Para Entender: New Model Army

por Leonardo Vinhas

Entre o culto, a obscuridade e um período de “quase sucesso” (final dos anos 80, começo dos 90), a banda britânica New Model Army atravessa 30 anos de carreira (foi fundada em 1980) muito mais fiel à sua premissa do que a uma estética específica. Ainda que sem mudanças radicais, sua música evoluiu, estagnou e evoluiu novamente, e nesse processo estabeleceu um grupo fidelíssimo de fãs, que se autodenomina “The Family”, o que faz especial sentido dentro do contexto lírico e temático que é indissociável ao grupo.

Não há consenso para definir o New Model Army – tanto política quanto musicalmente. Mais que isso, há contradições. Já foram chamados tanto de “folk rock” como de “góticos”, de “extrema esquerda” e “reacionários” – todos rótulos aplicáveis a uma ou outra canção, é verdade, mas inviáveis para definir a essência da banda.

O folk é, de fato, parte essencial – mas ele vem acompanhado de uma forte bagagem pós-punk. Violões ocupam tanto espaço nos discos quanto baixos em primeiro plano ou baterias no contratempo. Carlos Remontti, baixista da banda paulista La Carne (assumidamente influenciada pelo New Model Army), conta que “uma das coisas que me chamaram a atenção ao ouvi-los foi que naquela porra de banda o som do baixo vinha na frente. Como assim? Não era aquela coisa do baixo ser ‘coadjuvante’, ‘fazer a “cozinha’. Pra mim, a coisa mais importante do New Model Army, e que os faz ser uma banda única, foi isso: fazer o baixo deixar de ser coadjuvante e virar protagonista”.

O único integrante constante na formação é o vocalista e guitarrista Justin Sullivan (o cara do meio na foto que abre o texto). Ao longo dos anos, eles já foram trio, quarteto e quinteto, chegando até a ter um violinista (Ed Alleyne-Johsnon, também tecladista) como membro permanente entre 1989 e 1993. O circuito de turnês incessantes (geralmente por clubes pequenos) e os radicalismos de Sullivan, criado em meio aos extremos rigores da doutrina Quaker, nunca facilitaram a convivência dentro da banda – especialmente entre ele e o baterista Rob Heaton.

O ápice das tensões internas foram as gravações do álbum de 1998, que recebeu o apropriado título de “Strange Brotherhood” (“Estranha Irmandade”). O clima pesado, que teve seu ápice no diagnóstico de câncer que eventualmente levaria Heaton à morte em 2004, rendeu o pior disco da banda. As dificuldades enfrentadas no fim do século levaram o grupo a se reavaliar, e o disco “Eight” recolocou a brigada em um rumo melhor definido, deixando o som da banda mais fluido e pesado, porém menos denso e não tão sombrio. “Today Is a Good Day”(2009) é o disco que melhor define esse período atual, assim como “No Rest for the Wicked” (1985) representa melhor a primeira fase.

A extensa discografia compreende 12 álbuns de estúdio (o mais recente, “Between Dog and Wolf”, foi lançado no dia 23 de setembro deste ano), seis ao vivo, duas compilações de lados B e sete antologias. Além dos já citados, “The Ghost of Cain” (de 1986, de onde o Sepultura tirou “The Hunt”, presente no álbum “Chaos AD” e no show do Rock in Rio 2013), “Thunder and Consolation” (1989) e “The Love of Hopeless Causes” (1993) talvez estejam entre os obrigatórios, embora valha passear por todos os discos (ok, esqueça “Strange Brotherhood”). E para quem quiser um mergulho rápido na banda, selecionamos cinco canções que ajudam a definir a fúria e as sutilezas de Justin Sullivan e seus companheiros de batalha.

“Vengeance”
A letra prega justiça pelas próprias mãos e aponta o dedo na cara de criminosos de guerra, traficantes de drogas, advogados corporativos e políticos corruptos. É uma das principais responsáveis pela pecha de extremista que acompanha a banda, mas a desconcertante linha de baixo e a entrega de Sullivan criam um envolvimento inevitável.

“Vagabonds”
Única canção do New Model Army a chegar ao Top 40, “Vagabonds” é a canção-emblema da banda, mais até que a famigerada “51st State”. Riff de violino, bateria marcial e guitarras secas amparando um vocal declamado, fora o refrão inesquecível (“Somos velhos, somos jovens / estamos juntos nessa / vagabundos e crianças / prisioneiros para sempre / com a pulsação em fúria /e olhos cheios de espanto”).

“Purity”
A complexa espiritualidade de Justin Sullivan traduzida em uma canção onde o lado folk sobressai, com um vigor que não arranha – ao contrário, valoriza – a melodia. O refrão também é matador.

“Fate”
Mesmo sem um refrão propriamente dito, é um folk rock de apelo pop. Faixa mais marcante de “The Love of Hopeless Causes”.

“Today Is a Good Day”
Um riff nervoso e pesadaço emoldura uma letra que celebra (sim, celebra!) a crise financeira de 2008, em especial a quebra da bolsa de Nova Iorque. Não uma volta, e sim a atualização das raízes que o New Model Army fortaleceu na primeira metade dos anos 1980.

>> Influência assumida

Depoimentos de músicos que têm no New Model Army uma influência indispensável:

Carlos Remontti (baixista do La Carne)
“Lá pelos 15 anos, eu tocava ‘rock nacional’ no violão, ouvia Joy Division e andava com os livrinhos de bolso da Brasiliense – Comunismo, Anarquismo, etc. Vai vendo.
Aí lembro que uma das coisas que me chamaram a atenção ao ouvir New Model Army foi que naquela porra de banda o som do baixo vinha na frente. Como assim? Não era aquela coisa do baixo ser ‘coadjuvante’, ‘fazer a cozinha’. Porra nenhuma. Pra mim, a coisa mais importante do New Model Army, e que os faz ser uma banda única, foi isso: fazer o baixo deixar de ser coadjuvante e virar protagonista – talvez a maior contribuição dos anos 80 para o rock.

E tem também o lance da longevidade, né? Mesmo com fãs pela Europa, Japão e América, o New Model Army nunca foi de vender milhões de discos e nem foi ‘sucesso comercial’. E mesmo assim seguem na lida até hoje. E lá se vão trinta e tantos anos! Eles são um caso raro de bandas que não vivem do passado. Vivem NO presente e DO presente.

Ó, sem medo de errar, creio que a existência do New Model Army fez sim eu tocar baixo do jeito que toco. De curtir o som da palheta, de acreditar no anti-artista, de ter pra mim que no rock moderno o baixo deve estar na frente, que não se deixar acomodar e não se deslumbrar é o que faz você seguir em frente etc.

E hoje, depois de quatro discos lançados de forma independente com o La Carne, de não me considerar artista, de não tocar baixo em casa – só toco baixo com minha banda – e de dividir o palco todos esses anos com caras que salvaram a minha vida de um cotidiano medíocre, os versos de “Vagabonds” – “We are old, we are young, we are in this together, Vagabonds and children, prisoners forever…” – nunca fizeram tanto sentido.

Ah, e tem um episódio ótimo! Nos shows que eles fizeram aqui, em 2007, o Linari (vocalista do La Carne) presenteou o Sullivan com um livro-coletânea (bilíngue) de novos poetas brasileiros, um DVD do filme “Carandiru”, uma camisa do Osasco Futebol Clube e três CDs do La Carne.
Here comes the waaaarrrr!!!!”

Luis Naressi (guitarrista do Labirinto)
“Tive uma relação muito peculiar com o New Model Army quando mais novo. No meu emprego, tem um cara (amigo do Justin Sullivan) que me ‘catequizou’ mostrando – um por mês – todos os álbuns originais do New Model Army. Na época, não tinha dessas de baixar a discografia da banda e conhecer tudo, então fui ouvindo tudo até o “Strange Brotherhood”. Foi a melhor coisa que fiz na vida, me mostrou o quanto me ligava nesses temas oitentistas soturnos e não sabia. Meu jeito de ver os anos 1980 mudou depois dos discos “Thunder and Consolation” e “No Rest For the Wicked”.

Dentre tantas qualidades que admiro no New Model Army, uma delas é essencial para mim: o engajamento político que nos faz refletir sobre temas que, até então, nos passavam despercebidos no cotidiano. Você só passa a analisar cada passo da sua vida depois que percebe o quão insignificante você é nesse mundo e quanta merda existe na maneira de governar pessoas. Portanto é esse engajamento que nos permite tentar melhorar um pouco essa questão.”

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Leia também:
– Para entender #1: The Replacements, por Tiago Agostini (aqui)

9 thoughts on “Para Entender: New Model Army

  1. Muito bacana o texto, mas discordo totalmente sobre “Strange Brotherhood”. Acho, e conheço outros fãs do NMA que concordam, que é um disco brilhante. Me arrisco a dizer que está no Top 5 dos sujeitos, atrás de “No Rest”, “Ghost of Cain”, “Love of Hopeless Cases” e do maior de todos, claro, a obra-prima “Thunder & Consolation”.

  2. Esquecer “Strange Brotherhood”?! Que crime! Adoro esse disco! O que menos gosto, mas gosto de todos, em diferentes graus, é “No Rest”. Claro que “Thunder And Consolation” é o campeão, mas também adoro “Love Of Hopeless Causes”, “Carnival”, etc. Assisti ao primeiro show da banda no Dama Xoc, em 1991, depois os de 2007 e os dois de 2010, um dos melhores shows da minha vida, ao lado de The Evens.

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