Cinema: Alabama Monroe

por Adriano Costa

Uma doença grave carrega com ela o destrutivo poder de desestabilizar qualquer relação familiar, amorosa ou cotidiana. O câncer, então, é mestre em fazer coisas desse tipo e quem já conviveu com uma situação assim entende bem esse cruel poder. Em “Alabama Monroe” (“The Circle Broken Breakdown”, no original), mesmo sem ser o sustentáculo principal com que o filme belga se apoia, é uma peça importante e funciona como delineador das ações que impulsionam a história adiante.

Lançado originalmente em seu país em 2012, a obra do diretor Felix Van Groeningen ganhou uma indicação ao Oscar desse ano na categoria de Melhor Filme Estrangeiro após ganhar prêmios em festivais prestigiados como o de Berlim e o de Tribeca. Aqui no Brasil passou pelo Festival de Cinema do Rio de Janeiro no ano passado, mas só estreou mesmo agora em 2014. O trabalho é baseado em uma peça de Jonan Heldenbergh em parceria com Mieke Dobbels, com roteiro adaptado pelo diretor em parceria com Carl Jools.

Em “Alabama Monroe”, o espectador é apresentado a Didier Bontinck (Jonan Heldenbergh), um músico de bluegrass apaixonado pela América e por esse ritmo irmão do country, e a Elise Vandevelde, uma tatuadora que exibe no próprio corpo inúmeras figuras. Os dois se encontram e passam a namorar. Com o tempo, Elise passa a integrar a banda que Didier mantém com amigos, e o resultado desse amor arrebatador e companheiro é a pequena e formosa Maybelle (Nell Cattrysse), que resulta em uma dedicação forte e afável de seus pais.

A história então sugere um conto de fadas. O casal se ama, mora em uma pequena fazenda em uma região rural, produz uma música pela qual são apaixonados (ele, pelo menos é) em um país com nenhuma tradição no estilo e tem uma linda e engraçada filhinha. Isso até Maybelle ficar doente e, a partir disso, tudo começa a desabar pouco a pouco, com o clima mais pesado a cada dia. Para contar essa história o diretor Felix Van Groeningen entrecorta passado e presente em um intervalo de mais ou menos sete anos, o que deixa tudo mais aflitivo.

No meio desse drama enternecedor, “Alabama Monroe” foca em vários aspectos como a quebra da estúpida crença reacionária de que músicos e pessoas tatuadas não são bons pais, no papel da religião como inibidora de descobertas científicas, e na inevitável transposição de culpa entre as partes. Como disse Raul Seixas na sua canção “Por Quem os Sinos Dobram”: “é sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, mesmo que não exista nenhuma culpa. Esses pontos são bem explorados e, vantagem do roteiro, não transformam o filme em um dramalhão novelesco.

Do lado mais aprazível da película entra a parte musical, muito bem executada (a banda realmente existe e faz shows na Bélgica) e coordenada pelo compositor e arranjador Bjorn Eriksson. Circulam pequenas pinturas como “Will The Circle Be Unbroken”, de A.P. Carter, “Cowboy Man”, de Lyle Lovett, ou “If I Needed You”, de Townes Van Zandt. Com isso, apesar de alguns caminhos mais óbvios na segunda metade de exibição, “Alabama Monroe” se constitui em um filme prodigioso onde música e dor conversam com inevitável intimidade.


– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) e assina o blog de cultura Coisa Pop

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