CDs: Charlotte, Amanda e Madonna

por Marcelo Costa

“Stage Whisper”, Charlotte Gainsbourg (Warner)
O intervalo de 20 anos entre seu primeiro álbum, “Charlotte for Ever”, de 1986, lançado quando ela tinha apenas 15 anos, e sua real estreia solo, “5:55”, de 2006, serviu basicamente para a construção de uma persona fortíssima, cool, elegante, bela. Se “Charlotte for Ever” é praticamente um disco de seu pai, Serge, “5:55” e “IRM” (de 2009) são puramente Charlotte – mesmo sendo compostos por Jarvis Cocker (e produzido pelo sexto Radiohead, Nigel Godrich, com colaborações de Neil Hannon, do Divine Comedy, e do Air) e Beck, respectivamente. “Stage Whisper” é uma compilação que resgata oito sobras das sessões do segundo e terceiro discos mais 11 números ao vivo, criando um interessante paradoxo: se no palco, Charlotte soa engolida pela banda em arranjos que não recriam a força das canções em estúdio (talvez tenha faltado a mão de Beck e Jarvis ao vivo) – embora a simplicidade da versão de “Just Like Woman”, de Bob Dylan, seja comovente –, as sobras revelam um bom número de canções que não diminuiriam a força de “5:55” e “IRM” se fossem inclusas nos álbuns. “Terrible Angels” e “Paradisco”, em que Beck busca soar como Bowie, são empolgantes enquanto a delicadeza de “White Telephone” esvazia ainda mais o vazio (“There’s no one on the line”, diz a letra). As outras quatro faixas atiram para todos os lados, e todas acertam no alvo: “Anna”, “Got to Let Go” (com Charlie Fink, do Noah and the Whale), “Out of Touch” e, principalmente, “Memoir” mereciam muito mais destaque do que um espaço ingrato em uma coletânea de sobras.

Preço em média: R$ 30 (nacional)
Nota: 6,5

Leia também:
– Guia do Pop Francófono Anos 00, por Eduardo Palandi (aqui)

“MDNA”, Madonna (Universal)
“Music”, último grande álbum de Madonna, é de 2000. De lá pra cá ela até se esforçou, mas “American Life” (2003), “Confessions on a Dance Floor” (2005) e “Hard Candy” (2008), lançados no período em que ela dividia o teto com Guy Ritchie, desceram a ladeira e não honraram o mito. O fim do casamento – e da “década perdida” – é combustível e afirmação de “MDNA”, seu 12º álbum. “Eu tentei ser uma boa menina / Eu tentei ser sua esposa / Diminui a mim mesma”, ela canta na reclamona “I Don’t Give A”, que traz Nicky Minaj e mantém a sonoridade quadrada de “Hard Candy” (replicada também em “Some Girls”, a mais fraquinha do disco). Esqueça. O que interessa em “MDNA” (e faz do álbum o melhor de Madonna em 12 anos) é quando ela se junta aos DJs Benny Benassi e Martin Solveig, clona a inocência sacana de Katy Perry e a ítalo house amada por Lady Gaga – que não existiriam sem ela. Os singles “Girl Gone Wild” (em que ela se arrepende de ter ofendido Deus, mas se defende: “Sou uma garota boa que ficou selvagem”) e “Give Me All Your Luvin’” (que define o disco como se estivesse em um episódio de Glee: “Todas as músicas parecem as mesmas / Você tem que entrar no meu mundo”) dão o tom dançante do álbum (de baladas drogadas e intermináveis), mas é “Gang Bang” (que atualiza Nancy Sinatra), “Turn Up the Radio” (“Holiday” versão século 21 ), a fofa “Superstar”, a baladaça “Masterpiece” e a alegrinha canção de aniversário “B-Day Song” (bônus da versão dupla) que mostram que ela ainda é uma garotinha (apesar dos 53 anos) a fim de se divertir (e nos divertir) em um mundo cada vez mais materialista.

Preço em média: R$ 30 (nacional) / R$ 40 a edição especial (nacional)
Nota: 7

Leia também:
– “Hard Candy”, de Madonna, não afasta o tédio, mas diminui, por Marcelo Costa (aqui)

“Several Attempts to Cover Songs by The Velvet Underground and Lou Reed for Neil Gaiman as His Birthday Approaches”, Amanda Palmer (Independente)
Da série “o amor só é brega se você for brega”. Amanda Palmer chamou a atenção do mundo no duo psicótico Dresden Dolls (como vocalista, pianista e letrista), que entre 2002 e 2008 lançou alguns álbuns estranhamente sedutores. Sozinha no mundo, ela montou outro duo (Evelyn Evelyn, que já tem dois álbuns), lançou um estreia solo convincente (“Who Killed Amanda Palmer?”, com suporte de Ben Folds) e, entre outras coisas, regravou algumas canções do Radiohead com apenas calcinha, sutiã e um ukelele, sempre tendo o quadrinhista (e marido) Neil Gaiman por perto. Juntos, o casal saiu em novembro do ano passado em uma turnê bancada por crowdfunding, que previa um CD triplo (“An Evening With Neil Gaiman & Amanda Palmer”), mas também rendeu este álbum que registra (em excelente qualidade) a passagem do casal por São Francisco, local em que a esposa quis comemorar o aniversário do marido de forma especial. Flores? Chocolate? Striptease? Amanda foge do óbvio (e do brega) e oferece ao parceiro uma noite divertida ao som de clássicos do Velvet Underground e de Lou Reed (com Neil sentado em um banquinho no palco). Mico? Talvez até pudesse ser, mas Amanda evita o constrangimento soando deliciosamente natural. Ela até improvisa algumas brincadeiras divertidas no ukelele, mas quando solta o vozeirão acompanhada apenas de seu teclado – para cantar “bobagens românticas” como “Satellite of Love”, “Perfect Day”, “I’ll Be Your Mirror”, “Caroline Says II”, “I’m Sticking With You”, “I’m Waiting For The Man” – só faz imaginar o sorriso de orelha a orelha do aniversariante. Ele merece. E nós também. Para ouvir e tentar ser criativo.

Preço em média: bônus do crowdfunding
Nota: 10

Leia também:
– Dois vídeos de Lou Reed causando caos e comoção em São Paulo (aqui)

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