Entrevista: Céu

por Marcelo Costa

Fim de uma tarde quente em São Paulo. Maria do Céu Whitaker Poças passou o dia inteiro conversando com jornalistas, posando para fotos e falando sobre o recém-lançado “Caravana Sereia Bloom”, seu terceiro álbum, e ainda mostra uma confiança e felicidade insuspeitas com o resultado do disco: “Estou super contente. É como eu queria que tivesse ficado”, garante.

O verbo “querer” marca uma busca estética da cantora que difere “Caravana Sereia Bloom” de seu segundo álbum, “Vagarosa”, um disco introspectivo. “Vagarosa está muito ligado a uma imersão”, explica Céu. “Já Caravana Sereia Bloom é mais mundano”, acredita, e isso de certa forma explica o tom mais agitado do novo disco.

“Ele é todo temático, por conta das viagens”, explica, mostrando que a agitação da vida em turnê foi transposta para o disco, mas ainda assim de forma relaxada, suave. Ela assina a maior parte do repertório, mas abre espaço para Jorge Du Peixe, da Nação Zumbi, responsável por “Chegar em Mim”, o marido e produtor Gui Amabis, que escreveu a sessentista “Falta de Ar”, e Lucas Santtana, autor de “Streets Bloom”.

Céu ainda canta no novo álbum um reggae jamaicano dos anos 60 (a sinuosa “You Won’t Regret It”, de Lloyd Robinson e Glen Brown) e “O Palhaço”, de Nelson Cavaquinho, que conta com o violão de seu pai, Edgar Poças. “Ele conseguiu transformar um clássico do samba em uma valsa, algo felliniano”, define.

Disponível nas lojas e na internet, o download ilegal não incomoda Céu, que, no entanto, cobra uma discussão séria sobre o assunto. “É preciso respeitar a profissão de músico”, diz ela. “Já me perguntaram muitas vezes ao preencher formulários: “Qual é a sua profissão?”. E eu: “Cantora”. E a pessoa: “Não, qual é a sua profissão?”. Céu é cantora, está feliz e bateu um papo animado por telefone com o Scream & Yell. Confira.

Oi Céu, boa tarde. Já conversou com muita gente hoje?
Bastante (risos)

Faz parte, né. O disco está saindo…
É. Só alegria

Você está feliz?
Estou! Estou super contente. É como eu queria que tivesse ficado – e isso é muito bom.

Asfalto, estrada, retrovisor: de onde surgiu essa inspiração estradeira do disco?
Ele é todo temático, por conta das viagens, foram muitas desde 2005, rodando e percebendo que é um tema intenso. Não é apenas bonito e belo. Apesar de ser belo traz muitas situações desafiadoras. Então percebi que era um tema latente, que eu estava querendo contar…

Imagino, pois a estrada proporciona muitas histórias e olhares diferentes… você sai da rotina.
É outra realidade, paralela a sua, e que se faz por um tempo limitado, porém extremamente intenso. É engraçado e também curioso: as pessoas que estão com você acabam se tornando a sua família. As situações acabam se tornando meio contos, imagens, casos e… entram na sua vida. Acho muito interessante e achei que fizesse sentido (para o álbum).

Além é possível dizer que musicalmente você formou uma “família”. Você trabalha realmente com uma caravana de músicos. Como você vê essa família?
Eu vejo com muita alegria e acho gosto poder contar com essa turma que me identifico e que tenho uma afinidade musical enorme. Acho muito divertido fazer um trabalho com muitas mãos, ainda mais com as mãos de pessoas que você admira e tem um relacionamento. Isso dá alma ao trabalho. Também não tem que ser sempre a mesma galera. É importante conhecer outras pessoas.

Falando em gente nova, apesar de não ser uma pessoa nova em seu convívio, como foi gravar pela primeira vez com seu pai?
Foi muito legal e emocionante. E foi bem pontual, porque o disco estava precisando desse respiro, pois ele vem em um ritmo e, de repente, percebi que essa música faria todo o sentido sendo o palhaço um tema tão estradeiro, tão circense, tão Fellini. Meu pai entendeu perfeitamente quando pedi a ele para fazer de “O Palhaço” algo meio felliniano. Só ele pra me entender (risos). E ele conseguiu transformar um clássico do samba em uma valsa. Gravei em um take só. Há muita história envolvida, pois ele é muito fã do cavaquinho. Fiquei muito contente porque ele topou fazer isso.

Você não é apegada a rótulos, e isso lhe permite gravar Nelson Cavaquinho e um reggae jamaicano dos anos 60 no mesmo disco. Como funciona isso na sua cabeça, já que sem essa delimitação você tem um espectro enorme de coisas interessantes que poderiam ser gravadas…
Não sei (rindo). As vezes tenho vontade de abrir a minha cabeça e ver as conexões (rindo mais) até para eu mesma me compreender. E essa é uma pergunta freqüente. E é curioso. Claro que compreendo a necessidade de se entender o rótulo, mas acho que a sigla MPB é muito democrática, e me coloco ali. Só acho que a estética da MPB está sendo revisitada.

Com essa nova turma…
É. Se você for observar a galera, os contemporâneos, tem disco do Lucas (Santtana), tem disco do Gui (Amabis), da Tulipa (Ruiz), do Lira…

Do Siba…
Isso. E na verdade o que é?

Na verdade não dá para colocar num balaio e dizer que a mesma coisa porque você é diferente do Lucas que é diferente do Gui que é diferente da Tulipa que é diferente do Siba…
Exatamente. Então é muito cruel a gente tentar entender o que exatamente é. Eu, por exemplo, não parto do papel em branco pensando… “vou fazer um rock” ou “vou fazer um samba”. Eu (simplesmente) vou fazendo e então começo a entender e linguagem estética e a coisa toda parte para um lugar. Mas compreendo a dificuldade (da falta de rótulos), principalmente dos lojistas: em qual lugar em coloco esse CD? (risos)

E como se deu a escolha dessas duas canções: “O Palhaço” e “I Won’t Regret It”?
Essa estrada que eu quis falar tem uma geografia, uma estética, muito especificas. O ponto de partida é São Paulo, então sobe pelo nordeste, norte, reflete o Caribe e os ritmos da América Central. Eu estava muito curiosa por essa mistura da música latina com a música brasileira. (Descobrir) a origem da lambada, da guitarrada, da aparelhagem, do brega, tudo que existe em nossa fronteira. Paralela a essa estética de estrada, notei que a própria estrada tinha uma geografia. Então “O Palhaço”… peguei um samba que pode ser transformado em um filminho, algo meio cinematográfico, de estrada. E o reggae é uma influência que trago desde sempre. E é muito próxima (a conexão da) a aparelhagem de som de Belém com o sistema de som da Jamaica. Acho que é tudo muito próximo, irmão. Basta fazer uma conexão estética.

Em “Baile da Ilusão” você abre cantando “Me colori”. Em “Retrovisor” você cita o “Batom vermelho”, que a Mallu Magalhães também canta em uma das músicas do disco dela (Nota: “Velha e Louca”)…
Dei muita risada disso. Conheço a Mallu, ela é uma fofa. E o clipe é lindo. E o batom vermelho é um tema bonito de se falar (risos).

É um disfarce? Ou é algo como “me pintei pra guerra”?
Não diria guerra… mas tem um aspecto de sair da zona de conforto, da sua casa e ir para o palco… é algo extremamente responsável… que necessita estar muito centrada. E, muitas vezes, você carrega o personagem para o palco. Embora eu tente tratar isso com naturalidade, mas tem esse aspecto de ser cantora e ir para lugares inimagináveis, e amanhã tem avião, show e não sei mais o que, desde a temperatura está fria ou quente… então é uma guerra, mas estamos nessa para fazer bem e da melhor maneira possível. E com alegria, pois é tudo sobre se divertir também!

De onde surgiu a inspiração para o quarteto final da letra de “Amor de Antigos”? Aquela coisa poética de “Nhô Nhô bebeu um gole de cada poro meu / E feito vinho de caju, amarrei-lhe a boca / E nosso amor foi todo à prova de ebó / não teve um só que separou eu de Nhô Nhô”?
(risos) Eu peguei uma citação, uma imagem, como se estivesse conversando com uma senhora e ela me contando a história do grande amor da vida dela. Achei bonito.

“Falta de Ar” me passou uma vibe Tim Maia, fase soul do Roberto Carlos. Concorda?
Não me vem tanto Tim Maia… mas sim aquele fase mais sessenta do Gil. Essa composição é do Gui (Amabis) e me lembra essa coisa Nordeste, essa fase “Oriente” do Gil. E tem tudo a ver com estrada, sair fora…

Apesar de saber que você não acha o álbum “Vagarosa” tão vagaroso (risos), ele é bem lento em comparação com “Caravana Sereia Bloom”, que é mais acelerado (para ficar nas figuras de estrada). O que mudou? É estrada mesmo?
O “Vagarosa” está muito ligado a uma imersão… de segundo disco, de maternidade, de muitas coisas que fazem sentido em torná-lo mais lento. Já o “Caravana” é mais mundano. É mais contos e casos comuns a todos. Ele é muito pessoal, mas também é de todos.

O disco vazou hoje. Como você vê isso?
Com naturalidade. Eu sabia que iria vazar logo. E é uma questão boa por um lado e ruim por outro. É interessante a gente parar para pensar em vários aspectos. Dia desses estava conversando com uma pessoa, comentando que acho muito legal quando o artista pega e dá o disco, mas também acho que a música não é tratada com tanto respeito, como profissão. Você sai à noite, vai em uma balada, deixa o carro em um valet, e paga R$ 30. E muitas vezes as pessoas reclamam de pegar isso por um disco. Sou totalmente defensora (de uma discussão)… é necessário existir uma reforma…

É uma questão muito nova…
Nós somos uma geração transacional. As coisas todas estão se mexendo e nós não sabemos para que lado vai dar. Acho muito saudável a gente conversar, mas conversar mesmo, para que o músico continue conseguindo pagar as contas (risos)… e se virar. Afinal de contas é uma profissão, e a gente se doa muito. Já me perguntaram muitas vezes ao preencher formulários: “Qual é a sua profissão?”. E eu: “Cantora”. E a pessoa: “Não, qual é mesmo a sua profissão?”

Sério?
Sério! Acontece muito, e ainda hoje. É uma coisa para se filosofar a respeito.

– Marcelo Costa é editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne.

13 thoughts on “Entrevista: Céu

  1. Além de excelente cantora Céu está se revelando uma ótima compositora.
    E com a inteligência artística/feeling que tem ela vai longe. Ou melhor, já foi.

    PS: A gravadora dela tirou quase todas as faixas que estavam a disposição no youtube. Santa babaquice, Batman!

  2. Fala(heheheheh, Ismael.
    Lembrando daquele teu comentário bonito no post do fime Palhaço do Selton eu pergunto:
    Vc ouviu a versão dela pra Palhaço do Nelson Cavaquinho?
    Ficou bem boa. Tb, né, acho que nem Tulipa estragaria essa música. rsrsrs
    Colocaram umas palminhas de circo, o pai dela um assovio caprichado e ela cantou respeitosamente com sua bela voz a obra de arte.

  3. Já eu vi o vídeos ontem e, pra minha surpresa, achei bem fraquinho.
    Aquele tecladinho mandrake que ela inventou está atrapalhando sua performance corporal e vocal.

  4. Opa, olha nós fãs da Céu aqui, Zé….

    Esses dias, postei sobre o novo disco dela no Facebook e muita gente comentou achando estranho, dizendo que ligavam o som dela a uma categoria e que,com Caravana Sereia Bloom, de repente, ela saiu dessa categoria.

    E é exatamente isso que faz desse terceiro disco algo bonito, porque ela não quer ficar na zona de conforto.

    Mas vi que muita gente recebeu bem o novo trabalho dela, justamente porque acreditam em seu potencial como cantora. Tanto que, quando saiu a venda de ingressos para o show dela que vai ser feito neste fim de semana, em menos de duas horas já estavam todos esgotados! Não consegui comprar, fiquei puto, mas também fiquei feliz por saber que muita gente ainda bota fé em um artista. Se bem que Céu, hoje, já está no panteão, né?

    Mac, parabéns pela entrevista.

    Abraços!
    Tiago

  5. Comprei o ‘Caravana…’ e não paro de ouvir. Sei que tem uma geração muito boa aí, com gente elevando nossa música aos mais nobres e distintos patamares e tal. Mas essa menina, Céu, ela tem mesmo algo especial, um diferencial que a torna singular no cenário contemporâneo. Uma voz e um charme incomparáveis. E é muito bem acompanhada por ótimos músicos. Algumas cantoras por aí vão ter que buscar sua salvação em outras plagas celestiais, pois no céu maior a sereia aí é absoluta e já se garantiu.

  6. Belo disco. Ela é ótima. ‘Caravana Sereia Bloom’ merece um lugarzinho na estante, junto com os clássicos do Ben, Tim e Erasmo. Ou com qualquer outra diva, seja daqui ou lá de fora.

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