A nudez como inspiração

Texto por Leonardo Vinhas
Fotos por Matt Blum

O estabelecimento de padrões de beleza não é uma exclusividade do mundo moderno. Desde que se documenta a história da representação da humanidade, seja em manifestações artísticas ou nos meios de comunicação, existiram padrões que vigoraram durante determinados períodos de tempo, em que a beleza se apresentava como ideal a ser buscado, fosse como portador da mesma (quando essa não era uma benção divina) ou como possuidor dela. De modo que não é nova a situação que hoje tanto se discute, da busca quase sempre dolorosa para se atingir uma estética considerada ideal. O que é novo é como essa beleza nos é apresentada: com um bombardeio incessante de estímulos em publicidade e canais editoriais (seja de TV, internet ou impressos), que se estende em um estilo de vida que inclui paranoia alimentar (uma refeição passa a ser uma equação matemática de soma e compensação de calorias), drogas farmacológicas e tantas ramificações que são muitas para listar aqui. Uma verdadeira opressão, especialmente insidiosa para as mulheres, mas nociva também aos homens, independentemente de orientação sexual de ambos os gêneros – e piorada pelos recursos de manipulação digital de imagens, que criam espelhos irreais nos quais nunca conseguiremos nos ver.

Em um mundo como este, chama muita atenção o trabalho do fotógrafo norte-americano Matt Blum. Seu “Nu Project” (http://thenuproject.com/) é uma reação imediata e intensa a falsidade cruel dos padrões onipresentes. Sob o mote “You Are Beautiful”, Blum fotografa mulheres nuas dos Estados Unidos, Canadá e Brasil. As fotos são sempre em suas casas, já que Matt acredita que o lar cria familiaridade e traz elementos que compõem todos os fatores que marcam a beleza de sua fotografada. Sem recursos profissionais de iluminação e sem retoques digitais (a não ser para corrigir imperfeições técnicas da imagem), as fotos compõem um mosaico da abrangência da beleza feminina, venha ela emoldura por quilos a mais ou a menos, adornada por marcas ou manchas, independente de cores e tamanhos.

“Comecei com essas fotos em 2005 porque era interessante”, contou Blum por telefone ao S&Y. “Não gosto de modelos. Nada tenho nada contra elas, mas não há desafios. Quando você trabalha com pessoas que nunca fizeram isso antes é bem mais estimulante”.

O curioso é que Matt não tem uma definição para o que seria a “beleza”, em termos conceituais. Porém, tem claro para si que diferentes tipos de pessoas têm diferentes tipos de beleza, e que essa não envolve apenas o corpo, mas a personalidade, o entorno, os fatores subjetivos e inclassificáveis ao primeiro olhar. “O objetivo é mostrar as coisas e as pessoas como elas são. Por isso o ‘you are beautiful’ na entrada do site. Porque alguém que entre lá e veja as fotos vai ser mais um a enfatizar que a mulher ali retratada é linda”, diz Blum.

Brasileiras e belas

Matt esteve no Brasil duas vezes. Em ambas, clicou várias mulheres em diferentes cidades. A convocação se deu através de seu site, e ele seleciona as candidatas (que não recebem cachê ou compensação financeira) a partir de entrevistas pela internet. A designer paulistana Mariana foi clicada na primeira incursão dele por essas terras, em 2010. “Era um momento da minha vida em que eu precisava afirmar a mim mesma que eu era uma mulher interessante, mesmo sendo fora do padrão preferido dos homens: bundão, peitão, cabelão… Acho que, na verdade, esse foi o começo para parar e pensar na minha identidade como mulher. E foi justamente aí que me identifiquei com o Nu Project. Aquelas mulheres eram como eu: com cicatrizes e tatuagens, esquisitas, mas lindas, interessantes… Mulheres de verdade”, conta.

A estudante de arte Lara Lima, de Curitiba, que foi clicada em 2012, teve motivação semelhante. “O diferencial do Nu Project é que o site começa com uma afirmativa, ‘you are beautiful’, e depois que você entra naquele mundo, de todas aquelas fotografias, você é incapaz de se convencer que alguma daquelas mulheres ali é feia. O que intriga é que cada uma tem uma forma física diferente da outra, a ideia de padrão se perde”.

O choque causado pelas imagens do Nu Project em Mariana, Lara e outras mulheres que posaram para o site, deve-se à percepção do corpo como objeto de propaganda. Na definição do sexologista João Luis Borzino, “vivemos na era da imagem e das ‘imagens’. O corpo se tornou estereotipado, espetacular, e só se deve admirar o padrão do belo – leia-se siliconado, ‘plastificado’, ‘photoshopado’, anabolizado etc – sendo o natural sinônimo de rejeição. Mulheres que vemos e lidamos todos os dias, não são aceitas, nem por elas mesmas, como desejáveis. Para muitos, olhar estas fotos é como ir a um zoológico bizarro onde se encontra o pior de cada espécie”.

Não deixa de ser curioso que isso seja visto por Matt Blum como uma coisa típica das Américas. Perguntado por que não fotografou europeias em seu projeto, ele disse que até tentou, “mas na Europa rola uma atitude diferente em relação à nudez. É comum você ver uma modelo de topless em um outdoor, e há mais espaços públicos para andar sem roupa. No Brasil e nos EUA já existem tabus – com diferenças locais, mas ainda assim, tabus. O biquíni brasileiro não seria aceito nos Estados Unidos, por exemplo, porém ambos os países têm uma barreira com a nudez. No Brasil é ainda mais curioso, porque no Carnaval ela é quase onipresente, mas o resto do ano é tomado de pudor”.

Borzino vê na quebra desse tabu a principal motivação para uma mulher posar para as lentes de Blum. “É como um grito de liberdade, dizendo: ‘olha! Eu sou isso e posso me desejar e ser desejada!’.”

Mas e eles?

Se o Nu Project retrata mulheres, o Nude Project focou-se em homens. A fotógrafa Cassia Tabatini (http://www.cassiatabatini.co.uk/) morou em Londres durante anos, e durante a época em que o clube Boombox era o hype-mor no já hypado mundo da moda, ela decidiu “desmontar” os habitués do East London. O resultado foi uma série de fotos de nus masculinos, que ela batizou de Nude Project. “Não comecei por curiosidade sexual. Eram retratos desses ‘new dandies’. Queria vê-los sem roupa, queria saber se eles manteriam a mesma essência”. Posteriormente, amigos de Cassia foram se apresentando nus frente às suas lentes, e o projeto passou a ser “uma pesquisa sobre a nudez”.

Por serem personagens ligados direta ou indiretamente ao universo fashion, evidentemente os padrões de beleza clicados por ela não eram tão abertos quanto os trabalhados por Matt Blum, embora os retratos sejam bastante naturais, sem a estilização comum à publicidade ou às publicações gays. Seria, então, impossível uma versão masculina do New Project?

Segundo Matt Blum, seria, mas se ele fosse o autor dela, faria uma mudança substancial. “Acho que nesse caso não seria com tanto foco no corpo. Seria mais o caso de fotografar caras em empreguinhos de merda. Os homens tiram mais valor daquilo que fazem do que por sua aparência”. Opinião corroborada por razões evolutivas, segundo Borzino. “O que mais valoriza o homem é sua adaptabilidade ao meio. Então talvez o fotógrafo esteja certo”.

O sexologista reconhece que “a nudez é sempre impactante”, assim como Cassia reconhece que, pelo menos para os sul-americanos, ela sempre é sexualizada, até quando é implícita ou parcial (uma mulher de biquíni numa propaganda de cerveja, por exemplo). “Escondemos nossas ‘vergonhas’, como já dizia Caminha, pois remete muito a uma essência erótica do corpo. No nosso meio, o corpo é visto como objeto do desejo, e não de expressão. A nudez masculina é pior, pois é considerada agressiva devido ao falo. É como ameaçar alguém”, complementa Borzino.

Iniciativa pessoal

Embarcar neste tipo de projeto não é uma tarefa que acontece apenas com uma ideia na cabeça e muita vontade. É preciso dinheiro, e Matt tira do próprio bolso para fazer suas viagens – razão pela qual não foi ainda para países da Ásia ou da África para os quais gostaria de ir. A necessidade financeira faz com que ele cogite captar recursos usando suas próprias fotos.

“Não quero comprometer o projeto com o uso de patrocinadores, mas quero tentar trazer mais grana com um livro, que seria editado em vários países, com pequenos textos das próprias mulheres fotografadas. Porém, isso precisa ser feito de modo que fique claro que o dinheiro captado com a publicação será usado para continuar com o Nu Project, e não para comprar um carro ou algo do tipo”, explica.

Enquanto Blum procura parceiros ou investidores interessados na publicação, Cassia já transformou seu Nude Project em um livro, comercializado através de seu site. Ela segue com sua “investigação” da nudez, ainda que tenha dado uma pausa por ora. Já Matt garante querer continuar com o projeto “até que não seja mais divertido”.

“Quando eu estiver bem velho”, diz o fotógrafo, “quero olhar para trás e ver que o Nu Project é algo que foi feito com sentimento, e algo pelo que posso me orgulhar. Você sabe, fazemos vários trabalhos pelo pão de cada dia, mas não é por eles que somos lembrados. É só pelo que fazemos de forma apaixonada que somos lembrados”.

Para muita gente, o trabalho de Matt Blum e de Cassia Tabatini pode representar apenas uma desculpa para despir pessoas do sexo oposto. Não é como eles veem, e certamente não é essa a percepção de quem se deixou fotografar por eles. A palavra final sobre isso talvez caiba à mesma Mariana que, sem ostentar “bundões ou peitões”, posou com naturalidade e beleza para o Nu Project. “Tanto homens como mulheres consomem todos os artifícios disponíveis para serem perfeitos fisicamente e com isso acabam parecendo todos iguais. As pessoas que se deixam levar por esse consumo pela beleza acabam se perdendo, se tornam vazias e sem personalidade. Talvez essas pessoas nunca consigam ver beleza no tipo de trabalho que o Matt Blum faz com o The Nu Project”.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell

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