Livro: Só Garotos, Patti Smith

por Gabriel Innocentin​i

Ela não sabe cantar, mas sabe amar

“Nova York é um lugar difícil, especialmente se você não tem dinheiro”, disse Paul Auster em entrevista recente ao jornal argentino Clarín. O escritor falava sobre a “cidade inabitável” e os problemas de viver nela quando se é feio e pobre. A impressão é outra quando se lê “Só Garotos”, de Patti Smith.

O tempo e o ambiente são diferentes, é claro. Auster fala sobre o Brooklyn, em um período de recessão econômica e paranóia terrorista. Patti, sobre a Nova York do fim dos anos 60 e começo dos 70, do lendário Chelsea Hotel.

O livro da madrinha do punk soa mais como um romance de formação, nos moldes de “Crônicas”, de Bob Dylan. Ele também falava sobre a dureza dos tempos difíceis na Nova York boêmia dos anos 60. A impressão que se tem é que a Big Apple parecia bem legal se você fosse um artista com talento e um pouco de sorte.

Na época da contracultura, a cidade soava mais acolhedora, mais aberta do que hoje, a julgar pelos relatos de ambos. Um simples corte de cabelo à la Keith Richards era o bastante para uma menina pobre entrar na corte do papa da pop art Andy Wharhol.

Em “Só Garotos”, Patti conta como uma garota seguiu a trilha dos beats e abandonou um razoável conforto familiar em busca do sonho de ser artista na cidade grande. A vida em Nova York não foi fácil: fome constante, dificuldade em arrumar emprego e um teto. Ela romantizava a vida de artista, sonhando com privação, sofrimento e maldição.

Até aí, nada de excepcional, não fosse pela aparição de Robert Mapplethorpe em sua vida. Melhor poupar o leitor de contar como os dois se conheceram, pois é uma dessas histórias que vale a pena ser lida – entregá-la assim seria estragar o prazer da leitura.

Com Robert, Patti pôde finalmente se tornar uma artista, embora tenha demorado alguns anos para encontrar o veículo mais adequado para expressar suas emoções – a música. Parece sempre haver uma trilha sonora de fundo, tantas são as referências, além da devoção de Patti Smith às canções – ela conta que ouvir “Strawberry Fields Forever” três vezes seguidas na jukebox lhe dava forças para continuar a viver.

Mas nem só de rock (“a salvação adolescente em 1961”) vivia Patti Smith. Obcecada por Arthur Rimbaud, ela desejava ser poeta quando adolescente e admirava pintores como Modigliani, Picasso, Frida Khalo, Diego Rivera, Fra Angelico e Albert Ryder. Notável, se a gente lembrar que ela não tinha nem 16 anos e não podia pesquisar esse tipo de coisa no Google.

Um pouquinho de cultura não faz mal

O que isto pode dizer sobre o rock feito no Brasil? Pense em Renato Manfredini Jr., professor da Cultura Inglesa, ligado no que havia de melhor no rock inglês dos anos 80, o trovador solitário (alô, Bob Dylan), cercado de livros de Bertrand Russell e Rousseau. Pense em Agenor de Miranda Araújo Neto, lendo Água Viva mais de cem vezes, musicando trechos de Bukowski e cantarolando sambas de Cartola. Por que eles permanecem, apesar das críticas? Porque eram bons no que faziam, porque deram duro para isso.
Renato Russo sobre “V”: “Eu me preocupo em fazer um texto que daqui a 200 anos, se a pessoa pegar, não vai precisar de nota de rodapé. O que implica que ‘Há tempos’, por exemplo, ‘disseste que se tua voz tivesse força igual / à imensa dor que sentes / teu grito acordaria / não só a tua casa / mas a vizinhança inteira’, pode ser uma vizinhança hi-tech em Nagóia, Osaka, ou pode ser Vila Rica. Isso foi uma coisa com que sempre me preocupei, uma coisa que aprendi com Drummond e Pessoa, não querendo me comparar, é claro”.

Noves fora a megalomania, fica a ambição (infelizmente, existe Humberto Gessinger para provar que somente pretensão e cultura não bastam. Porém, quando não se tem talento, é melhor ter algum conhecimento para não passar vergonha). Daí a tristeza pela falta de engenho e arte no rock cantado em português. Daqui a 200 anos, quem vai ouvir o que toca nas rádios de hoje em dia? Lobão tem razão, como disse Caê.

Não faltavam nem inteligência nem fúria à Patti Smith, educada no saguão do Chelsea Hotel por Allen Ginsberg, Gregory Corso e William Burroughs. É só reparar no verso que abre “Gloria”, sua primeira música no disco de estréia, “Horses”: “Jesus morreu pelos pecados dos outros, não pelos meus”. Quem se importa com o fato de que ela não sabe cantar?

Um elogio do amor

O mundo está careta, mas está cínico também. Por isso é importante acreditar que histórias como a de Patti e Robert sejam possíveis. Aquele amor que faz os amantes crescerem e descobrirem o mundo, com toda a carga de desconfiança, turbulência e dor que isto pode trazer. Ouça “Godspeed”, do disco “Easter”, de 1978.

É comovente que duas pessoas tenham permanecido sempre fiéis com tantas provações. Mais comovente é o próprio livro, uma prova de que nem a morte quebrou o amor de Patti e Robert. Ela prometera contar a história dos dois quando ele morresse. “Aprendi a ver com você e nunca faço um verso ou desenho uma curva que não venha do conhecimento que consegui durante nosso valioso tempo juntos”, diz ela numa cartinha para ele.

Até ler “Só Garotos”, minha história de amor predileta na música pop envolvia John Lennon e Yoko Ono. Você sabe como é. Lennon foi a uma galeria em Londres e topou com a instalação de uma artista japonesa. Uma das “obras de arte” era simples: uma escada, e acima dela, uma lupa. John subiu, pegou a lupa e apontou para o teto. Estava escrito “Sim”. Dali em diante foi paixão fulminante. O mundo ganhou uma polêmica história de amor e, de brinde, a separação da banda de Paul McCartney anterior aos Wings.

Uma espécie de Johnny & June mais delicados, Patti e Robert são o outro lado da moeda: nenhum deles era famoso, viviam na miséria quando se conheceram e a ambição dos dois só fez crescer a carreira artística de ambos. “Amor é antes de tudo uma lição de utilidade”, como disse Frank O’Hara, poeta que cantou Manhattan como nenhum outro antes de Woody Allen.

“Só Garotos” é para todos aqueles que ainda acreditam no amor. Não o amor fácil das telenovelas, das revistas de fofocas, das comédias bobas hollywoodianas – mas o que envolve disciplina, compromisso, comunhão. O amor que permite canções como “God”, de Lennon, e “Because the Night”, de Patti Smith e Bruce Springsteen.

A seu modo, Patti Smith nos ensina que amor não tem nada a ver com moral – é uma experiência espiritual, muito mais elevada do que um simples anel, muito mais elevada do que uma simples assinatura num papel. Tem mais a ver com aquilo de que falava o mitólogo Joseph Campell: “um compromisso com aquilo que você é. Aquela pessoa é literalmente a sua outra metade. Você e o outro são um só”.

E este amor deu origem a uma roqueira punk e a um fotógrafo de temas masoquistas, duas pessoas que estiveram em contato com muitos artistas norte-americanos de valor da segunda metade do século XX. E a gratidão de Patti Smith a Robert Mapplethorpe deu origem a um belíssimo elogio do amor.

Não perco o sono esperando que aconteça para mim, mas como um amigo adora dizer, vamos nos divertir com as pessoas erradas enquanto a certa não vem. E se ela chegar, quem sabe um dia também não escrevo um livro quando tudo que restar seja a memória dos dias felizes.

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– Gabriel Innocentini (@eduardomarciano) é jornalista e assina o blog Eurogol

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Leia também:
– Um passeio no East Village e um show de Patti Smith, por Thiago Pereira (aqui)
– Patti Smith é o símbolo de um tempo que não existe mais, por Marcelo Costa (aqui)
– Patti Smith: “Land, 1975/2002” (aqui) e “Tramplin” (aqui)

12 thoughts on “Livro: Só Garotos, Patti Smith

  1. Bom texto Gabriel.Fiquei com vontade de ler o livro.
    Agora me explica por favor o que você quiz dizer com isso”infelizmente, existe Humberto Gessinger para provar que somente pretensão e cultura não bastam. Porém, quando não se tem talento, é melhor ter algum conhecimento para não passar vergonha”?

  2. Definitivamente esse texto-resenha é tão honesto que mereceria estar em alguma parte do livro, assim, nem que fosse “a la Cortázar” dizendo: “Instruções antes de ler”.
    Lindo! Aplausos!

  3. Há algum tempo eu manifestei a um amigo que justamente sentia falta de poesia na música pop, uma vez que hoje só percebo letras do tipo, “eu sei como o mundo funciona e vou explicar: blá, blá, blá…” Sinto que as letras colocam o Eu desses compositores como a maior referência para a vida dos ‘mortais’ que buscam um espelho para a própria rebeldia. Sem qualquer provocação dos artistas com as maiores vozes (em intensidade sonora, propriedade estritamente física!) no rock Brasileiro, sucumbimos ao que esse gênero musical parece manifestar por aqui: o rock Brasileiro que grita mais alto é um rock… correto. Limpo. Quando quer manifestar algo, é didático, entrega leis e regras sobre a vida percebida, é um olhar salvador e nada generoso. É mais uma instituição musical inquestionável, ou seja, por se ser rock já se cumpre o ‘papel’ de rebeldia (outra regra), mesmo que não se tenha dito/cantado bulhufas!

    “infelizmente, existe Humberto Gessinger para provar que somente pretensão e cultura não bastam. Porém, quando não se tem talento, é melhor ter algum conhecimento para não passar vergonha”. Esse trecho, para mim, valeu o texto inteiro. Pitty também caberia perfeitamente como objeto ali, mas talvez nem valesse à pena ser mencionada. Se frases como “o importante é ser você” e outras escritas de leitores literais do mundo fazem parte do legado artístico que deixaremos para as gerações de daqui a 200 anos, tenho medo e… vergonha. Pelo menos eles têm boas intenções? Poderia ser pior? É pouco. Aliás, temos um ótimo provérbio sobre as boas intenções…

  4. Texto excelente com apenas um pecado: tirar o foco do assunto principal. Logo vão virar esse espaço em uma mesa de discussão sobre Humberto Gessinger. Seria melhor que falasse só de Patti Smith.

  5. Fiquei chocado, fui as lágrimas e estou ao mesmo tempo maravilhado com o testo, mau posso esperar para conseguir o livro. Adoro Patti Smith e seu conjunto da obra. Vida longa a poetiza do punk.

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