Cinema: As Aventuras de Pi, Ang Lee

por Marcelo Costa

Piscine Molitor “Pi” Patel é filho do dono de um zoológico localizado em Pondicherry, na Índia. Seu nome, Piscine, foi inspirado em uma famosa piscina pública francesa, porém, na Índia, o francês Piscine pode muito bem ser confundido com o inglês Pissing, o que, claro, poderá virar motivo de chacota na boca de seus colegas de classe – e até de professores, mesmo que sem querer. Como todos sabem, a maioria das crianças (ainda mais em uma turma) carrega uma dose de crueldade em sua inocência.

Começa na escola uma das primeiras aventuras de Piscine, ou melhor, Pi, o apelido pelo qual o espectador ficará conhecendo o herói desta fantasiosa fábula hollywoodiana. Em “As Aventuras de Pi” (Life of Pi, 2012), a trama é desenrolada no velho esquema “senta que lá vem história”: um homem, no caso Pi, aqui já velho e marcado pelas rugas que o tempo lhe concedeu, conta a história de sua vida para um escritor, que pensa em escrever um livro. Ele, o escritor, e nós ouvimos sentados o desenrolar de uma existência.

Após anos cuidando do zoológico, o pai de Pi decide vender o empreendimento devido à retirada do incentivo dado pela prefeitura local. A ideia que surge é se mudar para o Canadá numa viagem de barco (tal qual uma Arca de Nóe) com todos os animais, que poderiam ser vendidos na América, resultando em um dinheiro para que a família recomeçasse a vida. A discussão entre Pi e o pai sobre ir para o Canadá rende uma das piadas deliciosas da história, mas o garoto perde a discussão, e a família (e os animais) embarca(m) no navio.

Em alto-mar, devido a uma intensa tempestade, o navio naufraga, mas Pi consegue se salvar pulando em um bote salva-vidas acompanhado de uma zebra, um orangotango, uma hiena e um temível tigre de bengala chamado Richard Parker. Começa a terceira grande aventura do garoto (a segunda foi um coração partido na previsão da distância entre Índia e Canadá), que tem que sobreviver a tubarões, insolação, tempestades e a luta com o assustador Richard Parker, que, faminto, toma conta do bote enquanto Pi monta uma balsa improvisada.

A trama fantasiosa de “Life of Pi” foi inspirada num livro homônimo do escritor Yann Martel lançado em 2001 (que, por sua vez, teve como inspiração “Max e os Felinos”, livro de Moacyr Scliar que contava a história de um refugiado judeu que deixava a Alemanha e cruzava o Atlântico num bote, juntamente de um jaguar), e ficou pulando de mão em mão em Hollywood (M. Night Shyamalan, Jean-Pierre Jeunet e Alfonso Cuarón foram cotados para a direção) até que o taiwanês Ang Lee assumisse o projeto, tornando-o num belíssimo filme.

Para transformar as ideias do livro em cinema, Ang Lee usou toda imaginação que tinha direito para recriar o universo da história, e o cenário do filme é absolutamente esplendoroso. As imagens do oceano, por exemplo, numa tela enorme de uma sala 3D devem deixar muita gente de boca aberta, mas “Life of Pi” vai além da beleza cenográfica ao contar uma história simples de forma absolutamente genial. Pi pega o escritor que o ouve (e, por cumplicidade narrativa, o espectador) pelas mãos e o leva por um cenário de desafios de tirar o fôlego.

O universo fantasioso de “Life of Pi” o aproxima de “Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas”, de Tim Burton dirigiu em 2003. À primeira vista, não há quase nenhuma diferença entre o contador de histórias de Ang Lee do contador de histórias de Tim Burton. Porém, o desfecho dos dois filmes propõe um olhar diferente e interessante sobre a natureza humana: o quanto do mundo é real versus o quanto do mundo acreditamos ser real. Cada filme responde a questão à sua maneira, e as duas são absolutamente brilhantes.

A resposta de “Life of Pi” para a questão é tão sútil que pode passar desapercebida e não mostrar a força de um pequeno filme grandioso, que tem estofo para figurar ao lado de outros grandes filmes de Ang Lee (como o cômico “Banquete de Casamento”, o intenso – e talvez seu melhor – “Tempestade de Gelo” e o shakespeariano “O Segredo de Brokeback Mountain”) e merece as 11 indicações ao Oscar que recebeu. Não merece levar a estatueta de Melhor Filme (que seria de “Amor”, se o mundo que acreditamos fosse real), mas é forte concorrente em roteiro adaptado e, principalmente, Efeitos Visuais e Direção de Arte. Merece.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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