Entrevista: Nada Surf

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por Bruno Capelas e Eduardo Martinez

Formada na cidade de Nova York, em 1992, o Nada Surf sopra as velinhas de seu vigésimo aniversário em 2012 com força total. Em janeiro, a banda lançou seu sétimo álbum de estúdio, “The Stars are Indifferent to Astronomy”, encabeçado pela bonita balada “When I Was Young”, e faz neste final de abril/começo de maio a sua segunda passagem pelo Brasil. “Gostamos tanto da primeira vez que acabamos voltando”, diz o guitarrista e vocalista Matthew Caws em entrevista ao Scream & Yell.

Além de Matthew, o Nada Surf conta com o baixista Daniel Lorca e o baterista Ira Elliott. A banda veio ao país pela primeira vez em 2004, quando passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Londrina e Taubaté. Agora em 2012, eles já tocaram no Abril Pro Rock, em Recife, e no Cine Joia, em São Paulo, e ainda se apresentarão em Curitiba (Music Hall, dia 28) e Florianópolis (John Bull, dia 29). Depois de um bate-volta em Buenos Aires, os nova-iorquinos ainda sobem ao palco no Rio de Janeiro (Circo Voador, dia 2 de maio), e em Belém (Se Rasgum, dia 4). No dia 5, encerram a viagem em Fortaleza (Órbita Bar, no dia 5). Infos aqui

Entre os shows, Matthew Caws bateu um papo rápido por telefone com o Scream & Yell sobre a expectativa que tem para essa turnê e o processo de compor e gravar “The Stars Are Indifferent to Astronomy”, cujo título foi inspirado em uma frase do pai do guitarrista, que é professor de Astronomia.

Matthew também comentou os vinte anos da banda e a carga de one hit wonder carregada pela banda desde 1996, quando o clipe de “Popular” teve grande exibição no mundo inteiro. Ele também comentou o que tem escutado recentemente e falou sobre covers – em 2010, a banda gravou “If I Had a Hi Fi”, álbum inteiramente dedicado a releituras de outros artistas. “Não perco muito tempo pensando em quem eu gostaria que gravasse uma canção minha. Mas Johnny Cash teria sido um sonho”, brinca o cantor. Confira!

O Nada Surf veio ao Brasil em 2004, e fez shows em várias cidades. O que você se lembra daquela viagem? E quais são suas expectativas para a turnê de agora?
Foi uma turnê bacana. Muita gente veio aos shows, mais do que a gente esperava até. Em São Paulo, por exemplo, esperávamos duzentas pessoas na plateia, mas foram quase novecentas. Foi algo incrível e chocante para nós. Eu lembro também de muitos aeroportos. Viajamos muito de avião naquela turnê, acho que vamos andar mais de carro dessa vez. Estou ansioso para viajar pelo país. Mas aquela vez foi realmente muito bacana. Acho que é por isso que voltamos.

Muita gente aqui no Brasil só conhece o Nada Surf por causa de “Popular”, cujo clipe passou muito na MTV daqui. O que você pensa sobre isso?
Isso é algo bem normal para nós. Acho que a maioria das pessoas que já ouviram falar da banda conheceu a gente por causa daquela única canção. É algo tranquilo para nós. Vejo isso como uma oportunidade para tocar mais por aí, e para que mais pessoas conheçam nossa música. Na verdade, eu nem penso muito sobre isso. Minha carreira é muito mais simples que isso. Ela é feita de escrever canções, gravá-las, fazer shows. Não costumo pensar muito sobre a nossa trajetória, o que poderíamos ter feito… Eu poderia, mas eu não faço isso.

Qual foi a principal ideia atrás de “The Stars Are Indifferent to Astronomy”?
Acho que foi a questão da música: tentar observar a energia daquelas canções. Quando escrevo, sempre fico muito empolgado, e sempre tocamos muito empolgados. No estúdio, tocando aquelas canções, me senti mais empolgado ainda. Realmente senti aquele momento, e foi meio que isso. Acho que eu estava tentando fazer algo diferente de antes – tentando olhar mais para fora, para a natureza e o que está acontecendo no mundo, e menos para mim mesmo me olhando no espelho.

O novo disco de vocês marca também o vigésimo aniversário da banda. Vocês mudaram muito desde que eram jovens? E o que você pode dizer sobre esse sentimento nostálgico e adolescente que atravessa as canções de todo o disco.
Não sei dizer como a gente mudou. Acho que nós somos muito sortudos. É ainda difícil acreditar que nós estamos fazendo o que fazemos. Da minha parte, sei que eu tocaria para sempre. É difícil acreditar que nós temos uma carreira baseada em música, mas ela existe. Não sei se existem muita coisa no disco que soa adolescente. Simplesmente acontece que eu só tenho o meu passado para analisar. O futuro ainda não aconteceu. Não é o tipo de sentimento que eu quero voltar no tempo. Eu só espero ter aprendido o que precisava aprender. Nos nossos discos anteriores, acho que havia ainda mais introspecção e exame do que hoje. Mas essas são coisas que nós sempre pensamos. Talvez elas estejam só um pouco mais óbvias hoje, mas mesmo quando eu tinha 21 anos, eu era um bocado nostálgico.

O disco novo tem muitas canções reflexivas. Foi de propósito? E o nome do disco tem alguma relação com isso?
Acho que eu sou um cara bastante reflexivo, não sei. O título do disco foi inspirado no meu pai, que é professor de Astronomia. Às vezes, ele diz a seus alunos essa frase, querendo mostrar a insignificância do homem no mundo. Um pássaro não sabe que é chamado de pássaro, um cachorro não sabe que é chamado de cachorro, e assim vai. É um pouco disso. Às vezes, nos chocamos com algo que não gostamos, e tentamos imaginar como seria se as coisas fossem do nosso jeito, mas não podemos mudar tudo a nosso gosto. Esse título também tem a ver um pouco com isso, de respeitar a nossa própria natureza.

O que você anda ouvindo recentemente? Poderia indicar alguma banda nova que escutou, ou algum grupo obscuro de antigamente?
Gosto muito de uma banda chamada Wild Nothing. Estive também ouvindo coisas mais antigas, como os Beatles e os Hollies. Que mais? Anne Briggs, uma cantora folk da Inglaterra, do começo dos anos sessenta, e coisas que sempre escuto, como o Teenage Fanclub. Tem também uma banda muito boa chamada The Liars, eles são da primeira onda desse revival do garage rock. Eles fazem coisas incríveis. Gosto muito também do Kurt Vile – ele é fantástico! Mas o meu disco favorito do ano passado foi o da PJ Harvey, “Let England Shake”.

Um dos seus discos recentes, “If I Had A Hi-Fi”, é todo feito de regravações. Que música do Nada Surf você gostaria de ver sendo gravada por outro artista? E quem seria esse artista?
(Pensa um pouco)… há alguma semanas, vi um vídeo de duas crianças do Canadá fazendo uma versão para “When I Was Young”. Cheguei a colocar o link no meu Twitter. É sensacional – e eles são apenas duas crianças, devem ter, sei lá, 13, 14 anos. Gostei muito desse vídeo. Mas não sei… Não penso nesse tipo de coisa frequentemente – nas pessoas regravando as minhas músicas. Não é algo que vai acontecer toda hora. Mas se fosse pra escolher um nome, acho que eu ficaria com Johnny Cash. Seria um sonho (ri).

Serviço da turnê

- Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista, escreve para o Scream & Yell desde maio de 2010  e assina o blog Pergunte ao Pop. Eduardo Martinez (@eduardopm) é jornalista, escreve para o Scream & Yell desde abril de 2010 e assina o blog A Ilha dos Mendigos

Texto publicado na(o) Sexta-feira, Abril 27th, 2012 e arquivado na seção Música. Você pode acompanhar os comentários postados aqui através do FEED RSS 2.0.



2 Responses to “Entrevista: Nada Surf”

  1. marcos

    Pelo número de comentários aqui o Nada Surf não está tão Popular hein? hahahaha

  2. Giovanni

    Boa entrevista.

    Sou suspeito para falar do Nada Surf. Vi eles ao vivo em duas ocasiões e foram shows emocionantes mesmo - para mim.

    Autenticidade e popularidade nem sempre caminham juntos. Aliás, por isso que eu leio o S&Y.

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