Entrevista: Pedro Mariano

por Marcos Paulino

Pedro Mariano encontrou uma maneira inusitada de homenagear sua mãe, Elis Regina. Reuniu apenas vozes masculinas para cantar alguns dos grandes sucessos imortalizados pela intérprete, num show gravado em Curitiba, que virou o CD e o DVD “Elis Por Eles”. Entre as canções escolhidas, números de Belchior, Chico Buarque, Zé Rodrix, Edu Lobo e Vinicius, Baden Powell e Paulo César Pinheiro, entre outros.

Na escolha dos artistas que convidaria para encarar o desafio, ele se preocupou em contemplar diferentes gerações e estilos musicais. Assim, há desde os óbvios Cauby Peixoto (“Dois Pra Lá, Dois Pra Cá”) e Jair Rodrigues (“Upa Neguinho” e “Arrastão”) até os inusitados Chitãozinho e Xororó (“Como Nossos Pais”), passando por Seu Jorge (“Cai Dentro”), Diogo Nogueira (“Amor Até o Fim”), Filipe Catto (“Tatuagem”) e Roupa Nova (“Casa no Campo”). Ao PLUG, parceiro do Scream & Yell, Pedro Mariano falou sobre esse projeto.

Como surgiu a ideia de reunir só cantores pra prestar uma homenagem a Elis?
Tudo começou em 2009. A Suzy Scherb e o Ricco Antony me procuraram pra fazer esse projeto, e confesso que eu tinha tido uma ideia parecida, mas não tinha encontrado os parceiros corretos. Minha ideia foi mostrar a amplitude e a profundidade da obra da Elis, e de quebra provar que a máxima de que o Brasil é um país de cantoras não é de todo verdade. O Brasil é de uma riqueza e de uma diversidade cultural absurdas, e você consegue encontrar um talento em cada esquina das mais variadas vertentes, sejam homens ou mulheres. A maior prova de que o Brasil não tem só cantoras é colocar a maior intérprete que o país já produziu sendo homenageada por vozes masculinas.

Houve dificuldades técnicas pra fazer com que vozes masculinas, naturalmente mais graves, se adequassem ao repertório da Elis?
De forma leiga, isso pode parecer um obstáculo. Mas há recursos técnicos, como trabalhar com a tonalidade, com o andamento, pra deixar a música sob medida para aquela voz. Com esse recurso, você chega ao resultado que quer sem fazer nenhum tipo de concessão. Esse é o trabalho do arranjador. O que poderia acontecer, e não aconteceu, é o choque de realidade. Quando o Xororó disse que queria cantar “Como Nossos Pais”, enxerguei uma coragem enorme, porque é fascinante quando o artista se joga fora de sua zona de conforto. Mas tinha o choque da realidade do campo com outra altamente urbana. Só que ele e o Chitãozinho são dois artistas muito experimentados, que se apossaram da música como se fosse feita pra eles.

Você escolheu intérpretes que cantaram junto com a Elis e também os das gerações mais recentes. Que critérios você utilizou?
Nos meus 17 anos de carreira, encontrei muita gente. É muito comum os artistas que conheço virem falar comigo sobre a Elis. Quando sentei pra fazer esse projeto, me veio na cabeça uma lista de artistas que demonstraram essa paixão, essa identificação com a obra dela. Mas acima de tudo eu tinha que trabalhar com artistas que dominam a arte de cantar. O Jair Oliveira e o Jair Rodrigues, por exemplo, a identificação com a família e a obra da Elis já os credencia. O Moska e o Lenine sempre falaram da vontade de ter sido um dos compositores da Elis. E assim sucessivamente.

Escolher cantores de diversos gêneros também foi uma preocupação?
Exatamente. Consegui reunir quase todas as vertentes mais importantes da música brasileira. E foram vertentes que ela gravou. Chitãozinho e Xororó sempre falaram da importância dela para o segmento sertanejo por ter gravado “Romaria”. E eu nunca tinha parado pra pensar nisso. Até por isso, assustei quando eles resolveram cantar “Como Nossos Pais”. O Rogério Flausino disse que canta “Aprendendo a Jogar” desde criança. Provavelmente, ele tem essa veia pop suingada por algum ingrediente que dona Elis jogou na cabecinha dele quando pequeno. Como ela caminhou por todas essas vertentes, não tive que adotar nenhuma atitude artificial, recriar algum cenário. As coisas estavam ali, era só juntar uma com a outra.

Você acredita que é possível, mesmo sem contar com todos os participantes, reproduzir esse show ao vivo em algumas ocasiões?
Possível é, mas infelizmente é muito difícil, beirando a improbabilidade. É muito caro e muito difícil a logística por conta da agenda dos artistas, que são exponenciais no Brasil. Quando se vai gravar um DVD, você conta com a boa vontade de todas as produções pra abrir essa lacuna na agenda. Tenho vontade de fazer novamente o show, é um sonho, mas no momento fica difícil de prometer qualquer coisa nesse sentido.

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Marcos Paulino é jornalista e editor do caderno Plug, do jornal Gazeta de Limeira.

Leia também:
– “Elis – Edição Especial” resgata o último álbum oficial da cantora, por Marcelo Costa (aqui)
– O relançamento de “Elis e Tom”, 30 anos depois, por Marcelo Costa (aqui)

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