Balanção: El Mapa de Todos 2012

por Marcelo Costa

Em um momento importante da história sul-americana, que flagra a independência ideológica de vários países que, durante anos, foram manipulados tal quais fantoches por governantes dos Estados Unidos da América (vale assistir “Ao Sul da Fronteira”, filme de 2009 de Oliver Stone), os ideais de desbravadores como Simon Bolivar e José de San Martín parecem cada vez mais possíveis. Ainda que as fronteiras permaneçam, o sonho de uma América Independente nunca esteve tão próximo de se realizar.

Dentro deste interessante mapa político, a cultura como um todo, e a música em particular, podem quebrar barreiras com uma eficácia inebriante. Foi mais ou menos isso que foi visto nos três dias do 3º El Mapa de Todos, festival brasileiro que somado ao trabalho realizado no Vive Latino Festival, no México, no Ciudad Emergente, na Argentina, e no ContraPedal, no Uruguai, abre caminho ao som de guitarras, tambores, programações, espanhol, português e muito mais na luta pela valorização de uma identidade ibero-americana.

Realizado em três dias de shows na casa Opinião, em Porto Alegre, o El Mapa de Todos 2012 reuniu nomes do Brasil, Uruguai, México, Peru, Argentina, Chile e Venezuela somando 15 atrações de um line-up ousado, que valorizou a qualidade de nomes desconhecidos da grande massa brasileira como o combo peruano Bareto, que fez do Opinião uma enorme festa movida a cúmbia logo após o show arrasador da Bidê ou Balde, ou o mexicano Juan Cirerol, munido apenas de violão, mas com o público nas mãos após outra grande noite de rooooock do power trio Autoramas.

A festa das nações começou na terça (06/11) com o sexteto General Bonimores, de Passo Fundo, mostrando as músicas de sua primeiro disco e uma maturidade de palco que impressiona. A base é o rock clássico dos Beatles e de novos dinossauros, como Strokes. Vale acompanhar. Na sequencia, o homem-banda venezuelano Ezequiel Bertho, aka Algodón Egípcio, foi atropelado pelo desejo de fazer tudo ao mesmo tempo aparentemente sem saber o que quer fazer. Sem imprimir ritmo nem valorizar texturas, Cheky Bertho parece ter boas ideias, mas precisa amadurecê-las.

Com a casa já bastante tomada, a Esteban subiu ao palco ao som de urros femininos. Assim que o som saiu das caixas, as dúvidas vieram à mente: “Coldplay com sanfona”, foi a primeira ideia. “Lembra Gram!”, veio na sequencia. “Fresno não é do sul?”, foi a deixa para matar a charada. Comandada por Rodrigo Tavares, ex-baixista da Fresno, a Esteban deixa de lado o emocore (no som, a temática emocional permanece) e aposta em um rock coldplayano perfeito para embalar corações pré-púberes a fim de um novo ídolo. O show foi correto e as fãs locais ainda devem estar roucas de tanto gritar.

O primeiro grande show do festival veio do Uruguai. Tendo a frente Gonzalo Deniz, que também toca na Mersey, o Franny Glass (que também se apresentou no festival LAB 2012, em Maceió) fez aquele típico show bonito de ver: de meros desconhecidos (no Brasil; no Uruguai eles tocam até em trilha de novela), os uruguaios foram ganhando o público canção a canção para saírem debaixo de aplausos e declarações de amor. A base é o folk suave encharcado de lirismo e emoção num daqueles shows que poderiam ter durado a noite inteira.

A responsabilidade de fechar a noite de estreia do El Mapa de Todos 2012 não pesou nos ombros do Apanhador Só. Abrindo uma pausa na primaveril pré-produção do segundo álbum, que está sendo realizada em um sitio numa cidade próxima a Porto Alegre, os garotos tocaram com a mesma descontração dos shows que fizeram em parques e avenidas de diversas capitais do país nos últimos meses, e tiveram o acompanhamento de um público fiel, que cantou até as canções inéditas. Cada vez melhores ao vivo, o Apanhador Só deve vir ainda mais forte em 2013.

A ideia de um continente multicultural foi colocada à prova na segunda noite do festival, e o resultado foi de encher os olhos. Da abertura com os locais do The Tape Disaster até o encerramento com o show épico dos uruguaios do El Cuarteto de Nos, uma variedade de sons e vertentes tomou conta do palco do Opinião, e o público – que marcou presença, prestigiou e lotou a casa no melhor número dos três dias – recebeu a tudo de braços abertos, numa rara comunhão de boa música e pessoas interessadas em ouvi-las.

A cama foi preparada adequadamente pelo The Tape Disaster, com um instrumental reflexivo e bem trabalhado dividido em números longos que convidaram a contemplação. Um show bonito que fez quarenta minutos passarem imperceptíveis. De La Plata, na Argentina, e com quase 10 anos de carreira, o Norma pisou no acelerador e não deixou pedra punk sobre pedra punk com um repertório acelerado e de bons refrões que conquistaram o bom público presente – ficando em alguns momentos entre Ramones e Arctic Monkeys. Bom show.

Com um bom tempo sem se apresentar na cidade, era mais do que esperado que o show da Bide ou Balde fosse uma catarse. Com a casa já tomada, hinos do rock nacional (e gaúcho) circa anos 00 foram entoados com paixão em 40 minutos vibrantes. De “Melissa” (2001) a “Lucinha” (2011), de “Bromélias” (2002) a “Me Deixa Desafinar” (2010) passando pela versão fidelíssima de “Hoje”, do Camisa de Vênus, até “Mesmo Que Mude”, a grande canção de amor dos últimos 15 anos, a Bidê ou Balde colocou um enorme sorriso na cara dos presentes com um show absolutamente impecável.

O clima quente na casa após as boas doses de guitarradas dos três shows anteriores ferveu ainda mais quando o septeto Bareto, do Peru, subiu ao palco com uma releitura atualíssima de cúmbia, gênero musical que nasceu na Colômbia e se alastrou pelos Andes chacoalhando quadris e corpos. Ao vivo, o Bareto amplia a mistura chocando cumbia com ska, punk e reggae. A apresentação frenética dos peruanos contagiou a pista, que entrou no ritmo e deixou-se levar. Grande momento: o xaxado brasileiro “Mulher Rendeira”, vertido para o espanhol como “Mujer Hilandera”.

Para fechar uma noite inesquecível, nada melhor que um show inesquecível. E os uruguaios do El Cuarteto de Nos cumpriram o riscado. Na pista, camisas do Grêmio se misturavam a camisas da seleção uruguaia, e boa parte do público entoava o coro “Cuarteto, Cuarteto” antes da banda pisar no palco. A dinâmica “esporro, silêncio, esporro” funcionou a perfeição num repertório que privilegiou as canções do recém-lançado “Porfiado” (“Cuando Sea Grande”, “Algo Mejor Que Hacer”, “El Balcon De Paul”), mas trouxe velhos hits como “Así Soy Yo”, “Nada Es Gratis En La Vida” e “Yendo a la Casa de Damián”. Um repertório de 18 músicas que rendeu um show antológico.

A terceira e última noite do festival foi aberta pelo Medialunas em momento memorável. Com disco recém-lançado levado ao pé da letra (Andrio arremessou cópias de “Intropologia” para o público), o duo (que ainda traz Liege na bateria) aproveitou o bom som da casa e fez uma apresentação irrepreensível com canções cantadas em português, inglês e espanhol. O mesmo não pode ser dito do Dënver, jovem grupo chileno que soa como um Foster The People tendo a frente uma Lolita nos vocais. A jovem vocalista Mariana Montenegro arrancou suspiros de homens e mulheres, mas chamou a atenção muito mais pela sensualização do que pelas canções do grupo.

O Autoramas voltou a elevar o volume das guitarras em mais uma apresentação coesa e repleta de grandes canções, que já se enfileiram por 12 anos, da nova “Abstrai” até “Falem Mal de Mim”, “Nada a Ver”, “Mundo Moderno”, “A 300 Km/h”, “Rei da Implicância” e “Você Sabe”. Outro grande show (de rooooock). Na sequencia foi a vez do mexicano Juan Cirerol – munido apenas de violão, uma gaita eventual e das aulas obrigatórias de Johnny Cash – ser ovacionado no festival. Extremamente carismático, Cirerol é o tipo de cara que não tem medo de plateia. Coloquem ele na frente de 100 mil pessoas que em alguns segundos ele terá todo público na mão. Um show sensacional para ver várias vezes.

Com a missão de encerrar o festival, o Nenhum de Nós começou com um copo de cerveja quente no peito do vocalista Thedy Corrêa, que mandou parar tudo e prometeu: “Pessoas chatas nos seguem há 27 anos, mas não adianta, porque nós não vamos parar”. E não pararam mesmo. O show seguiu em um crescendo que alternava canções da safra recente como “Mistério Profundo”, “Água e Fogo” e “Um Pouquinho” com hits mais antigos como “Paz e Amor”, “Vc Vai Lembrar de Mim”, “Vou Deixar Que Você se Vá”, “Sobre o Tempo” e, claro, descendo o pano com “Camila, Camila”, cantada em coro por todos os presentes.

Em sua terceira edição, o El Mapa de Todos chega ao ápice com uma programação inteligente e respeito de um bom público, que o transforma em um exemplo de qualidade e perseverança. Não é uma conquista a toa. Por trás do festival, a figura exemplar de Fernando Rosa (o Senhor F) prova por a (bons nomes escolhidos a dedo da vasta cena ibero americana) mais b (uma produção cuidadosa que valoriza a música) que não basta prometer festivais e revoluções; é preciso, sim, estar atento ao conteúdo, respeitar o público e respeitar o artista. O que Porto Alegre viu em três dias de El Mapa de Todos (acima de politicagem barata e blá blá blá) foi a vitória da música de todos os povos. É preciso bater palmas: o El Mapa de Todos merece.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne. Todas as fotos por Marcelo Costa (exceto as fotos 1, 2, 3 e 9 / Produção do El Mapa de Todos)

TOP 5 do El Mapa de Todos, por Marcelo Costa
01 – El Cuarteto de Nos
02 – Juan Cicerol
03 – Bareto
04 – Bidê ou Balde
05 – Franny Glass / Medialunas

Leia também:
– El Mapa de Todos 2012: Exemplo de qualidade e perseverança, festival chega ao ápice (aqui)
– El Mapa de Todos 2013 exibe programação inteligente e respeito de um bom público (aqui)
– El Mapa de Todos 2014: Buenísima onda que ameaça ficar mais valorosa a cada edição (aqui)
– El Mapa de Todos 2015  apostou na diversidade de gêneros e acerta novamente  (aqui)

14 thoughts on “Balanção: El Mapa de Todos 2012

  1. Eu fui no ano passado e é muito legal ver o quanto o festival é cuidadoso em detalhes pequenos, como ter amps bons, o que faz toda a diferença pra quem toca e pro público.

    Lamento ter perdido esse ano, ainda mais com Bidê ou Balde na ativa 🙁

  2. Acho lindo que a América do Sul – muitas Américas diferentes, eu diria – consiga se descolar da produção estadunidense, que, de certa forma, tem uma grande mão sobre a Indústria Cultural.

    Ressalva: É possível buscar outras maneiras de conduzir o processo de produção & consumo, de maneira a não reproduzir os modos hegemônicos que, em grande parte explodiram e se disseminaram sob a condução dos EUA ?

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