Sobre R.E.M., Estradas e Renovação

Sob o CEL 22
Sobre R.E.M., Estradas e Renovação
por Carlos Eduardo Lima

O R.E.M. sempre foi uma de minhas bandas mais queridas, quase minhas e de mais ninguém. De alguma forma misteriosa, sobretudo para um nostálgico como eu, não me lembro de ficar entristecido por conta do fim das atividades de Stipe, Buck e Mills em setembro do ano passado. Pelo contrário, fiquei meio aliviado, justamente por saber que os discos que a banda vinha lançando, ainda que pudessem soar satisfatórios, principalmente “Accelerate” (2008) e “Collapse Into Now” (2011), atestavam um certo enfado e/ou forcação de barra por parte do trio em lançar material novo e satisfazer-se com isso. Desse jeito, sem mais aquela, os três sujeitos resolveram pendurar as guitarras e, de certa forma, romper a necessidade de emitir opiniões e fazer análises de conjuntura via música, como sempre fizeram.

Quando olho para a produção do R.E.M., vejo uma fileira de discos maravilhosos que sempre estiveram presentes em momentos interessantes da minha vida. “Document”, quando eu saía do colégio. O clipe de “Losing My Religion” antecipando “Out Of Time” e a faculdade. “Automatic For The People” sonorizando a Uerj, “Monster” como trilha sonora da revista Rock Press, mas, se há um disco que mexeu realmente comigo, numa rara sincronia de tempo, no sentido de ser feito enquanto eu vivia um momento de transformação, esse foi “New Adventures In Hi-Fi”, de 1996.

Por mais que “Automatic For The People” parecesse intransponível e acima deste mundo, o R.E.M. foi capaz de dar a outro disco seu uma aura sobrenatural. Diferente do lançamento de 1992, “New Adventures” vinha como um disco feito na estrada, esta mitológica entidade humana, na qual entramos para sairmos modificados. Sim, porque, como o Verão – descrito no texto anterior, sobre o Buffalo Tom – a Estrada é um outro mito da vida no lado norte do planeta, muito mais democrático e extensivo aos países do resto da bolota azul. Ela não depende de circunstâncias climáticas específicas e não fica meio sem sentido por conta disso como o Verão. A Estrada pode e deve ser independente de qualquer outra circunstância que não a sua própria existência. Quando entramos nela é porque iremos sair diferentes do outro lado. E ela parece sempre disposta a nos receber e pode mesmo nos tragar sem que percebamos.

O R.E.M. de 1995 era uma banda em transformação. O álbum que estavam lançando desde o ano anterior, “Monster”, não fora bem digerido pela imprensa e público. Lembro-me de ler publicações de respeito apregoando que aquele era o “disco rock” do REM, como se a banda não houvesse lançado obras como “Murmur “(1982), “Life’s Rich Pageant”(1986) ou “Document” (1987). “Monster” era um disco que me parecia forçado, como se os caras desejassem mostrar algum tipo de serviço roqueiro após a escuridão plácida e subentendida que era “Automatic For The People” e o estouro pop de ‘Out Of Time”. A verdade é que o novo disco tinha boas canções, mas não te capturava como outras obras do cânon da banda de Athens, ainda que “Strange Currencies” esteja no meu Top 10 de melhores músicas do R.E.M. desde sempre.

A excursão mundial para a divulgação de “Monster” seria uma sucessão de roubadas para o R.E.M.. Roubadas sérias e definitivas como o aneurisma do baterista Bill Berry, que estourou no palco em Lausanne, Suiça, em março de 1995. Mais adiante o vitimado seria Mike Mills, internado às pressas para uma cirurgia intestinal, restando ao próprio vocalista Michael Stipe a última ocorrência hospitalar, dessa vez numa cirurgia de emergência para corrigir uma hérnia de disco. Mesmo com essa inesperada e decisiva incidência de fatores sobre a situação da banda, o R.E.M. permaneceu ativo enquanto foi possível, alternando datas e compromissos e, além de tudo, compondo uma série de músicas, as quais foram testadas em passagens de som, registradas em quartos de hotel ou estúdios nas cidades que estavam pelo caminho da turnê. Essa, meus caros amigos, é a Estrada, que saía de seu sentido literal – um itinerário de lugares – e assumia sua condição, digamos, metafísica, de elemento transformador de pessoas e, por que não, bandas de rock, uma vez que estas são compostas por… pessoas.

“New Adventures In Hi-Fi” foi o produto desses eventos. Da turnê, dos caminhos, dos hotéis, dos simulacros de casa, com camas, chuveiro e café da manhã, mas sem o cheiro do lar nos lençóis e suas coisas arrumadas ou espalhadas pelo canto. Dessa necessidade de comunicar ao mundo novas músicas enquanto iam de um ponto ao outro do mapa, os integrantes do R.E.M. foram apontando seus destinos rumo a um futuro que poderia ser outro, caso resolvessem ficar em casa sem correr riscos. Verdade, a Estrada significa um risco calculado até certo ponto. O máximo que sabemos é que ela tomará seu papel de substituta da segurança da realidade enquanto estivermos nela, porque, ao contrário do cotidiano, a Estrada é uma sucessão de imprevisibilidades. Se os sujeitos do R.E.M. pudessem prever que Bill Berry sofreria com um aneurisma e que isto o desligaria da banda após o lançamento de “New Adventures In Hi Fi”, teriam, mesmo assim, entrando em turnê? Claro que não. E se isso não fosse como foi, a banda teria acabado ou entrado num lento e constante processo de decadência, como o experimentado a partir de “Up” (1998), o disco de inéditas que sucederia “Hi-Fi”? Provalmente não, certamente não por este motivo. O que importa nessa divagação é que o R.E.M. conseguiu, não sei se com esta intenção autodeclarada, fazer um disco que é a reprodução perfeita das sensações que experimentamos quando estamos na Estrada.

O lamento triste de Patti Smith, convidada da banda no primeiro single de “Hi-Fi”, “E-Bow The Letter”, lançado antes do disco, já antecipava a beleza do que estava por vir. Parecia um murmúrio de tristeza, desses que damos internamente quando deixamos algum lugar (físico ou sentimental) para talvez nunca mais voltar. E o horizonte que a música traz é preto e branco, como a capa do single, como a capa e o encarte do disco. “Hi-Fi” é um disco com tons de cinza, preto e branco, todos em uníssono visual. A pista estradeira estava dada num outro single, “Bittersweet Me”, cujo EP trazia uma cover de “Wichita Lineman”, sucesso estradeiro de Glen Campbell num 1967 que parecia muito distante de 1996. Essa música, de autoria do compositor Jimmy Webb, nasceu quanto este, passando de carro numa estrada no Kansas, observou um solitário trabalhador pendurado num poste de linha telefônica ao lado do caminho. Imediatamente pensou na vida daquela silhueta numa paisagem tão maior. A canção foi um dos grandes sucessos mundiais dos anos 60, de uma música pop caprichada e virtuosa que não mais existe hoje, mas que ainda agonizava em meados da década de 1990. Imagino que não haja qualquer acaso na escolha de “Wichita Lineman” para “lado-B” de um single de “Hi-Fi”, configurando, sim, uma menção ao poder transformador da Estrada.

As outras canções do disco, sobretudo, “New Test Leper”, “Leave”, “Low Desert”, “Departure” e “Electrolite”, falam de partidas, cidades, movimentos, idas e vindas. O que consegui aprender com este disco – no tempo em que discos ensinavam alguma coisa valiosa sobre nós mesmos e pareciam feitos somente para você – é que a Estrada é, quase sempre, a própria vida nos chamando para prestar contas e mudar de pele. Não imagino como 14 músicas, gravadas por quatro sujeitos de Athens, Georgia, em meio a crises de saúde e perrengues numa excursão pela América, conseguiram reproduzir isso tão bem. Talvez pelo sofrimento de passar por cada aglomerado de luzes ao longe, num ônibus pela noite ou, na mesma escuridão, tentar avistar a próxima cidade do alto de um avião furando nuvens. Vá saber. O que importa é que “New Adventures In Hi-Fi” é um disco fundamental, com poder esclarecedor ímpar. Recomendar com que palavras?

CEL é Carlos Eduardo Lima (siga @celeolimite), historiador, jornalista, fã de música e responsável pela coluna Sob o CEL no Scream & Yell e pelo podcast Atemporal.

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Leia também:
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– R.E.M. e o fim de uma era, por Ismael Machado (aqui)
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-“Live at The Olympia”, R.E.M – Não show, nem ensaio, mas uma aula (aqui)
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– “Songs For a Green World” e a transição do R.E.M. do indie ao mainstream (aqui)
– “Reconstrucion of Fables”, o álbum mais fraco da primeira fase do R.E.M. (aqui)
Vídeos: assista ao show do R.E.M. no Rock in Rio 2001 (aqui)
– “Accelerate”, do R.E.M: Cinismo e barulho, por Marcelo Costa (aqui)
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– Cinco shows – que eu vi – para baixar e ouvir: R.E.M. na Bélgica (aqui)
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– R.E.M. – Discografia comentada, por Marcelo Costa (aqui)
– R.E.M. no Rock Werchter, na Bélgica, por Marcelo Costa (aqui)
– R.E.M. no T I The Park, na Escócia, por Marcelo Costa (aqui)

22 thoughts on “Sobre R.E.M., Estradas e Renovação

  1. Lindo texto, CEL! Tão climático, que as músicas nem precisam ser tocadas para serem ouvidas. E “E-Bow the Letter” com participação especial de Thom Yorke? Nada mais melancólico.

  2. O meu preferido do R.E.M. “How the West Was Won and Where It Got Us”, “Be Mine” com aquela guitarra sensacional, de chorar de tão boa, e “New Test Leper”, com sua letra primorosa:
    “Eu não posso dizer que eu amo Jesus
    Isso seria algo sem sentido
    Ele fez algumas observações
    E hoje eu estou as citando
    ‘Não julgue para que não seja julgado’.
    Isso que é um refrão bonito!”

  3. Sei que devo ser o único no mundo inteiro, mas acho o Monster um senhor disco, não só o melhor do REM, como um dos melhores dos anos 90, o clipe de Bang and Blame é um dos meus preferidos também.

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