Download: Silva, estreia de Lúcio Souza

por Yuri de Castro

Silva morreu. Mas, antes disso, MC Bob Rum corre pra dizer os atributos de um homem que tirou o domingo para jogar o seu futebol, dar um rosa pra irmã e prometer não demorar. E também para ouvir os graves das caixas da Furacão 2000.

Quase duas décadas depois de “Rap do Silva” instaurar as bases do Funk Carioca, não é muito difícil perceber o que mudou (e também o que segue o mesmo tipo de curso). Bob Rum e os demais DJs e MCs do então movimento funk entenderam com o tempo que o processo não seria horizontal. Do estúdio precário para a rádio comunitária, da rádio comunitária para o bailinho, do bailinho para o principal baile funk da favela, do principal baile funk da favela para o asfalto (e, por conseguinte, para o rádio, para o povo e, dependendo, para a TV).

Tudo isso vem à cabeça ao ouvir o primeiro registro de Lúcio Souza. Com 23 anos, Lúcio assina como “Silva”, seu nome do meio, o EP homônimo. Tão egresso da classe média quanto Lúcio, ouvi “Rap do Silva” após receber de minha mãe uma fita K-7 de Rap Brasil 2, coletânea responsável pela difusão mainstream das melôs e dos raps cariocas que ecoavam há muito tempo nas rádios piratas do Rio de Janeiro. Simples, direta e intermediada por um refrão que transcende o tempo linear da canção, a faixa abriria não só a coletânea, mas também toda a minha forma de enxergar música.

Estamos em 2011. Quando o refrão de “Imergir” surgir pela segunda vez, vai ser impossível ficar inerte. E é bem provável que, por algum tipo de vício, brindemos juntos, eu, você, nossos 20 e poucos anos, a vinda do refrão. Mas é preciso refletir. “Silva” não inebria. É apenas confortavelmente apelativo em suas cinco faixas, um gancho bem no meio do talento de Lúcio “Silva” Souza, hoje prodígio da cena musical da capital do Espírito Santo, Vitória.

Com 23 anos, Lúcio faz par com André Paste em um imaginário de novas possibilidades no Estado do Espírito Santo. Há dois anos, Paste começava a ver seu nome circular por culpa de seus inúmeros mash-ups. Mesma época em que Lúcio já soltava uma releitura aqui e uma inédita acolá em seu perfil no MySpace. Nesta época, a banda Solana repercutia o excelente álbum “Feliz, Feliz” e Vitória parecia ganhar algum fôlego autoral.

Mas era um espasmo. Lúcio se guardou enquanto o Espírito Santo via um punhado de nomes virem à tona e submergir com um descaso de mesma proporção. E, então, dois anos depois, revela-se “Silva” e, com ele, não só o talento de Lúcio (que gravou praticamente todos os instrumentos do álbum), mas, principalmente, que há pouco espaço para quem ainda associa independência artística com desleixo (não proposital) de produção. “Silva”, o EP, é impecável tecnicamente. Desde a arte da “capa” aos passeios caprichados que cada instrumento faz, valorizando as repetidas audições.

A rigor, o rádio tem tocado “Fugidinha” e, mais recentemente, “Ai, Se Eu Te Pego”, ambos na voz de Michel Teló. O funk carioca passa longe da estética dos anos 90. Fala-se de sexo, de conquista, poder, desejo e de falsos orgasmos. Em “Silva” há uma letra assim: “Navios dizem recomeço / do mar ninguém chegou ao fim / eu vou deixar seu nome imergir”. A posição da espera, da passividade, se tornou uma tônica em todo um punhado de singles e álbuns do cenário independente brasileiro. É o brasileiro que luta contra o rádio, mas que não se posiciona assim por ser combativo e, sim, por ser ingênuo. E é ingênuo porque combate com todas as forças o refrão micareteiro de “Ai, Se Eu Te Pego”, mas não percebe o quão apelativo são os acordes de “A Visita”. Se fossemos mais espertos, conjugávamos as duas em uma mesma mixtape em oferta à menina mais gostosa da classe. Mas, não. Separa-se. Diverge-se. E, claro, a menina foge – ou melhor, vai procurar uma fugidinha. E fica-se na lama, tentando compor algo sobre como é difícil ser assim, de como a vida é difícil, de como a rotina é extenuante e de como é ruim tentar ser bom.

Finalizado por Matt Colton, um dos responsáveis pelo álbum homônimo de James Blake, “Silva” não embola e é candidato a preencher os corações carentes de Vitória e o esperado é que se espalhe por todo o país (o que já vem acontecendo, uma vez que já marca presença em cadernos culturais de Rio e São Paulo). Não há derrotismo no álbum. Não há porque derrotismo é conceito. E isso não há em nenhuma das cinco faixas que trazem Lúcio Souza quase oficialmente ao cenário independente e autoral brasileiro. Ainda assim, o EP acaba sendo superior aos seus pares etários, de gênero e, principalmente, conterrâneos.

Uma das piores sensações para quem vai à lona é a ilusão da volta. Recém traumatizado com o último golpe, o atordoado não sabe ainda onde começa a sua infantilidade: se na possibilidade de ficar em pé novamente ou se antes mesmo da luta, na vontade de lutar. E está na lona este gênero que abriga não só este EP de Lúcio Souza, mas uma mão cheia de promessas do semáforo da atual música brasileira. Trôpego, este gênero vê contagens sendo abertas a cada lançamento.

A geração de Lúcio e a de Paste não pode pedir para o DJ soltar o rap. Se insistir, o que irá ouvir será inteligível. Ou melhor, inexpressivo. Discotecar não é um verbo carregado mais de orgulho e quem vai à boate não vai à música. Contraditoriamente, as mesmas pessoas que gastam horas e noites sem dormir nesses estabelecimentos receberão (e já receberam) “Silva” com louvor.

Fato supracitado, “Silva” claramente se eleva musicalmente. Mas os apupos podem ser desesperados por algum tipo de arrebatamento. Há uma necessidade atual de termos um ícone, uma salvação. O que já se faz como independente é, portanto, um mercado. E esse mercado também precisa de uma salvação. E, no Brasil, a cada lançamento, ela vem sendo construída. “Rap do Silva” é mais do que um recado. Em uma aula de música pop, a acapella acachapa o ouvinte, deixando-o intrigado por alguns segundos até que o refrão revelador estraçalha o imaginário. Mas, além disso, “Rap do Silva” é uma música de seu tempo. E músicas do seu tempo ficam acima da discussão do bom e do ruim. “Silva” e seu autor não conseguem isso. Porque as faixas do EP não são de seu tempo. E sim do seu tempo, dos seus anseios e medos. E música, a gente vai sabendo, passa longe de ser essa ou aquela uma música boa. É época e os seus contextos vão cercando a produção de forma que, de repente, estão na memória como uma coisa só.

É só um EP. Lúcio não precisa mais demonstrar a virtuose. Está lá. Do vocal aos timbres. É tudo muito bom. No entanto, a relevância é um dos artigos mais procurados. E o que tem sido colhido, segundo álbum após segundo álbum, é a frustração. Sem ser pai de família e sem ser funkeiro, no meio de uma porção de elogios, a estrela corre risco de não brilhar.

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O EP “Silva” pode ser baixado gratuitamente aqui: http://www.mediafire.com/?cvbddcc5dsn6cl3

Facebook – http://www.facebook.com/listentosilva
Soundcloud – http://soundcloud.com/silvasilva

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Yuri Castro (siga @yuridecastro) é jornalista, locutor do programa Sonar e da Litoral FM e escreve no http://nafita.tumblr.com

13 thoughts on “Download: Silva, estreia de Lúcio Souza

  1. “Discotecar não é um verbo carregado mais de orgulho e quem vai à boate não vai à música. Contraditoriamente, as mesmas pessoas que gastam horas e noites sem dormir nesses estabelecimentos receberão (e já receberam) Silva com louvor.” isso valeu demais!

  2. Creio que a critica do Yuri ao EP poderia ser resumida ao ultimo paragrafo: SILVA, o EP, eh bom e bem produzido, mas nao tem cancha pra ser algo mais, marcar epoca. Nao concordo e nem acho que SILVA, o artista, tenha a pretensao de ser “ícone ou salvação” do cenario musical independente no Brasil. Deixa o muleq fazer a musica dele, que eh muito boa, por sinal.

    No mais, alguem ja disse que escrever eh “a arte de cortar palavras” e isso o autor da resenha precisa aprender. Pra que tanto texto?

  3. Gostei porque gostei. Por que gostei ? Não sei. Só sei é que gostei e pronto! “A visita” é maravilhosa, chega até a brotar inveja salutar na gente. Falou pouco e disse tudo, Parabéns Lúciosomdepoucossilvas e até sempre.

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