Cinema: Biutiful, Alejandro Iñárritu

por Juliana Torres

O que fazer quando sua vida vai de cem a zero em dois meses? Este é o dilema do novo filme de Alejandro González Iñárritu, diretor dos brilhantes “21 Gramas” (2003) e “Amores Brutos” (2000), em seu primeiro longa sem o roteirista Guillermo Arriaga, que o acompanhou nos dois elogiados filmes acima e roteirizou, ainda, “Babel”, indicado a Melhor Filme no Oscar de 2007 e vencedor do Globo de Ouro na categoria Drama no mesmo ano – fechando o que veio a ser conhecido como a “trilogia da dor”, de Iñárritu e Arriaga.

Em “Biutiful”, Javier Bardem é Uxbal, um médium, pai de duas crianças negligenciadas, marcado por uma infância sem presença paterna, que tenta lutar pela sobrevivência. O filme acompanha a vida de Uxbal, que procura redenção e perdão quando descobre que um câncer terminal poderá separá-lo de tudo o que mais ama: sua família. Você já viu isso antes, não é mesmo?

“Biutiful” poderia ser um clichê qualquer não fosse a facilidade de Iñárritu em dirigir seus personagens. Javier Bardem se transforma em um aproveitador, que ganha a vida explorando imigrantes no trabalho escravo e conversando com os mortos, em velórios, tentando confortar suas famílias, coisa que não poderá fazer quando chegar sua hora de partir.

Iñárritu emprega a clássica estilização da violência. Uma explicação a um ato de vilania que parece ser imposto pelo próprio estilo de vida de seu personagem principal. Aqui, todo e qualquer pecado será justificado. Uma pessoa que teria tudo para ganhar sua antipatia se torna o centro de uma história dramática e a maior vítima de suas próprias ações. Lembra o Benigno, de “Fale com Ela”, de Almodóvar? Bingo.


Uxbal vive com os filhos em Barcelona, no decadente bairro El Raval, tentando salvar sua esposa bipolar da completa destruição pessoal, e tem dois meses apenas para consertar tudo. Não há nenhuma reviravolta no roteiro. Iñárritu sai de sua zona de conforto ao oferecer ao espectador uma história quase estática, embora ainda com cenas ofegantes como uma em que Uxbal recebe a notícia de que o câncer está avançado e que nenhuma quimioterapia do mundo poderia salvá-lo.

“Biutiful” é profundo e, praticamente, um filme de personagem – que rendeu merecido prêmio de Melhor Ator para Bardem no Festival de Cannes 2010. Fica clara sua tranqüilidade ao atuar falando em sua língua materna. Em 2008, Javier ganhou um Oscar por sua atuação em “Onde os Fracos Não Têm Vez”, dos irmãos Cohen, sem praticamente gastar o inglês (mas a grana do cabelereiro não deve ter ficado barata).

Depois disso, viveu em “Vicky, Cristina Barcelona”, de Woody Allen, um artista plástico sedutor (a lista de mulheres ao seu redor continha Penélope Cruz, Scarlett Johansson e Rebecca Hall), contracenando mais uma vez em espanhol e sendo indicado a três prêmios, incluindo outro Globo de Ouro. Agora, na produção mexicana, Bardem demonstra novamente seu talento e pode fazer com que o filme apareça entre os cinco finalistas do Oscar. Sua atuação credencia.

Em “Biutiful”, Iñárritu trata a vida como uma peça preciosa que deve ser respeitada até o último instante. Ao escrever o roteiro, o diretor mexicano (auxiliado por Armando Bo e Nicolás Giacobon) se preocupou em mostrar como você pode mudar em cinco minutos, com uma notícia, com um diagnóstico. Javier adotou Uxbal e seu personagem desbravou Barcelona como poucos conseguiram fazer. Cada viela, cada situação foi aproveitada. Vale cada um dos 147 minutos que te deixarão algumas lágrimas mais seco. E é… bonito.

Leia também:
– Um liquidificador dramático chamado “Babel”, por Marcelo Costa (aqui)
– O moralismo de “Amores Brutos” não incomoda, por Marcelo Costa (aqui)
– “Vicky Cristina Barcelona”, ou aqueles que amam em silêncio, por Marcelo Costa (aqui)
– “Onde Os Fracos Não Tem Vez”, uma pequena centelha da vastidão do universo, (aqui)

5 thoughts on “Cinema: Biutiful, Alejandro Iñárritu

  1. Muito legal o texto!

    So uma pequena correcao (geografica!) Uxbal e a familia nao moram na periferia de Barcelona… mas sim no bairro do Raval, uma parte mais decadente (muita prostituicao e drogas…) do centro a que comeca nas famosas Ramblas (o ponto turistico mais lotado de Barcelona), mas que nos ultimos anos tem sido revitalizada, com a criacao por exemplo, do MACBA e o CCCB (centros de arte e exposicoes… o proprio MAC escreveu aqui http://screamyell.com.br/blog/2010/05/29/uma-tarde-caminhando-no-el-raval/)

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