Ouça a estreia do Vespas Mandarinas

por Eduardo Martinez

Se procurarmos uma referência geral do rock feito no Brasil, podemos puxar na memória e colocar Os Mutantes no topo da lista, ou mesmo destacar a inocência dos roqueiros da Jovem Guarda, mas a impressão que fica é que o termo “Rock Nacional” é inevitavelmente ligado às bandas dos anos 80: Titãs, Ira!, Legião Urbana, Engenheiros do Hawaii e tantas outras.

Mesmo três décadas depois, essa cena ainda é uma referência forte, menos musicalmente e mais como um símbolo. Ainda existe um carinho e uma consideração quando se fala desse período. O tempo passa e muitos elementos da cultura em geral vão se revelando estritamente frutos de um período específico, e com o “Rock 80 Brasil” não é diferente.

Pode ser que ainda não tenha passado tempo suficiente e que daqui a 10 anos essa reverência seja direcionada a bandas da década seguinte, como Raimundos, Planet Hemp ou… Charlie Brown (!!). Não temos como saber, ainda.

Cortando para 2013, ou mesmo a partir de 2010, o rock brasileiro, ao menos pensando em mainstream, inexiste. E mesmo no underground, as bandas independentes legitimamente roqueiras não são muitas que conseguem se destacar – levando em conta que critérios para classificar uma banda como “rock” são cada vez mais variáveis e muitas vezes desnecessários.

A banda paulistana Vespas Mandarinas vai além do simbolismo e traz também um pouco do som e da temática oitentista em seu álbum de estreia, “Animal Nacional”. O grupo, formado por Chuck Hipolitho (Forgotten Boys), Thadeu Meneghini (Banzé), André Dea e Flávio Guarnieri (Sugar Kane), resgata em seu debute o imaginário de várias bandas do período.

O disco começa bem com a urbana “Cobra de Vidro” e também “Não Sei O Que Fazer Comigo”, versão de “Ya No Sé Qué Hacer Conmigo”, da ótima banda Uruguaia El Cuarteto De Nos, com vários versos adaptados. Em seguida vem “Santa Sampa”, escrita em conjunto com Bernardo Vilhena. Como o título da música sugere, o tema é a vida em São Paulo. O disco, como um todo, tem várias referências a capital paulista.

“Animal Nacional” tem uma ligação bastante íntima com o último trabalho do Banzé, o subestimado “Antes da Queda” (2008), onde aparecem originalmente as músicas “Cobra de Vidro” e “Um Homem Sem Qualidades”, as duas com versões ligeiramente melhores do que as que entraram no álbum do Vespas. Mas a semelhança dos dois discos vai além, a aspereza das guitarras e os temas urbanos das letras aproximam os dois trabalhos.

Os vocais das músicas são divididos entre Chuck e Thadeu (seis músicas para cada um). Em “O Amor E O Acaso”, o ex-Forgotten Boys canta uma letra de amor quase simplória: “Mas como é que ele vai te achar / Se você se esconde / Vai ver você já encontrou o amor / Só você não sabe”. Já em “O Vício E O Verso” (sim, os títulos das músicas tem um “quê” de Engenheiros do Hawaii) Thadeu canta em meio a guitarras cheias de efeitos que remetem, mais uma vez, aos anos 80. As frases prontas “O vício e o verso / Navegar é preciso /Meu rumo é o inverso / E viver é um preciso, meu amor” são facilmente relevadas pelo vigor da música, principalmente no refrão, onde o vocal intenso beira o desafinado.

“A Prova”, parceria com Arnaldo Antunes, é leve e simpática – quando começa a soar muito repetitiva, felizmente termina. “Só Poesia” também se repete bastante, mas dessa vez com mais peso e uma sutil lembrança de Queens Of The Stone Age. Os versos quase lineares culminam em um bom refrão. “O Inimigo” é suja e fala de uma certa maldade decadente. “Rir No Final” mantém o peso, agora com uma letra rancorosa e ressentida.

“Distraídos Venceremos” é quase uma balada com jeitão de hino nerd, mas não é. A canção derradeira é “O Herói Devolvido”, uma faixa desajeitada e divertida que traz, novamente, um amontoado de frases feitas: “Quanto mais eu rezo / Mais assombração me aparece / Na vida a gente não tem o que quer / A gente tem o que merece”.

“Animal Nacional” não sinaliza nenhuma “nova” tendência, e nem tem intenção de, mas faz um resgate interessante do rock brasileiro anos 80, felizmente não embriagado pelo saudosismo. É um disco com alguns bons momentos e outros nem tanto, e talvez o grande charme do álbum seja essa irregularidade, que pode ser associada à forma como ouvimos as bandas oitentistas hoje, ou como Chuck canta em “O Herói Devolvido”: “Tá todo mundo tão preocupado em ser perfeito / mas no final o que faz falta é o defeito”.

******

– Eduardo Martinez (@eduardoapm) é jornalista e assina o blog A Ilha dos Mendigos

Especial Rock Nacional 30 anos:
– Clássicos: “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, do Ultraje a Rigor, por Marcelo Costa (aqui)
– Clássicos: “Dois”, da Legião Urbana, por Tiago Agostini (aqui)
– Clássicos: “Cabeça Dinossauro”, por Tiago Trigo (aqui)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.