A Hora Mais Escura, Kathyrn Bigelow


por Itamar Montalvão

Três anos após a estreia do aclamado “Guerra ao Terror” (“The Hurt Locker”), o grande vencedor do Oscar de 2010, a diretora Kathyrn Bigelow e o roteirista Mark Boal voltam aos cinemas e à disputa por um novo lote de estatuetas com “A Hora Mais Escura” (“Zero Dark Thirty”), que estreou na última sexta-feira (15/2) no Brasil. “Guerra ao Terror” levou seis Oscar em 2010, e desta vez, Bigelow concorre em cinco categorias: Roteiro Original, Edição, Edição de Som, Melhor Atriz (Jessica Chastain) e Melhor Filme.

A temática continua a mesma: a reação norte-americana ao recrudescimento do terrorismo após os atentados de 11 de Setembro. Agora, a dupla amplia a abrangência e cobre uma década inteira de bastidores da caçada a Osama Bin Laden, desde os fatídicos ataques de 2001 até sua morte em maio de 2011. Para escrever o roteiro, Mark Boal, ex-correspondente de guerra no Iraque, se baseou em depoimentos de militares e agentes da CIA diretamente envolvidos na missão.

O filme, na verdade, é a versão oficial dos fatos contada pelo governo americano. Bigelow não faz nenhuma abordagem reveladora capaz de lançar nova luz sobre os acontecimentos. Mas embora conte uma história cujo final já é conhecido, “A Hora Mais Escura” é tenso desde o primeiro minuto. Sem imagens, o áudio real registrado durante o sequestro do voo United 93 impressiona e situa o espectador no ponto de partida da narrativa. “I’m going to die, aren’t I?”. Dramático. A partir daí, acompanhamos o desenrolar da ação através dos olhos verdes de Maya (Jessica Chastain, excepcional), a agente da CIA que não tem outra vida a não ser a busca de informações que levam ao paradeiro de Bin Laden em Abbotabad, no Paquistão.

De todos os filmes feitos sobre o tema até hoje, Maya talvez seja a personagem que melhor representa a consciência do norte-americano médio diante das ações de combate ao terrorismo. O filme, com sua realidade quase documental, suscita um debate ético que não é novo, mas jamais deixará de ser atual: os fins realmente justificam os meios? Vale tudo para deixar o país mais seguro? No início da missão, Maya é apresentada aos métodos de tortura da CIA e seu desconforto diante do ‘waterboarding’, uma técnica que simula o afogamento do prisioneiro, é o nosso desconforto.

São cenas chocantes. Mas assim como o tal norte-americano médio, ela parece entender que aquilo não é nada perto de um bem comum e vai em frente. Ao longo de mais de duas horas e meia de projeção, acompanhamos a transformação de uma agente incomodada com o uso de métodos nada ortodoxos de investigação em uma mulher fria e objetiva, que em nenhum momento desvia a atenção do seu alvo, mesmo quando não conta com o apoio de seus chefes diretos. Numa ótima cena, que marca essa transformação, Maya é levada a uma reunião política na sede da CIA e, sentada no fundo da sala, ao ter a identidade questionada pelo diretor da agência (James Gandolfini) responde: “Eu sou a filha da puta que descobriu o esconderijo, senhor”.

Não caia na onda dos detratores do filme e faça como Kathryn Bigelow: evite o julgamento. As cenas de tortura são duras, mas não há discursos. Talvez a diretora tenha sido ajudada pela morte de Osama Bin Laden durante a produção do filme, o que de certa forma aliviou a pressão da opinião pública sobre o governo em relação à prática de tortura, sempre negada oficialmente. “A Hora Mais Escura” é um grande thriller de espionagem. Tem o mérito de não apelar a todo instante para cenas de ação (embora a sequência final seja avassaladora) ou desvios melodramáticos. Ainda que baseado em informações oficiais (o que em princípio não é necessariamente ruim), o filme é um dos melhores documentos sobre um dos eventos mais importantes da história recente.

– Itamar Montalvão (siga @imont) é estudante de jornalismo, assina o blog Pop Bacana

Leia também:
– “Guerra ao Terror” é um thriller de ação que disserta sobre vícios, por Marcelo Costa (aqui)
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2 thoughts on “A Hora Mais Escura, Kathyrn Bigelow

  1. Os americanos são os principais terroristas em atividade no mundo (mexem com tudo e todos). O resto (a defesa da liberdade, o bla bla bla pela democracia, a defesa do modelo ocidental) é tudo balela pra idiota achar bonito. E negar a prática de tortura, convenhamos, é ridículo. Mais fácil acreditar em papai noel. Por detrás da fachada, garotão, the americans are the evil one.

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