incondicional do Radiohead, conheço todas as músicas. Tenho alguns desses EPs e lembrar de todos eles foi como fazer uma passeio na época em que eu compilava todos os b-sides da banda. Valeria muito a pena que eles lançassem uma caixa com todas essas músicas.

  2. Excelente matéria… Interessante notar que o Radiohead faz questão de colocar grandes canções fora de seus álbuns oficiais em EP’s mostrando que é uma das grandes bandas da atualidade.

  3. 90 % das bandas matariam para ter esse repertório B em sua discografia oficial. Na comoção da morte do Cobain, muitos cantaram o mantra do Nirvana como o ultimo grande a revolucionar música, paradas… Exagero! E dos nomes que despontaram na cabeça, O Radiohead foi o mais forte.

  4. Realmente… nesse ponto de ‘boas canções perdidas” acho que o Radiohead dá continuidade à uma certa tradição que começou lá atrás com os Beatles e até o Led Zeppelin. Muito positivo ver uma banda em constante produção e sempre explorando ideias, ainda que muitas delas sequer tenham lançamento comercial.

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