Thiago Pethit, um cantor, três universos

texto por Bruno Capelas
fotos por Eduardo Gabriel

No último dia 18/01, no Sesc Consolação, em São Paulo, o cantor Thiago Pethit apresentou, dentro da série de shows “Ingressos Esgotados”, um espetáculo baseado nas canções de Lou Reed. A idéia do projeto era proporcionar ao público uma nova chance de assistir ao repertório de artistas internacionais que passaram pela cidade no ano passado, desta vez em releituras de novos artistas – nos dias seguintes, Juliana R cantou Paul McCartney e a banda Moxine mostrou músicas de Beyoncè. Entretanto, mais do que um simples show de covers, a apresentação de Pethit permite uma reflexão sobre a sua própria carreira – há uma diferença razoável entre a arte que ele faz, a que ele pensa fazer, e a do novaiorquino a qual ele interpretava naquela noite.

O lançamento de seu álbum “Berlim, Texas”, em 2010, fez de Pethit um queridinho da mídia paulistana – uma busca rápida por seu nome no Google trará, em sua primeira página, resultados como “Confirmado: cabelo de Thiago Pethit está na moda”. O cantor, em seu site, alega que o disco se trata de uma viagem entre “as noites frias dos cabarés esfumaçados da Alemanha pré-nazista e os dias ensolarados – e regados a uísque cowboy – dos saloons texanos”. No show, o cantor, acompanhado de uma formação que incluía tanto guitarra, baixo e bateria quanto violino, flauta e saxofone, não só cantou grandes clássicos de Lou Reed como também incluiu algumas canções de sua lavra.

Ao cantar suas próprias composições, como a empolgada “Nightwalker” e a delicada “Mapa Múndi”, o paulistano deixava entrever, em lugar do cantor de saloon, uma aura de bom moço. Era o que ficava claro em versos como “You can break my heart in one or two / or in a zillion pieces”, de “Sweet Funny Melody”, ou no romantismo inocente de “Your shoes will take you for a walk / And they will lead to my door” (“Nightwalker”). Ainda que exista beleza nessas canções, quando elas foram expostas em contraste ao universo de Lou Reed – como nos melhores momentos do show, em “White Light White Heat” e “Sweet Jane” – mostrava-se ali uma grande disparidade. Era difícil acreditar naquele moço no palco cantando, ao mesmo tempo, sobre o “wild side” e “everybody’s darlings” e também sobre seu coração despedaçado de maneira tão inocente que já se sentia mal com apenas duas doses de bebida.


Usando as palavras colocadas na boca de Lester Bangs – um conhecido rival e provocador do líder do Velvet Underground – pelo diretor Cameron Crowe em “Quase Famosos”, “a grande arte é sobre conflito, dor, culpa, saudade, amor disfarçado de sexo e sexo disfarçado de amor”. É o que se vê nas grandes letras e histórias de Lou Reed – um homem que se jogou de cabeça procurando algo maior em namoros com travestis, heroína ou álbuns sobre cabarés soturnos em Berlim. E que também alcançou novas possibilidades musicais, de maneira que ele tornou-se influência para obras musicais tão diferentes como as do cantor Antony (de Antony & the Johnsons), dos Strokes e de Morrissey.

Talvez nem seja o projeto artístico de Pethit ter tamanha proximidade com o mundo de Lou Reed, povoado por figuras de sexualidade por vezes indefinida, perversões e alucinações. Entretanto, o cantor paulistano, ao explicitar que procura fazer um som inspirado nos lugares que dão título a seu disco, acaba se aproximando de outros bardos encharcados pela bebida e pelas drogas e mais do que experientes na vida noturna (e soturna), como Tom Waits e Leonard Cohen. Entre o bom moço, cujo som é bem aceito por adolescentes (a platéia estava apinhada deles e delas, que se derretiam aos versos da já citada “Mapa Múndi”), e o poeta dos lugares que ele mesmo se diz cantor, ainda existe um longo caminho. Possivelmente ele é maior que a distância de 8000 quilômetros, que separa os cabarés e os saloons imaginados por Pethit.

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– Bruno Capelas escreve para o blog coletivo Pop To The People e para o blog Cinéfilos
– Eduardo Gabriel é fotógrafo. Veja mais fotos: www.flickr.com/photos/eduardo_gabriel/

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Leia também:
– Lou Reed castiga as cordas da guitarra em Sâo Paulo, 2010, por Marcelo Costa (aqui)
– Lou Reed ao vivo em Málaga, Espanha, tocando o disco “Berlim”, por Marcelo Costa (aqui)
– Scream & Yell entrevista Juliana R, por Tiago Agostini (aqui)
– Lou Reed explica em diário pq não canta as “velhas canções” (aqui)
– CDs: “Live”, Lou Reed and The Velvet Underground, por Marcelo Costa (aqui)
– CDs: “Berlin Live At St, Ann’s Warehouse”, Lou Reed, por Marcelo Costa (aqui)
– Top Ten Shows internacionais: Lou Reed em São Paulo, 2001, por Marcelo Costa (aqui)
– Os dez discos mais influentes de todos os tempos, por Marcelo Costa (aqui)

17 thoughts on “Thiago Pethit, um cantor, três universos

  1. Será que é por isso que a música do Thiago fica no campo da fofura, do lindo? Isso não é um problema pra mim, mas não me faz mergulhar nem me instiga saber do que ele ta falando. Fico na música, na melodia, no clima. “O Último a Saber” é um passaporte para Argentina com aquele clima e acordeon. =]
    Me lembrei do bom moço Roberto Carlos dos anos 60. Pegando tudo que era referência de rebeldia e filtrando – e sendo filtrado – pra fazer um produto limpinho pro Brasil todo consumir.
    Não estou comparando Pethit com Roberto. Estou falando do bom moço sendo influenciado pelo outsider sem sair do seu mundo e viver o do outro.
    Serão os Novos Paulistas a nova Jovem Guarda prontos para tomar o país com seus bons sons e boas atitudes?
    =] Mas tudo é música…

  2. Estive no show e me impressiona este texto, pronto e ao ponto para criticar o trabalho do artista. Sem citar que o show foi lindo, bem pensado, extremamente bem cantado (a ponto das vozes de Pethit e Lou Reed, timbrarem quase iguais em muitos momentos) e que o cantor não deixou a desejar nas canções alheias – o autor deste texto consegue apenas dizer ” que entre Pethit e Lou” ou comparando-o com o que quer que seja grande demais pra qualquer um (tom waits e leonard cohen) ele deixa a desejar! Oras, qualquer um deixa. Há sim muita distancia entre o que ele faz e o que vc quer assistir. Como o que vc escreve e o que gostaria de escrever. Isso não diminui tua possibilidade de aprender.

    Parece que fosse o que fosse, por mais perfeito, haveria uma falha no que quer que o autor quisesse assistir.

    Ai ai, estes blogs e estes jornalismos de hoje.

  3. Caros, vamos tentar manter um nível legal nos comentários, por favor. Bruno refletiu sobre o show que viu, e pode-se concordar ou discordar, com argumentação. Se não há argumentação, apenas ataques, é falta de respeito, e com certeza existem outros lugares mais adequados que um site de cultura para exercitar a falta de respeito.

  4. Só queria comentar que o mesmo Bruno que escreveu este texto, disse no twitter que ouviu “Blondie” pela PRIMEIRA VEZ esta semana….sem mais comentários.

  5. André, o texto do Bruno está ótimo, argumentativo e opinativo. Você pode não concordar com o ponto de vista, tem todo o direito, mas dai a diminuir o trabalho do profissional (e todos os jornalistas que não têm a mesma opinião que você) demonstra falta de respeito. Parece que fosse o que fosse, por mais perfeito, haveria uma falha no que quer que o leitor quisesse ler. Porém, o mundo é diferente. As pessoas são diferentes e observam as coisas por ângulos diferentes. Nem precisa concordar, mas seria legal respeitar a opinião do outro. Mesma que seja contraria a sua. O jornalismo é muito mais do que o profissional ser bom porque fala bem do artista que você ama.

  6. Os comentarios são bem mais legais que o texto, com certeza. Ah, os comentarios tambem são MUITO MAIS DIVERTIDOS que o Thiago Pethit! 😛

    E o cara nao fala em sambinha uma unica vez…. hehehehehe

    Respeito o som do Thiago Pethit, mas ele não me envolve e nem me atrai, acho chato. Mesmo misturando com artistas como o Lou Reed. Nunca vi o Lou Reed ao vivo, mas ja vi o Thiago no Coquetel Molotov, nao consigo ver semelhança nenhum!

    Mas cada um ver o que quer e onde quer.

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