Três perguntas: Constantina

por Marcelo Costa

No final de 2003 surgia em um pequeno home studio do bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte, o Constantina, uma banda de rock instrumental que entendeu que o cenário independente não é local para acomodados: é preciso batalhar e abrir portas! Em 10 anos de banda, o quinteto já soma cinco álbuns lançados, participações em coletâneas, um festival próprio (o Pequenas Sessões que em 2013 chegou à sua 6ª edição) e turnês nacionais e internacionais, somando duas passagens pelo prestigiado festival South by Southwest, em 2011 e 2012.

Em 2013, completando 10 anos, o Constantina anuncia disco novo para dezembro, “Pelicano” (“Pacifico”, o mais recente, é de 2012 e conta com participações de Wado e Franny Glass, entre outros), e libera para download gratuito em seu site oficial (http://www.constantina.art.br) a primeira faixa do novo trabalho, “Colorir”, uma música gravada no estúdio americano Womens Audio Mission (WAM) durante a turnê realizada nos Estados Unidos, em 2012. “Terri Winston foi incrível”, relembra o baterista Daniel Nunes. “Ela desenvolve este projeto, WAM, no qual o estúdio serve de laboratório para mulheres que pretendem trabalhar no mercado da produção musical profissional. Um belo espaço para trocas e aprendizagens”, explica.

Ter uma banda instrumental no Brasil sempre foi um desafio. “É um cenário que ainda está amadurecendo e se descobrindo”, pondera o guitarrista Bruno Nunes. “Acho que tivemos uma grande virada nos últimos três anos, apesar de estar longe de ideal”, analisa o guitarrista Alex Fernandino (além de Alex, Daniel e Bruno, o Constantina conta com André Veloso no baixo e GA Barulhista na percussão e eletrônicos). Abaixo, três perguntas para a banda:

Quando vocês começaram a banda em 2003, imaginavam estar juntos 10 anos depois? Qual o segredo para manter uma banda independente unida no Brasil?
Daniel Nunes: Pois é… 10 anos se passaram e confesso que em alguns momentos parece ter iniciado algumas semanas atrás… mas na verdade ao ler esta pergunta, um filme passa a cabeça e lembro que vivemos tanto este projeto. Dedicamos tanto de nós para que acontecesse de uma forma tão prazerosa, que ao pensar sobre a pergunta, eu diria que sim! Eu diria que nos imaginaríamos sim! Mas claro que no meio do percurso várias coisas nos aconteceram e estas nos fizeram ponderar sobre a existência do Constantina. Penso que hoje, 10 anos depois do primeiro ensaio no nosso pequeno quarto em BH, a importância que sentimos ao pisar neste espaço, está intimamente ligado com as pessoas, digo nós como individualidades em num processo coletivo. Aprender a respeitar estas individualidades e trabalhá-las coletivamente, nos fez “ter” durante 10 anos os melhores amigos que a vida me presenteou. Se de fato existe um segredo, digo que para mim é este…

Bruno Nunes: Não me lembro se esse pensamento me ocorreu na época… de 10 anos depois ainda estarmos tocando e fazendo show… (risos). Na época vivíamos muito o momento de maneira bem intensa… Éramos jovens e não tínhamos tantas responsabilidades como hoje além banda, mas de alguma forma era um desejo sim, de fazer música sempre! Não sei se existe uma fórmula ou segredo, mas o principal é ralar muito… Tem uma piada interna na banda que sempre soltamos nos momentos de maior perrengue: “Não há glamour nenhum em se ter uma banda independente” : P

Alex Fernandino: Não me recordo se este pensamento passou pela cabeça muitas vezes, mas quando vem é sempre após alguma vivência positiva que passamos envolvendo o Constantina, seja pelo âmbito da música ou pela questão da vivência e convivência coletiva. É nestes momentos que vem a cabeça a certeza e vontade de continuar por muito tempo fazendo o que fazemos e da forma como sempre foi feito. Acho que é algo que todos levam em comum e, consequentemente, cá estamos celebrando 10 anos. Manter uma banda unida não existe fórmulas, o que acredito é justamente nesse desejo coletivo e amor pelo que se faz. Se ele existe você trabalha duro, se envolve mesmo não sendo mil maravilhas o caminho independente, se dedica de forma que se torne um prazer viver isso.

Vocês gravaram o single “Colorir” no Womens Audio Mission, ano passado. Como foi a experiência de gravar em um estúdio gringo? E a turnê? Foi bacana?

Daniel Nunes: Uma das melhores experiências que vivenciei com o Constantina. Primeiramente ter conhecido a Terri Winston foi incrível! Terri é daquelas pessoas que tem uma bagagem extra da vida e experiência profissional, mas que traz consigo uma humildade bela! Uma delicadeza que emociona! Além de uma energia tão gostosa! Que faz acalmar em Estúdio. Ela desenvolve este projeto, WAM, no qual o estúdio serve de laboratório para mulheres que pretendem trabalhar no mercado da produção musical profissional. Um belo espaço para trocas e aprendizagens. Um belíssimo projeto que une artes, política e técnicas de forma incríveis. Ter realizado a gravação de “Colorir” no WAM nos abriu perspectivas sobre os processos de registro das nossas músicas. Nunca havíamos trabalhado com produtores, e isso nos fez romper uma série de barreiras, fazendo com que entendêssemos como potencializar nossos registros.

A tour foi ótima! Passar um mês viajando pelo deserto dos EUA foi uma vivência incrível! Além de nós, tivemos a companhia de dois grandes amigos, Victor de Almeida e Samuel Mendes, que de alguma forma nos levaram para lugares mais distantes, nos ajudando a sair um pouco do universo musical para sentir e enxergar outras vivências que tínhamos diariamente.

Tivemos shows incríveis como os de Marfa, no Texas, no qual o público chegou até a subir no palco para tocar com a gente! Em San Francisco chegamos a tocar e improvisar com a banda local, que tinha uma pegada percussiva muito boa! Nesta noite eram muitas pessoas dançando. Uma energia incrível! E outros estranhos, como em Los Angeles, em que os moldes dos anos 90 ainda prevalecem. Bandas que montam pequenos showcases esperando que grandes agenciadores estejam por lá para “descobri-los”. Mas para mim, todos (estes shows) têm sua singularidade e há sempre algo que aproveitamos para a vida. Mas o importante de ter vivido isso tudo de perto foi entender um pouco mais o funcionamento da música independente por lá, revelando-se um pouco desse universo místico. O universo independente por lá se baseia muito no universo dos agenciadores, os chamados “bookers”. Diferente do Brasil, onde muitos artistas/bandas são seus próprios agenciadores, nos EUA penso que se você não estiver em uma agência com um booker legal, as coisas não funcionarão. Esta logística realmente nos faz entender o sentido que eles empregam a palavra “consumo”!

Bruno Nunes: O mais bacana foi poder compartilhar e trocar idéias em torno de como se gravar uma música da melhor maneira para se conseguir o resultado que se procura… Isso foi muito rico… ter a Terri ao nosso lado para aprimorarmos isso! A nossa última turnê nos EUA foi um dos momentos mais incríveis nesses 10 anos… foram pouco mais de 20 dias vivendo intensamente de música, passando por vários apertos e tendo várias surpresas boas… ou seja… não faltaram histórias quando completarmos 20 anos… risos

Quais os desafios de se fazer música instrumental no Brasil? Vocês chegaram a perceber uma mudança no cenário de 2003 pra cá?
Daniel Nunes: Eita! Pergunta difícil! Risos! Muitos! Muitos! Muitos! Pra mim primeiramente está em rompermos as barreiras de fomentos culturais do país. Nossa percepção sobre este assunto foi potencializada enquanto estávamos em excursão pelos EUA. Nos deu um panorama mais claro sobre o Brasil. Música Instrumental, como a que realizamos, esteve por muito tempo marginalizada, sem espaços nos festivais e casas de shows. Se a dificuldade estava em conseguir romper as barreiras, o cerne da questão rodeava a problemática da circulação. E para isso, antes mesmo da tour, pensamos em como potencializar estas produções. Então surgiu a ideia de criar intercâmbios entre artistas/bandas de diversas cidades que viviam o problema de forma semelhante. Criamos em BH as “Pequenas Sessões”, um festival que entendia e vivia no seu cerne esta problemática da circulação e formação de público. As trocas são o maior ouro de toda a produção independente. Através delas, pudemos entender uma série de contextos e soluções que poderiam ser de certa forma, articuladas em diversos territórios, fazendo circular o que antes era localizado em uma cartografia específica.

E desde então, a abertura para a música instrumental têm sido cada vez mais intensa, nomes como Hurtmold, Macaco Bong, ruído/mm abriram portas que com certeza se abriram para infinitas outras bandas, fazendo aparecer esta imensidão de produções fantásticas que temos hoje no país. E o que queremos cada vez mais é potencializar estas articulações e diálogos!!

Bruno Nunes: A meu ver é um cenário que ainda está amadurecendo e se descobrindo… Muita coisa já mudou para melhor, mas as dificuldades ainda existem e pensar em como se sobrepor a essas eventuais dificuldades ainda é o grande desafio para se manter ativo e fazendo shows!

Alex Fernandino: Se feita essa pergunta 10 anos atrás eu diria: uma loucura. Antigamente a abertura para música instrumental independente era mínima bem como a receptividade das casas de shows e publico. Acho que tivemos uma grande virada neste cenário nos últimos três anos, apesar de estar longe de ideal. Acredito que o cerne da questão nem seja propriamente ser instrumental. O que percebemos desde sempre no Brasil é a grande dificuldade dos artistas fazerem concertos pelo país, seja pela questão territorial (nosso país é enorme) ou pela falta de espaço e fomento da cena independente. Mesmo diante disso há vontade de continuar a fazer música é constante. Há um movimento recente de abertura de novas casas de show alternativa que a meu ver tem grande potencial de viabilizar o intercambio e a circulação das bandas pelo país.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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