Três filmes: Pré-grunge, Metal e Punk

por Marcelo Costa

“1991 – The Year Punk Broke” (1992)
Agosto de 1991: o jovem diretor Dave Markey acompanha – com apenas uma câmera – a turnê europeia de duas semanas e meia (10 shows) em que o Sonic Youth, contratado pela major Geffen no ano anterior e divulgando o brilhante “Goo”, teria como banda de abertura o semi desconhecido Nirvana. “Vimos o Motley Crue tocando um cover de ‘Anarchy in The UK’ na TV e começamos a brincar que o movimento punk tinha deslanchado”, explica Thurston Moore 12 anos depois em um dos extras que acompanham a reedição comemorativa em DVD lançada em 2011 de “1991 – The Year Punk Broke” (o vídeo abaixo também integra os bônus). “Nenhuma banda punk estava nas paradas. Era ironia”, reforça Thurston, que foi atropelado pelo furacão grunge, afinal cerca de dois meses depois sairia “Nevermind”, álbum que tiraria Michael Jackson do topo da Billboard – o filme sairia apenas no ano seguinte. “1991 – The Year Punk Broke” flagra a faísca antes do incêndio e além de imagens de bastidores e shows da pequena turnê conjunta (o final de “School”, com Kurt destruindo a bateria e Dave agradecendo sorridentemente a plateia, é histórico) ainda flagra as duas bandas mais Babes in Toyland, Gumball, Dinosaur Jr e Ramones ao vivo no Reading. Nos extras, Thurston sacaneia Black Francis, Perry Farrel e o movimento emo enquanto Courtney é desmascarada: “Ela está apaixonada pelo vocalista do Smashing Pumpkins”, alguém diz, enquanto Kim Gordon tenta colocar panos quentes (aliás, difícil terminar o filme sem se apaixonar pela baixista). Um clássico para ver e mostrar pros filhos.

“Metal: A Headbanger’s Journey” (2005)
Logo após a senha ‘666’ encher a tela, um narrador em off começa a descrever um cenário: “Em 1986, aconteceu algo estranho: o heavy metal chegou a ser música mais popular do mundo”. Na sequencia, ele conta que muitos fãs e artistas foram perseguidos por grupos religiosos, associações familiares e até pela Justiça (“Artistas metaleiros foram denunciados por incitar suicídios e até homicídios”), e conclui: “Como sei tudo isto? Porque eu era um deles. Meu nome é Sam Dunn e este sou eu em 1986”. Sam (que assina a direção do documentário ao lado de Scot McFadyen e Jessica Wise) declara sua paixão pelo metal, e diz que queria tanto entender o estilo que se formou em antropologia e foi estudar o fenômeno. O resultado é um filme esperto e interessante que, em tom pessoal, desmembra a árvore genealógica do metal (que viraria uma série de sucesso na VH1 posteriormente) e sai a campo para tentar entender por que tanta gente odeia o estilo. Ele entrevista lendas como Tony Iommi (que, no DVD extra, relembra quando perdeu as pontas dos dedos no último dia em que trabalharia numa fábrica, e como isso fez com que ele tocasse de uma maneira diferente), Alice Cooper (sempre divertido), Ronnie James Dio (simplesmente genial), Bruce Dickinson e muito mais gente bacana do cenário além de bater ponto no festival Wacken Open Air (a meca dos metaleiros), desbravar o temido black metal norueguês (com direito a um aprofundamento nos extras da caprichada edição dupla em DVD) e mostrar que boa parte dos metaleiros tem muito mais neurônios do que julga a TFP. Essencial.

“Botinada: A Origem do Punk no Brasil” (2006)
Ex-VJ da MTV e apresentador do excelente MusiKaos, na TV Cultura, Gastão Moreira colheu durante quatro anos depoimentos de grande parte dos punks que formaram as primeiras bandas no Brasil (principalmente em São Paulo), no final dos anos 70 e começo dos 80, criando com “Botinada: A Origem do Punk no Brasil” um documento histórico. A narrativa recheada de entrevistas com quem viveu a época é costurada com trechos dos documentários raros “Garoto do Subúrbio” (1983), de Fernando Meirelles, “Punks” (1984), de Sara Yaknni e Alberto Gieco, e “Rota ABC” (1991), de Francisco Cesar Filho, e ainda traz algumas imagens mais raras ainda, como a sensacional apresentação ao vivo do Cólera na TV Tupi, em 1980, que não foi ao ar na época (e que traz o apresentador todo sorridente mandando: “Agora vamos ouvir o Cólera com ‘Ela Só Sabia Matar’”), e imagens do polêmico show do Inocentes tocando na casa de grã-finos Gallery, em 1982. Gastão peca apenas por focar sua história excessivamente em São Paulo (algo que o livro “Punk– Anarquia Planetária e a Cena Brasileira”, de Silvio Essinger, lançado em 2000 e hoje raríssimo, abre de forma mais completa), o que de forma alguma desmerece um documentário que, de bônus na edição oficial, traz um CD com 14 clássicos do cancioneiro punk brasileiro, com canções como “John Travolta”, do AI-5; “Nada”, do Olho Seco; “Agressão/Repressão”, do Ratos de Porão; “O Punk Não Morreu”, do Lixomania; “Festa Punk”, dos Replicantes; e “Pânico em SP”, dos Inocentes, entre outras. Para ver, ouvir e pogar.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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